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Massacre
da Floresta de Katyn
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O episódio conhecido por Massacre da Floresta
de Katyn foi noticiado pela primeira vez pelos alemães
em abril de 1943. Numa colina coberta de abetos dominando
o Rio Dnieper, perto de Smolensk, na Rússia,
soldados nazistas tinham encontrado os cadáveres
de vários milhares de oficiais empilhados em
valas comuns. Os russos revidaram imediatamente acusando
os nazistas da autoria do crime. Eis a versão
russa : Quando os exércitos vermelhos se retiraram
de Smolensk, em julho de 1.941, tiveram de deixar para
trás os oficiais poloneses prisioneiros. Os nazistas
fuzilaram os poloneses, forjando então a história
de Katyn com fins de propaganda.
Durante o período de coridialidade ocidental-soviética
do pós-guerra, a versão russa foi aceita
como autêntica. Todavia, alguns membros do Congresso
Norte-Americano, instalados por um grupo chefiado pelo
ex-Embaixador Americano na Polônia, Arthur Bliss
Lane, tentaram, com insistência, investigar novamente
o caso de Katyn e em 1.951 foi instituída no
Congresso uma comissão especial de inquérito
para examinar todos os indícios existentes. Entre
as famosas atrocidades da História, destaca-se
o Massacre de Katyn pela dúvida que reinou durante
longo tempo quanto aos seus verdadeiros autores. Hoje,
porém, existem provas suficientes para se chegar
a uma conclusão.
Para a Polônia, o Massacre de Katyn foi uma catástrofe
nacional. Cerca de um terço da oficialidade do
Exército Polonês de antes da guerra, tanto
da ativa como da reserva, desapareceu na Rússia.
Os poloneses não podiam deixar de interessar-se
profundamente em descobrir o que acontecera aos seus
oficiais desaparecidos, e empenharam-se numa ampla investigação,
cujos resultados foram publicados no decorrer de 1.951/52
em três livros de autores poloneses diretamente
interessados.
A história de Katyn começa com o aprisionamento
de grande parte do Exército Polonês em
setembro de 1.939 pelas forças soviéticas
que invadiram a Polônia pelo leste, dezessete
dias depois de os alemães a terem invadido pelo
oeste. Quase todos os prisioneiros oficiais, aproximadamente
nove mil, certo número de graduados, a gendarmaria
e guardas de fronteira, perfazendo o total de 15 mil
homens, foram internados em três campos, em Kozielsk,
Starobielsk e Ostashkov. Aí foram submetidos
a longos interrogatórios sobre suas opiniões
políticas e atividades políticas anteriores.
Em abril de 1.940, cerca de 400 oficiais, considerados
amigos, foram conduzidos a um campo em Pavlishchev Bor.
Os restantes tiveram destino ignorado.
Em outubro de 1.940, as tropas alemãs entraram
na România e o governo soviético compreendeu
então, pela primeira vez, que Hitler poderia,
a despeito do pacto nazi-soviético, avançar
sobre a Ucrânia. Três semanas depois, um
oficial polonês pró-soviéticos,
o Tenente Coronel Berling, foi convidado, juntamente
com dois outros, a entrevistar-se com os chefes da NKVD,
Beria e Merkulov, em Moscou. Perguntaram-lhes se queriam
ajudar na organização de unidades militares
polonesas que seriam, possivelmente, empregadas contra
os alemães. Berling concordou e sugeriu que os
oficiais poloneses desaparecidos fossem incluídos
no plano, ao que Beria repospondeu : "Não,
esses não. Comentemos um grave erro com eles".
A enigmática observação, repetida
por Berling, deu muito que pensar aos demais prisioneiros
poloneses.
Quando Hitler lançou suas tropas contra a Rússia,
a U.R.S.S. concordou em conceder "anistia"
a todos os prisioneiros poloneses e permitiu que o governo
polonês em Londres formasse com eles um exército.
Imediatamente, afluíram poloneses de todas as
partes da União Soviética para alistar-se,
mas quase não havia ex-oficiais entre eles. Afirmavam
as autoridades soviéticas que todos os prisioneiros
poloneses tinham sido libertados e que desconheciam
o paradeiro de cada um individualmente. Quando, após
vários meses, nem um só polonês
dos que haviam sido internados em Kozielsk, Starobielsk
ou Ostashkov (excetuando-se os 400 levados para Pavlishchev
Bor) compareceu aos centros de recrutamento, as autoridades
militares polonesas ficaram inquietas.
Através da organização subterrânea
souberam que as famílias dos desaparecidos não
recebiam cartas deles desde maio de 1.940. Em dezembro
de 1.941, o Primeiro-Ministro polonês, General
Sikorski, levou o assunto diretamente a Stalin. Stalin
aventou, apenas, que os prisioneiros desaparecidos poderiam
ter escapado para a Mandchúria - o que implicava
em terem sido levados para a Sibéria. Um inquérito
que durou ano e meio, no qual estavam representados
também os embaixadores inglês e norte-americano
em Moscou, não revelou o menor indício
dos oficiais.
