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O Fliegendabwehrkanone (FlugzeugAbwehrKanone) 8,8 cm,
mais conhecido entre as tropas da Wehrmacht como "acht-acht",
e entre os aliados como "88", surgiu em 1928,
como Flak 18, desenhado pelas Usinas Krupp, de Essen,
na Alemanha. A origem dessa arma remonta à Guerra
Franco-Prussiana de 1870. Durante o sítio de
Paris, os franceses lançaram mão de alguns
balões aerostáticos para observação
do movimento das tropas prussianas. O exército
imperial solicitou às Usinas Krupp que providenciassem
uma arma eficaz contra o equipamento francês,
e o resultado foi o BAK 37 (de Balone Abwehrkanonne,
"canhão de defesa contra balões").
Tratava-se de uma peça de campanha de 3,7 cm
que, perdendo as rodas e ganhando traves de madeira,
era montada em uma carroça, num reparo que permitia
uma elevação de aproximadamente 60 graus.
Esse modelo continuou em atividade após o fim
das hostilidades.
Em 1909, quando começaram a ser introduzidas
na Alemanha as primeiras aeronaves de uso militar, o
exército observou que, a uma altura de mais de
2500 metros (teto máximo das aeronaves daquela
época), tanto o BAK 37 quanto as metralhadoras
usando o cartucho IS 7,92 mm eram totalmente ineficazes.
Entretanto, aquela altura, as aeronaves não eram
consideradas ameaça, de modo que, no início
da Primeira Guerra Mundial, o exército alemão
não dispunha de nenhuma arma genuinamente anti-aérea.
O desenvolvimento da aviação, durante
a Grande Guerra, foi notável. Todos os beligerantes
perceberam a superioridade do avião sobre o balão,
como meio de observação, e logo essas
aeronaves começaram a ser caçadas tanto
por aeronaves especialmente concebidas (os "caças"),
quanto por salvas disparadas do chão. Ainda assim,
o armamento anti-aéreo que começou, então,
a ser desenvolvido constituía-se de tubos de
canhões de campanha de médio calibre montados
sobre reparos que permitiam uma ampla elevação.
Para aeronaves que voavam no máximo a 3000-3500
metros de altitude, isso parecia ser suficiente.
Entretanto, a partir de 1916 começaram a surgir
aeronaves multi-motores, capazes de alcançar
um teto máximo de 4500 m a uma velocidade de
120 km/h - eram os primeiros bombardeiros pesados. Em
vista dessa nova ameaça, em 1916 a Krupp adaptou
o canhão de campanha de 8,8 cm colocando-o sobre
numa plataforma com rodas, rebocada por um caminhão.
Para ser colocada em "bateria" (posição
de tiro) as rodas eram removidas e quatro braços
dotados de macacos estabilizavam o conjunto, que pesava
uns 7300 kg. A elevação máxima
chegava a 70 graus, pois descobriu-se que um valor maior
poderia desestabilizar a arma durante o disparo. Essa,
de ação semi-automática (expulsava
o cartucho vazio da câmara sem necessidade de
ação humana), foi denominada Geschütze
8,8 Flak (Flug Abwehr Kanonne, "canhão de
defesa contra vôo"). Utilizava munição
de 9500 g, sendo que o projétil de alto explosivo
pesava 2770 g, com uma velocidade de boca de 785 m/s,
o que permitia que atingisse a altitude de 3850 m (a
mesma peça, empregada em terra, tinha alcance
de 10.800 m).
Durante a guerra, o 8,8 cm foi utilizado na defesa
dos parques industriais do Reno e do Rhür, sendo
que alguns chegaram a ser instalados em Berlim. Depois
do final da guerra, o Tratado de Versalhes proibiu a
Alemanha de desenvolver e fabricar armas anti-aéreas,
de modo que os novos desenhos que estavam sendo concebidos
foram abandonados.
Durante o período entreguerras, o desenvolvimento
da aviação militar foi notável.
Nos anos 1920 começaram a aparecer aviões
que facilmente superavam a velocidade de 350 km/h e
alcançavam um teto máximo de 6000 m. A
velocidade de boca do projétil passou a ser crucial,
visto que era necessário um projétil que
não desacelerasse muito rapidamente devido à
força da gravidade.
A resposta dos engenheiros alemães seria o Flak
18 (o "F" mudado para Fliegend "equipamento
voador", ou "aeronave"; hoje em dia,
a palavra "Flak" é uma espécie
de gíria para "defesa anti-aérea").
