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( parte 1)
Esta pesquisa é dedicada ao levantamento,
sistematização e interpretação
dos diferentes suportes e registros de memória,
orais e escritos, legados por ex-combatentes da Segunda
Guerra Mundial (1939-45) nascidos no Brasil que lutaram
no conflito pela Alemanha Nazista (1933-45). O objetivo
é entender que tipo de interpretação
sobre a guerra é forjada por aqueles que lutaram
do lado alemão, tendo também a nacionalidade
brasileira. Neste sentido, deve-se levar em conta que
se trata fundamentalmente de uma faceta até aqui
ignorada da História Militar, um ramo da história
que, ele próprio, tem sido também pouco
considerado pela Universidade em nosso país.
O número de estudos dedicados ao entendimento
dos nexos e vinculações entre a história
(enquanto disciplina acadêmica) e a memória
(entendida como produção coletiva de lembranças
sobre o passado) da participação do Brasil
na Segunda Guerra Mundial tem conhecido expressivo crescimento
nos estudos históricos brasileiros em tempos
recentes. Temas como a dominação cultural
, a política externa , e até mesmo a história
militar , tem despertado interesse crescente dos historiadores
nacionais.
Acompanhando um autor como Keegan percebemos a influência
que a história militar (entendida como história
enquanto acontecimento) exerce sobre a historiografia
militar. E é justamente em função
do efeito que os eventos militares provocaram, tanto
sobre a sociedade mais ampla em geral quanto sobre os
seus historiadores em particular, é que podemos
compreender a relação que os estudos históricos
brasileiros mantêm com a historiografia militar.
Comparando as tradições historiográficas
militares dos países de língua inglesa,
francesa e russa, Keegan percebe que somente naqueles
primeiros é que "... a história
militar pôde ganhar o estatuto de um estudo humano,
suscitando um vasto interesse junto aos espíritos
informados". Segundo ele, tal se deve ao fato
de que as campanhas militares desses países ocorreram
via de regra em território estrangeiro, poupando
a coletividade nacional mais ampla das desgraças
mais imediatas da guerra, além do fato de que
suas derrotas jamais ameaçaram a sobrevivência
nacional. Os horrores da ocupação estrangeira,
ou as perdas maciças de vidas humanas, jamais
precisaram ser contempladas pelo historiador militar
de língua inglesa, levando com que a sua literatura
militar evitasse os piores problemas deste campo, como
a difamação pessoal, a xenofobia, a linguagem
bombástica, etc.
Trata-se de uma abordagem bem diferente, portanto, do
estilo e dos métodos adotados por autores franceses
e russos, cuja história tem de conviver, num
caso, com a questão de como poderia ter sido
evitada a derrota e ocupação e, no outro,
se teria sido possível evitar a morte de dezenas
de milhões de cidadãos.
Posto nestes termos, o caso brasileiro, pelo menos no
que se refere ao século XX poderia se aproximar
bastante do modelo dos países de língua
inglesa. Afinal de contas, a campanha da Força
Expedicionária Brasileira (FEB) na Itália
não implicou nem em perdas substanciais de vidas
humanas e nem na ocupação estrangeira
de nosso território. Contudo, tal não
se verifica, na medida em que o mundo acadêmico
brasileiro se mantém curiosamente distante do
enfrentamento dos problemas suscitados pela necessidade
de se interpretar a história militar e as diferentes
memórias a ela associadas. Tal fato pode dever-se
à ingrata e problemática relação
que a Universidade manteve com o regime militar (1964-85).
Durante aquele período, por um lado, expandiu-se
o ensino de nível superior (inclusive de pós-graduação)
de forma sem precedentes. Por outro, a censura e a repressão
tanto às atividades políticas da oposição
quanto ao ensino e a pesquisa críticos realizados
dentro das Universidades, tolheu e mutilou a prática
científica, em particular na área das
humanidades.
Se grandes foram as limitações colocadas
ao estudo e entendimento da história militar
nacional, maiores ainda foram aquelas relativas à
experiência histórica dos brasileiros que
lutaram durante a Segunda Guerra Mundial contra a Nação
Brasileira ou seus inimigos. Presumo que algumas centenas
de brasileiros lutaram na Segunda Guerra Mundial sob
a bandeira da Alemanha Nazista. Não se pode descartar
até mesmo o fato de que indivíduos nascidos
aqui tenham combatido entre si, levando em conta os
dez meses de participação da FEB na Campanha
final da Itália contra a Wermacht naquela guerra
, embora até o momento inexistam evidências
a respeito.
