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Em 5 de junho de 1944, a Divisão Hitlerjugend fora destacada para um setor a oeste de Paris e ao sul de Rouen, com seu QG divisional na localidade de Acon. A divisão incorporava um regimento panzer constituído de dois batalhões, um equipado com carros de combate Panther, e outro, com Panzer IV; um batalhão anticarro; dois regimentos de granadeiros panzer, cada um com três batalhões; um regimento de artilharia; um regimento antiaéreo e varias unidades de apoio.

No Dia D, faltavam ao regimento panzer 36 dos seus 186 carros de combate. O efetivo estava ligeiramente acima do normal: 20.540 homens,entre todas as patentes. No entanto, faltavam 144 oficiais, de seu total autorizado de 664. A denominação de "Hitlerjugend" dada à 12.ª Divisão Panzer da SS não era casual; a unidade compunha-se de soldados extremamente jovens, doutrinados até o fanatismo nas concepções nacional socialistas. No 1.° Batalhão do 25.º Regimento de Granadeiros Panzer, nada menos que 65% dos homens tinham menos de dezoito anos, e só 3% - oficiais e sargentos, em sua enorme maioria - ultrapassavam os 25 anos de idade. Os rapazes veneravam seus comandantes, líderes exigentes como Max Wünsche e Kurt Meyer (conhecido como "Panzermeyer"). Com eles, os recrutas da Hitlerjugend haviam aprendido a ser lutadores - mais do que simples soldados. Cultivavam a obediência, a dureza, a solidariedade do grupo e a crença de que a palavra "impossível" não existia. Como em outras divisões de elite da Waffen SS, a agressividade no ataque e
contra-ataque fora cuidadosamente incorporada. Mesmo antes de seu batismo de fogo, a Hitlerjugend caracterizava-se por uma determinação a toda prova, combinada com fanatismo e espírito de sacrifício

Na manhã de 6 de junho, a Divisão Hitlerjugend foi transferida da reserva e colocada à disposição de Rommel, comandante do Grupo B de Exércitos. Recebeu ordens para se reunir a leste de Lisieux, onde se juntaria ao 7.° Exército: os alemães mobilizavam todas as tropas disponíveis, na tentativa de esmagar a cabeça-de-ponte aliada. A Hitlerjugend teve de ser dividida para o transporte. As 10h do dia 6 partiram os dois batalhões de carros de combate, juntamente com os dois regimentos de granadeiros (o 25.° e o 26.° SS Panzergrenadier Regiment).

Alguns elementos da Hitlerjugend atingiram a região de Lisieux por volta das 15h. Logo em seguida, porém, receberam ordem de se reagrupar a oeste de Caen para participar de um contra-ataque a tropas canadenses. Nas 24 horas seguintes, chegaram as diversas unidades da divisão. Sem cobertura aérea suficiente, as forças alemãs que se reagrupavam eram submetidas a violentos ataques de foguetes e canhões dos Hawker Typhoons da RAF, em vôos rasantes. O castigo exigia dos jovens soldados, e em seu limite máximo, a férrea disciplina e o autocontrole adquiridos em meses de rígido treinamento - e o ataque só cessou ao escurecer, quando os caças-bombardeiros suspenderam seus vôos. Informações precisas sobre os movimentos do inimigo eram escassas e os rumores se alastravam como fogo por um rastilho, mas mesmo assim o ânimo se manteve elevado. As companhias de granadeiros correram para suas posições, cavando trincheiras e abrigos, enquanto as guarnições anticarro arrastavam suas armas pesadas para a linha de tiro. Ergueram-se redes de camuflagem e, ao alvorecer, os soldados exaustos puderam dormir um pouco.