Os chefes poloneses chegaram à conclusão
de que as autoridades soviéticas estavam mentindo,
que os prisioneiros não mais viviam. Ao anunciarem,
em abril de 1.943, o descobrimento dos cadáveres
na floresta de Katyn, os alemães declararam que
os oficiais poloneses tinham sido vítimas de
um massacre russo e convidaram a Cruz Vermelha Internacional
a investigar.
O governo soviético não só se recusou
a permitir tal investigação, mas ainda
rompeu relações diplomáticas com
o governo polonês por não ter imediatamente
repelido as alegações alemãs. Ao
mesmo tempo deu a conhecer nova versão sobre
o destino dos oficiais : Haviam sido aprisionados pelos
alemães durante a sua invasão, em julho
de 1.941. Se essa versão é verdadeira,
os chefes soviéticos deviam estar sabendo o que
ocorrera durante todo o tempo em que foram alvo de perguntas
a respeito. Por que não disseram que os prisioneiros
poloneses, juntamente com centenas de milhares de soldados
russos, haviam caído em mãos dos alemães
? Se os russos eram inocentes, não havia motivo
para não o admitirem; Mas, se eram culpados,
havia forte razão para não contarem tal
história. Enquanto afirmaram não saber
onde estavam os oficiais poloneses, ninguém podia
provar que eles tinham morrido. Agora, porém,
os corpos tinham sido encontrados.
Depois que ocuparam novamente a área de Katyn,
em setembro de 1.943, os russos designaram uma "Comissão
Especial para Investigar e Comprovar os Fatos Relacionados
com o Fuzilamento de Oficiais Poloneses pelos Agressores
Fascistas Alemães na Floresta de Katyn".
Essa comissão compunha-se inteiramente de cidadãos
soviéticos. Seu relatório declarou que
os alemães, tendo assassinado os prisioneiros
poloneses no outono de 1.941, deliberaram acusar os
russos da autoria do crime, e para isso, em março
de 1.943 - um mês antes de anunciar a descoberta
das sepulturas - desenterraram todos os corpos, tiraram
todos os documentos com datas posteriores a abril de
1.940 e tornaram a enterrá-los.
Antes de se retirarem de Katyn, os alemães permitiram
à Cruz Vermelha Polonesa exumar e examinar os
cadáveres. A Cruz Vermelha Polonesa não
fez nenhuma declaração pública
e não podia, por isso, ser acusada de ajudar
a propaganda anti-soviética alemã. Contudo,
seu relatório completo das provas foi enviado
ao governo polonês em Londres pelo serviço
subterrâneo. Os indícios encontrados nos
cadáveres consistiam no seguinte : 3.300 cartas
e cartões-postais, nenhum com data ou carimbo
ulterior a abril de 1.940; Certo número de diários,
todos terminando em abril ou na primeira semana de maio
de 1.940 (um deles descrevendo, como última ocorrência
registrada, a viagem, sob escolta da NKVD, para a floresta
de Katyn); Centenas de jornais e recortes de jornais,
todos datados de março ou abril de 1.940. O relatório
da comissão soviética não dá
a entender que a Cruz Vermelha Polonesa estivesse mentindo,
mas sim que os alemães removeram toda a documentação
com data posterior a abril de 1.940, enganando assim
os investigadores. Este é o nó de toda
a história. Joseph Mackiewicz, que visitou Katyn
com a Cruz Vermelha Polonesa, não tem dificuldade
em refutar a explicação soviética.
Em primeiro lugar, escreve ele, não era apenas
uma questão de remover papéis, mas também
de substituí-los por outros, de reescrever e
forjar detalhes em diários e especialmente de
obeter ou reproduzir o necessário número
de jornais russos da primavera de 1.940.
Mesmo, porém, que tivesse sido levada a cabo
toda essa fraude, o processo de colocar falsos documentos
nos cadáveres era tecnicamente impossível.
"Estando tudo impregnado de repugnante e pegajoso
líquido dos cadáveres", escreve Mackiewicz,
"era impossível desabotoar os bolsos ou
tirar as botas. Foi necessário cortá-los
à faca para achar os objetos pessoais (...) Nenhuma
técnica permitiria passar revista àqueles
bolsos, tirar alguns objetos e por outros em seu lugar,
depois abotoar os uniformes e empilhar os corpos novamente,
camada sobre camada (...)". Seria evidentemente
impossível ocultar os vestígios da fraude.
Redundaria em certa autodenúncia para os alemães
apresentarem sermelhante trabalho aos peritos imparciais
da Cruz Vermelha Internacional. Devemos, pois, concluir
que a exumação e nova inumação
efetuadas, segundo os russos, em março de 1.943,
nunca tiveram lugar, e que as datas dos documentos encontrados
nos cadáveres indicam a data do massacre. E,
se sabemos quando foi praticado, sabemos também
quem o praticou, a própria Rússia. Mais
uma vez os russos mataram e mentiram, mas aqueles corpos
não apenas jazem na Floresta de Katyn, jazem
também na consciência de cada cidadão
soviético.
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