Por razões óbvias a todo leitor informado,
a experiência de vida desses indivíduos,
suas memórias e vivências, ficaram até
recentemente silenciadas. O tabu contra os indivíduos
que prestaram serviço militar sob a bandeira
do inimigo, bem como a revelação ao fim
da guerra do real significado do projeto nazista (genocídio,
escravismo, racismo, totalitarismo, etc.) trabalharam
para que a aparição desse tipo de relato
permanecesse praticamente impossível. Contudo,
a validade do exame e preservação desse
tipo de memória sempre foi amplamente reconhecida:
o testemunho daqueles que viveram, trabalharam e - neste
caso - lutaram pelo III Reich pode nos fornecer pistas
importantes para o entendimento de uma série
de eventos que tornaram o Nazismo e a Segunda Guerra
Mundial possibilidades históricas, bem como sobre
a forma pela qual estes indivíduos vivenciaram
a experiência história da dupla nacionalidade
em tempo de guerra.
Conceitos como cidadania e nacionalidade, bem como as
práticas a eles associadas, são sempre
o resultado de um processo de construção
histórica. No caso dos imigrantes de origem alemã
que vieram ao Brasil, bem como seus descendentes, tal
processo foi vivido de maneira contraditória,
senão conflituosa. Na base do conflito está
a disjunção entre os princípios
fundantes destes conceitos que, no caso alemão,
priorizam a origem familiar do indivíduo. Em
termos jurídicos, ele é entendido como
o juz sanguinis. Já o caso brasileiro se prende
ao local do nascimento, em se tratando de definir a
cidadania e a nacionalidade do indivíduo. Juridicamente,
esta prática é conhecida como o juz solis.
Sucessivos autores tem se dedicado à interpretar
os conflitos que daí advieram para os imigrantes
de origem alemã e seus descendentes, em especial
na conjuntura da grande nacionalização
(1935-45) desencadeada no período Vargas (1930-45)
. Contudo, não se tem dado ênfase à
este conflito à luz da mais importante das obrigações
cívicas que recai sobre os indivíduos
do sexo masculino, ou seja, o serviço militar
em tempo de guerra. Esta pesquisa também é
dedicada ao entendimento da experiência histórica
de indivíduos oriundos de famílias de
origem alemã que, tendo nascido aqui no Brasil,
se viram sob diferentes circunstâncias recrutados
para lutarem nas forças armadas alemãs
(Wehrmacht) durante a Segunda Guerra Mundial. Aqui o
foco da pesquisa recai sobre o entendimento do processo
de definição da nacionalidade e cidadania
destes indivíduos à partir do seu engajamento
na Wehrmacht (1939-45) até a regularização
de suas obrigações militares perante o
Exército Brasileiro (1946-1949).
Foram tomados até na pesquisa o depoimento de
cinco indivíduos que, nascidos no Brasil, lutaram
pela Alemanha, bem como o de um irmão de um deles
que havia nascido na Europa, fixando-se posteriormente
no Brasil, totalizando seis indivíduos. Embora
toda a história de vida deles seja de interesse,
o foco dos depoimentos recai naturalmente sobre sua
experiência de vida durante a vigência do
III Reich. Nela, o ingresso no serviço militar
obrigatório, é entendido como momento
privilegiado de análise por ser onde se manifesta
de forma aguda o caráter tenso e contraditório
vivido por estes indivíduos de dupla nacionalidade
e que se vêem forçados a encarar os deveres
inerentes ao exercício da cidadania.
Um exemplo extremo se refere ao entrevistado nascido
em São Paulo em 1925 que adotou o pseudônimo
de "Der Amerikaner", literalmente "o
americano" para conversar conosco. Ele e a família
haviam viajado para Alemanha à passeio e para
rever parentes, lá chegando pouco antes da guerra
começar, o que os impediu de voltar ao Brasil
como contavam fazer. Em 1943, ocorre sua convocação
para o serviço militar. Tendo atingido a idade
para alistamento ele compareceu diante da junta do serviço
militar local. Sua primeira inspiração
foi alegar a condição de brasileiro (brasilianer),
nascido em São Paulo, como demonstravam seus
documentos de identidade. Em resposta teria ouvido a
seguinte pergunta do alistador: "Mas se você
tivesse nascido na África isso faria de você
um negro?". Desconcertado, respondeu que não,
ouvindo em seguida a decisão de que ele teria
de se alistar, uma vez que era de descendência
alemã. De fato, tratava-se da imposição
da lógica do princípio do "jus sanguinis",
em contraposição àquela do "jus
solis" que ele imaginava que nesse caso deveria
prevalecer.