O 2.° Batalhão do 12.° Regimento Panzer só chegou na manhã de 7 de junho, com apenas cinqüenta carros de combate. No 1.° Batalhão, o quadro era ainda mais crítico: por falta de gasolina, seus Panther haviam sido deixados na margem leste do rio Orne. Assim, o Grupo B de Exércitos, em vez de mobilizar toda a Divisão Hitlerjugend para o contra-ataque, reuniu apenas um Kampfgruppe (grupo de combate), sob o comando de Kurt "Panzermeyer". A despeito das perdas de homens e material, as unidades da Hitlerjugend e da 21.ª Divisão Panzer constituíam as únicas forças alemãs capazes de contra-atacar a oeste de Caen.

A fúria da investida alemã obrigou os canadenses a recuar.

As ordens transmitidas à Divisão Hitlerjugend, para a manhã de 7 de junho, tinham como objetivo final o domínio das praias: os homens deveriam sustentar o ataque até que o inimigo fosse empurrado para o mar. As ordens pessoais de "Panzermeyer" eram bem mais realistas. Ele parece ter decidido tomar uma posição de cobertura, protegendo Caen, e esperar a chegada de reforços. O comandante dispôs os três batalhões de granadeiros em linha, com duas companhias de carros de combate atrás de cada flanco, e deslocou seu apoio de artilharia para a retaguarda, preparando uma emboscada para os canadenses que avançavam a partir da cabeça-de-praia. Em seguida, subiu até o lado da torre da abadia de Ardenne, de onde podia ver toda a região.

Kurt Meyer observou o avanço canadense se desdobrar e ouviu os relatórios aliados, pelo rádio, sobre o movimento dos carros de combate. Os tanquistas subiram em seus panzers. Via-se em seus rostos expectativa pela batalha, quando baixavam nas torres pintadas com o nome de namoradas.
E, então, esperaram. Meses de treinamento incutiram-lhes a necessidade crucial de conter o fogo até que pudessem engajar-se decisivamente na luta. Na torre da abadia, Meyer calculava o melhor momento para atacar. Os canadenses avançaram por Franqueville, dirigindo-se para o campo de pouso de Caen. Quando 80m separavam os carros de combate aliados da linha de frente da emboscada alemã, ele deu sinal para avançar. Os panzer Mark IV e a infantaria emergiram dos esconderijos, cortando o flanco canadense, enquanto, à queima-roupa, as bem escondidas guarnições anticarro despejavam seus obuses contra os tanques Stuart. A fúria do contra-ataque obrigou os veteranos canadenses a recuar; os panzer, os granadeiros e a artilharia operavam em perfeito entrosamento, e em poucas horas as aldeias de Authie e Franqueville retornaram ao controle dos alemães.

Kurt "Panzermeyer" alegou, mais tarde, que a falta de combustível e munição interrompeu sua "corrida para o mar". Na verdade, os Mark IV foram detidos por uma densa barragem de artilharia e pela firme resistência das tropas canadenses, submetidas a enorme desgaste: trezentas baixas e trinta carros Stuart destruídos. O Contra-ataque alemão não chegou a ameaçar a cabeça-de-praia, mas evitou que os canadenses atingissem o importante campo de pouso em Carpiquet.

Em sua primeira batalha, a Hitlerjugend lutou com bravura e determinação que impressionaram profundamente os canadenses. Mas também sofreu pesadas baixas: cerca de duzentos homens e seis Mark IV. Emil Werner, oficial do 26.° Regimento de Granadeiros Panzer, descreveu os violentos combates de 7 de junho: "Até Cambes, tudo correu bem. No que se referia a nós, a aldeia parecia em ordem. Mas, nos arrabaldes, ficamos sob fogo de infantaria, e então foi um inferno. Atacamos uma igreja onde franco-atiradores tinham se posicionado. Foi aí que avistei o primeiro homem morto de nossa companhia: o granadeiro Ruehl, do pelotão do quartel-general. Virei seu corpo - levara um tiro na cabeça. Era o segundo membro de nossa companhia a morrer . Vários outros companheiros morreram e nós não tínhamos ainda encontrado nem um inglês. Então a situação ficou crítica. Meu comandante de seção foi ferido no braço e precisou ir para a retaguarda. O granadeiro Grosse saltou a meu lado e correu para alguns arbustos com sua submetralhadora engatilhada, gritando: 'Hands up! Hands upl!' Dois ingleses apareceram com as mãos levantadas. Pelo que sei, Grosse ganhou a Cruz de Ferro por isto".