Este começou a ser concebido na primeira metade
dos anos de 1920, quando o Reichswehr, o exército
nacional que havia sido organizado após a guerra,
realizando estudos chegou a conclusão de que
havia necessidade de uma artilharia anti-aérea
pesada. Os militares alemães concluíram
que o menor calibre aceitável era o 7,5 cm, e
uma arma começou a ser concebida na Suécia,
junto com os arsenais Bofors. Na fase de protótipo,
os engenheiros perceberam que o desenvolvimento desse
projétil para maiores velocidades de boca seria
problemático. O exército então
solicitou um calibre maior, demanda atendida tanto pela
Krupp quanto pela Rheinmetall.
O calibre 8,8 foi considerado ideal, mas se teve de
desenhar um novo cartucho. Essa nova munição,
de projétil ogival, montada junto com o estojo,
pesava 10400 g e tinha uma velocidade de boca de 820
m/s, alcançando um teto máximo de 8900
m. Empregado como peça de artilharia de campanha,
tinha um alcance de 14800 m. Os protótipos não
poderiam ser testados na Alemanha, de modo que a equipe
de projeto transferiu-se para a Suécia, iniciando
o projeto de um canhão em torno desse novo cartucho.
O resultado foi um canhão cujo tubo era forjado
em uma única peça, de 56 calibres de comprimento,
com câmara de operação semi-automática,
que permitia a extração do estojo vazio
e introdução de um novo independente da
parada do recuo. Isto permitia uma cadência de
fogo de 15 a 20 disparos por minuto, dependendo da habilidade
da tripulação. O conjunto era montado
sobre um reparo cruciforme, que permitia conteira de
360 graus com uma elevação de 77 graus.
Uma vez posto em bateria, ficava fixado sobre macacos
reguláveis. Para transporte os braços
laterais da "cruz" eram rebatidos e dois eixos
de rodas, introduzidos. O peso do conjunto era de 4985
kg. Ficou pronto por volta de 1929.
A construção e testes dos protótipos
cercou-se de segredo, visto que a re-militarização
alemã ainda não tinha acontecido. O cano
era fabricado em uma peça única, o que
tornava o conjunto extremamente difícil de reparar,
e muito dispendioso. Isso se devia ao fato de que, em
função da rapidez da cadência de
fogo, o desgaste do cano mostrou-se muito maior do que
o esperado, sendo que a taxa maior acontecia na região
imediatamente anterior à boca. A enorme pressão
aplicada ali pela alta velocidade e alta taxa de giro
axial do projétil e pela saída dos gases
provocava atrito no raiamento, que acabava por perder
a eficiência. Esse problema não foi corrigido
imediatamente, pois a nova peça pareceu muito
eficaz. Começou a ser distribuída em 1933,
como Flak 18 8.8 cm.
Diversas modificações foram sendo introduzidas,
conforme a peça ia sendo testada pelo exército.
A principal delas consistiu na divisão do cano
em três peças separadas: câmara,
seção central e seção de
boca, unidos por uma espécie de jaqueta. A divisão
tornava a manutenção mais fácil
e diminuía o custo do conjunto. Essa modificação
teve de ser acompanhada por outras, no reparo, na plataforma
e na carreta de transporte.
Testes de campo realizados em 1935 e 1937 mostraram
que a nova arma poderia ser empregada como canhão
de apoio à infantaria, além de estabelecer
a precisão e potência do projétil
AAe. Embora o tubo continuasse o mesmo, diversas mudanças
no reparo e na plataforma foram feitas ,de modo a tornar
o conjunto mais estável durante o tiro. Uma nova
carreta de transporte for desenhada, na qual a posição
das rodas foi abaixada e o mecanismo e fixação
da plataforma na carreta, modificado, de modo que a
altura do conjunto canhão, reparo-plataforma
podia ser regulada antes da remoção da
carreta. Essa nova plataforma, denominada Sonderanhänger
201 ("carreta especial") se mostrou eficaz
o suficiente para permitir o tiro em ângulos fechados
de elevação, sem a remoção
da plataforma da carreta, o que permitiu o uso do canhão
contra alvos terrestres. Essa nova versão foi
distribuída como Flak 36
A Guerra Civil espanhola iria prover um vasto campo
de testes para as novas armas alemãs. Hitler
resolveu, por questões políticas, enviar
um corpo de voluntários, que nada mais eram do
que especialistas das forças armadas, cujo maior
contingente pertencia à Luftwaffe. Como a artilharia
anti-aérea era responsabilidade desse ramo da
Wehrmacht, alguns Flak 18 e 36 foram acrescentados ao
inventário de armamentos levados para a Espanha.