Um segundo momento revelador das contradições
inerentes ao seu processo pessoal de definição
da nacionalidade ocorreu quando da sua incorporação
à unidade de combate pela qual seria levado à
linha de frente. No dia do embarque para a linha de
frente todos estavam fardados, armados, identificados
e barbeados em forma no pátio da escola de treinamento
de sargentos que ele havia cursado quando finalmente
foi sabido o destino final: o front italiano. Naquele
estágio da Segunda Guerra Mundial na Itália
já estava lutando ali uma Força Expedicionária
Brasileira que, segundo se divulgava pelo serviço
de propaganda das rádios norte americanas, seria
composta de três divisões de infantaria
e que já estaria treinando no norte da África.
Sabendo, pois, que uma força militar composta
por brasileiros estaria chegando em breve na Itália,
ele ponderou que não poderia ser enviado para
a frente italiana.
Tão logo pôde o nosso sargento comunicou
reservada e pessoalmente ao seu capitão que não
poderia ir, uma vez que, como artilheiro não
poderia ser obrigado a atirar sobre seus "patrícios".
Certamente ele imaginava que seus colegas de escola
na capital paulista deveria estar formando a maioria
dos combatentes da FEB. Na presença do major
e do capitão, sempre privadamente, o nosso entrevistado
insistiu em suas alegações e usando da
palavra ainda teve a presença de espírito
de acrescentar uma alegação mais plausível
do ponto de vista da ética militar que regia
a guerra total na qual a Alemanha havia mergulhado:
"... e tem mais: já pensaram se eles me
pegam prisioneiro? No mínimo me passam vivo pelo
moedor de carne!". E acrescentou: "... não
me nego a ir ao front - mas não contra meus patrícios
brasileiros!"
O que o salvou foi a intervenção de um
outro major. Este indivíduo havia nascido na
Namíbia (antiga África Oriental Alemã
até 1918), filho de pais alemães, e provavelmente
sabia melhor do que ninguém o que um "oriundi"
passa ou sofre nestas circunstâncias. Tendo ouvido
o que se passava teve tempo de se inteirar dos fatos
e intervir. Por expressa recomendação
sua o sargento foi declarado "doente". Aliás,
extremamente doente, portador de doença altamente
contagiosa, recentemente contraída, a qual -
curiosamente - não havia sido diagnosticada em
nenhum dos exames que precedeu o embarque. Ele deveria
ficar de cama em repouso absoluto durante uma semana,
sem poder se levantar. Sem mais delongas ele foi metido
em pijamas e posto numa ala com outros três doentes
tendo ao seu lado um penico. Afinal de contas, o novo
paciente tinha ordem expressa de permanecer de cama,
sendo proibido até mesmo de ir ao banheiro. Entre
o súbito diagnóstico desse major médico
e o internamento do sargento não se passou nem
meia hora.
É óbvio que o fim do nosso depoente só
foi evitada pela providencial intervenção
desse major médico. A respeito desse personagem
duas considerações parecem ser indispensáveis:
primeiro o fato de que seu maior dever àquela
altura dos acontecimentos da guerra para a Alemanha
era precisamente detectar os casos de fingimento de
doença para viabilizar evasão do serviço
no front; o segundo é que na sua folha de serviços
constava a experiência de ter lutado na campanha
da África Ocidental Alemã (atual Namíbia)
onde, dado o emprego tanto de tropas nativas quanto
de alemães "raciais" ele certamente
deve ter tomado conhecimento de todo tipo de conflito
de ordem pessoal no que se refere à questão
da nacionalidade/identidade nacional. Compreende-se,
pois, que ele tenha se solidarizado com o depoente e
se identificado com seu drama íntimo, resolvendo-se
a arriscar incorrer numa violação das
determinações ética e legais vigentes
para permitir ao sargento evadir-se do front com uma
falsa doença.
Uma semana depois, o trem que levava seu batalhão
já deveria estar longe, rumo aos Apeninos Italianos,
isso se a guerrilha Tcheca não sabotasse os trilhos
ou atacasse o comboio. Seu destino seria o de embarcar
num trem na direção oposta para enfrentar
os guerrilheiros (partizans) nos Montes Cárpatos.
Depois de uma extensa folha de serviços na frente
oriental, foi finalmente capturado pelos britânicos
ao términdo da guerra. Sua filiação
à Juventude Hitlerista lhe causou problemas com
as autoridades aliadas de ocupação e ele
só foi liberado das investigações
a que foi submetido dois anos depois.
O retorno ao Brasil se deu em fevereiro de 1948 num
navio que zarpou de Hamburgo no Reveillon de 1947-48.