Em 8 de junho, chegou afinal uma companhia de carros de combate Panther, do 1° Batalhão. Juntamente com alguns granadeiros, desfecharam um ataque noturno ao longo da estrada Caen-Bayeux. Os panzer se moveram em cunha, com os granadeiros precariamente agarrados atrás de suas torres. Como sempre, Kurt Meyer liderava, em sua motocicleta, o avanço da companhia de reconhecimento. A meia-noite, os alemães chegaram à aldeia de Rots; depois de algumas horas de uma luta confusa, em que a Hitlerjugend perdeu seis Panther, Meyer retirou sua força. O ataque foi empreendido com a coragem e decisão evidenciadas no dia 7, mas parecia haver pouco controle tático. Segundo observadores canadenses, a Hitlerjugend não soube explorar a posição insatisfatória do adversário.

Para 10 de junho, o comando alemão havia planejado uma grande ofensiva contra a cabeça-de-praia, da qual deveria participar a Hitlerjugend. Mas o ataque nunca se realizou, porque os aliados tomaram a iniciativa pelo flanco esquerdo contra a Divisão Panzer Lehr. No dia 16 de junho, o QG divisional da Hitlerjugend, situado a 27 km a sudoeste de Caen, ficou sob fogo pesado de obuses navais. O SS Brigadeführer (major-general) Fritz Witt, da Panzer Lehr, foi morto com vários de seus oficiais e o comando passou a Kurt Meyer. A Divisão Hitlerjugend fora subdividida e deslocada para o norte e oeste de Caen, e já sofria grandes perdas, além da falta de gasolina, munição e equipamento. Ao norte de Caen, os panzer da Hitlerjugend estavam apoiando unidades enfraquecidas, como a 16.ª Divisão de Campo da Luftwaffe. O campo de pouso de Carpiquet era defendido por uma bateria antiaérea da Hitlerjugend, além de elementos do 1.º Batalhão do 26.º Regimento de Granadeiros Panzer e cerca de quinze carros de combate.

Em 4 de julho, a 3.ª Divisão canadense lançou-se ao ataque, com o objetivo de capturar a aldeia de Carpiquet e o campo de pouso. Uma forte descarga de artilharia causou pesadas baixas à vanguarda canadense. Em seguida, estabeleceu-se intenso combate entre dois batalhões da infantaria canadense e os cinqüenta granadeiros panzer que defendiam a aldeia. A noite, os atacantes tinham capturado a aldeia de Carpiquet e o extremo norte do campo de pouso, mas os alemães controlavam o extremo sul. Apesar de exaustos, somente a falta de infantaria os impediu de fazer novos contra-ataques.

Entre 4 e 9 de julho, a Divisão Hitlerjugend foi uma das pedras angulares da defesa alemã em Caen, contra o ataque do 1.° Corpo de Exércitos britânico. Um pesado ataque aéreo sobre Caen causou poucas baixas entre os alemães. Para os combatentes da Hitlerjugend, porém, significou a destruição de preciosos estoques de comida, munição e gasolina. Sob a liderança de Kurt Meyer, a divisão resistiu obstinadamente ao avanço britânico. Ele tentou evitar que os canadenses capturassem a aldeia de Buron, ao norte de Caen, e chegou a imobiliza-los com os poucos blindados e granadeiros de que dispunha, mas a desproporção de forças era demasiado grande. No dia 9, os aliados controlavam boa parte de Caen, embora os subúrbios, ao sul, permanecessem em poder dos alemães.