Algumas modificações de projeto foram
acrescentadas os novos canhões, em função
da experiência espanhola. A carreta e a plataforma
se tornaram ainda mais estáveis. Essas modificações
não chegaram a resultar em uma nova versão,
mas confirmaram as potencialidades do projetil 8,8,
inclusive como munição antitanque. Na
Espanha, o canhão foi utilizado nesta função
em algumas oportunidades, mas o número de peças
disponíveis era muito pequeno para possibilitar
testes de campo efetivos, embora alguns tanques republicanos
e pontos fortificados tenham sido destruídos
através do chamado "tiro tenso". Para
essa função foi aperfeiçoado um
mecanismo de pontaria baseado em um visor telescópico,
que passou a ser distribuído em 1938.
O Flak acht-acht constituiu um autêntico sistema
de armas. Ainda que o canhão (o sistema tubo-reparo-plataforma)
tivesse atingido um ponto de razoável eficácia,
não constituía, por si só, um real
sistema de defesa anti-aérea. O passo seguinte
foi o aperfeiçoamento do sistema de pontaria,
que passou a ser integrado a um sistema de controle
de fogo. O centro desse sistema de controle de fogo
era o aparelho conhecido como Übertragung 30 ("transportador").
Um computador de dados analógico, conhecido como
Voraussichter ("preditor") compilava dados
de telemetria, constituídos por velocidade aproximada,
altitude e direção da aeronave inimiga,
levantados através de observação
via instrumentos óticos. Compilados os dados,
eram convertidos em sinais elétricos e transmitidos
para um sistema de lâmpadas situado na plataforma
do canhão. O impulso elétrico acendia
uma lâmpada, e o operador da peça tinha
então de mover ponteiros correspondentes, até
que estes cobrissem a lâmpada acesa. O sistema,
lançado no início dos anos 1930, se demonstrou
insatisfatório, e, em em 1939 surgiu o "Transportador
39", que introduzia motores elétricos sincronizados,
operando um conjunto de ponteiros a partir de sinais
elétricos enviados pelo "preditor".
Outro conjunto de ponteiros era ligado mecanicamente
à plataforma.
O apontador operava estes últimos por meio de
rotores mecânicos, de modo que coincidissem com
aqueles que indicavam os dados compilados pelo previsor.
Os dados para ajuste de pontaria eram, então,
transmitidos à plataforma, permitindo que o canhão
fosse colocado em posição de disparo.
Este sistema revelou-se extremamente preciso, e foi
a base da defesa anti-aérea da Alemanha durante
a Segunda Guerra Mundial. Durante a guerra, aperfeiçoamentos
consistindo na ligação do "preditor"
com aparelhos de radar melhoraram consideravelmente
a eficácia do sistema.
No início da guerra, a Luftwaffe previu a necessidade
de contar com um Flak cujo teto de emprego fosse ainda
maior, visto que os bombardeiros quadrimotores ingleses
e norte-americanos podiam operar a 8000 metros de altura.
Esse canhão precisaria, portanto, ter uma velocidade
de boca inda maior, o que implicava num novo tubo e
nova plataforma. A Rheinmetall-Borsig começou
a estudar o projeto por volta do final de 1941, e os
primeiros exemplares começaram a ser distribuídos
em no início de 1943, designados como Flak 41.
A nova versão tinha peso total de 11240 kg e
peso de combate de 7800 kg. O projétil também
foi totalmente redesenhado, de modo a atingir uma velocidade
de boca de cerca de 1000 m/s, o que o fazia alcançar
6336 m, com um projétil de 9200 g. Incorporava
um mecanismo de disparo elétrico, operacional
quando o canhão estivesse sendo usado contra
alvos terrestres. Neste caso, seu alcance chegava a
15000 m, eficaz até 10000m, o que o tornava uma
arma antitanque imbatível: o projétil
perfurante podia penetrar blindagens de até 210
mm, com inclinação de 50 graus. O Flak
41 deu origem à primeira versão do canhão
8,8.
A carreira do acht-acht abrangeu toda a guerra, e
esse se tornaria praticamente sinônimo de canhão
alemão. A última versão especializada
seria produzida, com pequenas modificações,
para instalação como armamento de blindados,
denominada KwK 36 (KampfwagenKanonn, "canhão
de carro de combate"), de 56 calibres.
Dados não muito precisos indicam que por volta
de 17000 tubos calibre 8,8 cm tenham sido produzidos
durante a guerra, número que sobre a cerca de
19000 tubos caso sejam somados aqueles especialmente
projetados para uso em veículos blindados.
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