Chegando aqui nosso entrevistado teve de enfrentar uma
outra dificuldade de ordem formal: para exercer qualquer
atividade no serviço público ou na iniciativa
privada era indispensável apresentar o Certificado
de Quitação das Obrigações
Militares, obrigatório para todo maior de 18
anos nos termos da lei brasileira desde 1906. Contudo,
o entrevistado não chegou a se alistar no Brasil,
uma vez que quando chegou à idade legal para
alistamento, já estava há anos na Alemanha.
Um bom advogado e contatos familiares na burocracia
militar contornaram essa objeção e ele
foi declarado "insubmisso", isto é,
apenas e tão somente um cidadão que perdeu
o prazo de alistamento, não o tendo feito na
época devida. Trata-se da categoria mais branda
dos crimes da lei militar que considera em nível
ascendente de gravidade também as categorias
dos "refratários" (isto é, que
se alistaram mas não compareceram para prestar
o serviço militar), os "desertores"
(que compareceram e depois de algum tempo se evadiram)
e os "traidores" (que se evadiram para lutar
sob bandeira de países inimigos).
O pagamento de uma multa e uma cerimônia de fidelidade
às forças armadas brasileiras resolveram
o problema. Assim é que, depois de ter alegado
sua condição de brasileiro para evitar
servir às forças armadas do III Reich,
quase ter sido executado por se recusar a combater brasileiros
e ter sido tratado como alemão perigoso pelas
autoridades aliadas de ocupação na Alemanha,
nosso entrevistado viveu a experiência singular
de jurar defender e honrar a bandeira brasileira numa
singela cerimônia realizada no pátio de
um quartel em São Paulo, cidade onde vive até
hoje, tendo recebido o certificado de reservista de
3a. categoria.
Conflitos deste tipo, isto é, com órgãos
recrutadores da Alemanha e do Brasil permeiam a lembrança
de todos os demais entrevistados. Característica
distintiva das memórias destes indivíduos
é o seu caráter crítico das interpretações
dominantes sobre a guerra, senão francamente
revisionista. Veja-se por exemplo a forma pela qual
encaram o início da guerra. Aqui é importante
destacar que foi justamente a promessa de garantir a
integridade territorial da Polônia contra Hitler
que levou a Inglaterra a declarar guerra à Alemanha
em 1939. Contudo, a guerra foi declarada apenas contra
a Alemanha. Nada se fez contra a URSS, a qual coube
mais ou menos a terça parte do território
polonês após a destruição
do seu exército. Compreensivelmente meus entrevistados
insistiam sempre em me chamar a atenção
para o que lhes parecia àquela época (como
ainda hoje) ser uma total incoerência da Inglaterra
em declarar guerra apenas contra a Alemanha, já
que sob essa alegação caberia também
fazer o mesmo à URSS.
Outra crítica recorrente dos indivíduos
entrevistados, às versões corrente sobre
a guerra, diz respeito aos ataques aéreos. Esta
última lembrança, embora revestida dos
atrativos da divulgação da manifesta superioridade
das máquinas e (no final da guerra) dos pilotos
aliados, era constrangida pela memória das centenas
de milhares de vítimas civis nos bombardeios
à Alemanha. Não surpreende o interesse
que desperta na Alemanha, ainda hoje, o estudo e a preservação
da memória dos ataques aéreos terroristas
anglo-americanos sobre aquele país. Menos surpreendente
é a recorrência com que meus entrevistados
se referem aos ataques aéreos terroristas perpetrados
contra o povo alemão: eles próprios sofreram
com estes bombardeios, neles perderam amigos e familiares
e, finalmente, foram chamados a participar da defesa
aérea de suas cidades.
Finalmente, cabe mencionar ainda o lugar ocupado pela
memória do genocídio nazista entre os
entrevistados. Nenhum deles revela ter tido conhecimento
do processo de sistemático genocídio das
minorias "indignas de viver" sob o III Reich
e, ou de suas origens, todos eles duvidam que o mesmo
tenha acontecido, pelo menos não na escala ou
com a intencionalidade que hoje reputamos ao processo.
Esta postura é compreensível. Estudos
recentes têm enfatizado o caráter excepcional
da formação e recrutamento dos elementos
envolvidos com o planejamento e execução
das atividades genocidas do III Reich. Confrontando-se
diretamente com interpretações que enfatizam
o caráter dos alemães "comuns"
que teriam se engajado como perpetradores do genocídio,
estudos recentes tem destacado o caráter peculiar,
de um ponto de vista social e psicológico, dos
elementos mais destacados nas tarefas de extermínio,
bem como o considerável esforço desenvolvido
pelas elites nazistas tanto para legitimar a matança,
quanto viabiliza-la mentalmente entre os perpetradores.