Depois de 9 de julho, a Hitlerjugend tornara-se uma sombra de sua força original. O efetivo de infantaria não ultrapassava um batalhão, e restavam somente 65 dos 150 carros de combate inicialmente fornecidos. O total de baixas, a partir do Dia D, chegava a 60%: 20% mortos e 40% feridos. As substituições foram de apenas algumas centenas de homens. Com tudo isso, os rapazes inexperientes de 6 de junho transformaram-se em duros veteranos.


Sujos de sangue, cobertos de terra, os combatentes da Hitlerjugend
contiveram os anglo-americanos.

A natureza dos combates em Caen, para a Divisão Hitlerjugend, pode ser percebida no trecho de um artigo, um tanto bombástico, escrito por um correspondente de guerra da SS para o periódico Leitheft: "Milhares de aviões, o fogo intenso das baterias e ataques maciços de tanques os martelavam com bombas e abuses. A terra tremia com as explosões incessantes. Mas a fé era o apoio mais forte da coragem. Sujos de sangue, cobertos de terra, soluçando e lutando teimosamente, esses jovens conseguiram deter os anglo-americanos".

Mais a oeste de Caen, travou-se uma sangrenta batalha de atrito entre ingleses e alemães, pela posição-chave da colina 112, conhecida pelos canadenses como "colina do Calvário". Elementos da Hitlerjugend estiveram na defesa da colina 112. O soldado Zimmer anotou em seu diário o que significou enfrentar o ataque britânico de 10 de julho: "Das 6h30 às 8h, fogo pesado de metralhadoras. Então vieram os ataques dos Tommies [o tradicional apelido dos soldados britânicos], com grandes massas de infantaria e muitos tanques. Lutamos tanto quanto possível; embora numa posição insustentável. Quando os sobreviventes tentaram retirar-se, verificamos que estávamos cercados".

Em 11 de julho, a Divisão Hitlerjugend seguiu da linha de frente em direção à região de Potigny, 30 km ao norte de Falaise, para repouso e reequipamento. Uma semana depois foi convocada, às pressas, para ajudar a deter a Operação Goodwood um ataque britânico em grande escala dirigido contra as posições alemãs em Caen. A unidade estava agora dividida em dois grupos de combate, o Kampfgruppe Krause e o Kampfgruppe Waldmüller, com uma força combinada de cerca de cinqüenta carros de combate. Nas três semanas seguintes, estes grupos constituíram a espinha dorsal das defesas alemãs, ao sul de Caen. Mas podiam apenas adiar o fim inevitável: toda a posição alemã na Normandia estava esmorecendo, sob os sucessivos ataques aliados.

No dia 25 de julho, o general Bradley, comandante do 1.° Exército americano, lançou a Operação Cobra, atacando a partir de Saint Lô, rumo ao flanco esquerdo alemão - uma investida que faria cair por terra a frente alemã, no oeste da Normandia. Em 30 de julho, o tenente-general Sir Miles Dempsey, comandante do 2.° Exército britânico, atacou o 7.° Exército alemão, na Operação Bluecoat. A Hitlerjugend ocupava posições ao norte de Falaise quando, em 7 de agosto, o 1.° Exército canadense lançou a Operação Totalise, destinada a romper as linhas ao sul de Caen. Seiscentos tanques lançaram-se contra os cinqüenta blindados dos Kampfgruppen.