Hoje sabemos que o assassinato a sangue-frio de famílias
inteiras como rotina diária apresentava desafios
mentais e comportamentais incomuns aos seus executantes,
levando a uma série de doenças psicológicas
e comportamentos socialmente desviantes que a elite
nazista teve de enfrentar.
Em tempos mais recentes, publicações mais
radicais chegaram a propor que praticamente cada alemão
adulto tinha consciência do genocídio e
com ele concordava. A partir de um limitado número
de evidências, chegou-se mesmo a proclamar-se
que a adesão de alemães comuns ao programa
do genocídio como perpetradores das matanças
e torturas, seria resultado de um ato voluntário,
resultado da crença amplamente disseminada de
que os judeus eram realmente seres nocivos e perigosos,
e por isso acreditava-se que seria não só
necessário como urgente que eles "desaparecessem".
Não se pode, absolutamente, descartar que - em
algum grau -alguns indivíduos tenha aderido voluntariamente
ao programa de extermínio e dele participado,
em suas diversas e sucessivas fases, embora generalizações
desse tipo sejam sempre arriscadas. Calcula-se que cerca
de 40.000 indivíduos estiveram diretamente envolvidos
no extermínio de seres humanos durante a vigência
do III Reich. Número talvez igual a esse de pessoas
eram necessárias para as atividades de apoio
ao genocídio e, por extensão, também
era altamente provável que soubessem das finalidades
últimas de seu trabalho. Contudo, deve se levar
em conta que a progressiva transformação
das técnicas de extermínio visava tanto
aliviar o fardo emocional que tinha de ser carregado
pelos perpetradores, quanto garantir o sigilo da operação.
Estas providências parecem ter sido bem sucedidas,
em especial nos dois últimos anos da guerra .
Mesmo nessa época o extermínio em escala
industrial promovido pelo nacional-socialismo ainda
era objeto de franca descrença, tanto por parte
da maioria das suas vítimas (como por exemplo,
das centenas de milhares de judeus húngaros arrebanhados
quase que sem esforço para uma última
grande leva de prisioneiros rumo a Auschwitz em 1944)
quanto da opinião pública mundial - que
precisou esperar o fim da guerra para ser convencida
da extensão do genocídio nacional-socialista.
Outra evidência neste sentido é apresentada
pelo livro de Rigg dedicado aos homens de ascendência
judia nas forças armadas alemãs. Mesmo
entre os militares alemães que tinham parentes
judeus, o grau de conhecimento da política genocida
do regime era quase nulo. E, mesmo quando evidências
manifestas do processo de extermínio de judeus
e outras raças inferiores eram conhecidas, tendia-se
a encarar tais fatos como excepcionais, e não
como parte de um projeto mais amplo de erradicação
das raças "indignas de viver".
Não é impossível que a maioria
do povo alemão ignorasse a inteireza do horror
que encerravam os campos, mas certamente alimentava
- no mínimo - enorme indiferença com relação
ao destino dos seus internos. O debate a respeito do
grau maior ou menor de responsabilidade dos alemães
comuns, longe de se intensificar, parece estar aumentando,
indicando que - talvez - o povo alemão tenha
perdido a oportunidade histórica de ajustar as
contas com seu próprio passado. Em tempo de guerra,
a maioria das pessoas se dedica a cuidar da sua própria
sobrevivência, prestando muito pouca atenção
ao restante do mundo. Tal fato deve ser levado em consideração
ao pensarmos sobre as possíveis atitudes do povo
alemão ao programa do genocídio, a fim
de que as motivações para dele participar,
ou ignorar seus resultados, não se resuma à
uma correlação automática entre
adesão à uma determinada visão
de mundo e subsequente engajamento em determinada ação
coletiva. O correto entendimento da experiência
histórica do genocídio, e das experiências
humanas relacionadas com a Segunda Guerra Mundial ainda
vai continuar por muito tempo a desafiar os poderes
de explicação do historiador. No que se
refere aos nossos entrevistados, tais considerações
são da maior importância, em se tratando
dos entendimentos possíveis a partir das leituras
de suas falas.
Dennison de Oliveira
Doutor, UNICAMP (1995). Instituição de
origem UFPR - Curitiba, e-mail: kursk@matrix.com.br
Telefone para contato: [41] 3015.2085 ou [41] 9115.6578
>>
Parte 2
fonte:Deutsche Welle - Germany - DW
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