As qualidades militares da divisão, combinadas com a forte personalidade e agressiva liderança de Kurt "Panzermeyer", impediram os aliados de romper as posições alemãs. A ofensiva canadense foi precedida por um ataque aéreo maciço, que desmoralizou as duas divisões de infantaria que apoiavam os panzer. Kurt Meyer relata o que se passou, quando fazia um reconhecimento na linha de frente: "Diante de mim, recuando pela estrada Caen-Falaise, estava a tropa da 89. a Divisão de Infantaria, em pânico, como uma multidão apavorada. Percebi que precisava fazer alguma coisa para trazê-los de volta a suas posições. Acendi um charuto, coloquei-me no meio da estrada e perguntei em voz alta se eles iam me deixar sozinho para lutar contra o inimigo. Com um comandante de divisão se dirigindo a eles dessa maneira, pararam, hesitaram, e então retomaram a suas posições".
A obstinação dos soldados da Hitlerjugend e o poder de fogo de seus canhões anticarro, de 75 e de 88 mm, fizeram com que os canadenses avançassem apenas 5 km, nas primeiras 24 horas. As perdas da Hitlerjugend eram tais, que não se podia reunir um único Kampfgruppe completo. Os aliados tentaram abrir caminho por meio de pesados bombardeios, mas Kurt Meyer antecipara-se a esse movimento e se retirara com os homens e veículos para posições defensivas nas aldeias, antes de os ataques começarem. Durante dois dias, a partir de 14 de agosto, os quinhentos sobreviventes da Hitlerjugend controlaram a colina 159, a nordeste de Falaise, enfrentando a poderosa 3. a Divisão canadense. Depois de essa posição ter sido atacada continuamente e bombardeada pela artilharia e por aviões de apoio à terra, os alemães foram obrigados a se retirar para além do rio Ante. A divisão, no entanto, estava reduzida a dezesseis carros de combate e umas poucas centenas de homens.

Normandia1944 - canhão AT 75mm da 12.º SS PzD camuflado em bocage

Em 16 de agosto, a 2.ª Divisão canadense entrou em Falaise e combateu casa por casa um pequeno destacamento da Hitlerjugend. Cerca de sessenta alemães resistiram por três dias em uma escola; apenas quatro sobreviveram e foram presos. Com a perda de Falaise, o espaço entre as forças britânicas e americanas reduziu-se a 20 km. Cerca de dezenove divisões alemãs estavam cercadas no bolsão Argentina-Falaise, submetidas a incessantes bombardeios aéreos e de artilharia. Afinal, os exaustos remanescentes da Divisão Hitlerjugend receberam ordens de manter aberto o extremo norte do bolsão, para deixar escapar o máximo de unidades alemãs. Graças aos esforços da divisão, que susteve o seu lado da passagem por dois dias, quase metade das tropas envolvidas conseguiu escapar da armadilha. Kurt Meyer atravessou o rio Dives com duzentos homens, na manhã de 20 de agosto, depois de ter "persuadido" um camponês francês a guiá-Ios. No dia 22 de agosto, o Grupo B de Exércitos informou que a 12.ª Divisão Panzer da SS Hitlerjugend contava um efetivo de apenas trezentos homens, dez carros de combate e nenhuma artilharia.
Apesar de ferido, Durr
atacou um tanque lança-chamas que abatera alguns de seus homens.
Muitas das características da Divisão Hitlerjugend eram comuns a outras unidades da Waffen SS e do Exército alemão na Normandia, em 1944. Divisões como a Leibstandarte e a Panzer Lehr combateram igualmente bem e sofreram baixas igualmente pesadas. Enquanto divisão panzer, a Hitlerjugend não estava melhor armada ou mais equipada que outras divisões equivalentes; sob alguns aspectos, encontrava -se em situação inferior. Como aconteceu com muitas outras divisões, durante a maior parte da campanha a Hitlerjugend esteve dividida em Kampfgruppen que mobilizavam como granadeiros até mesmo o pessoal da artilharia, os engenheiros, intendentes e cozinheiros. A diferença entre essa divisão da SS e as demais unidades alemãs residia em sua absoluta aceitação da necessidade do auto-sacrifício em combate. Nem todos seus integrantes eram voluntários, mas praticamente todos evidenciavam o mesmo grande desprendimento, em boa parte devido ao carisma de seus líderes.

Faltavam oficiais e a divisão se viu obrigada a operar em pequenas unidades - a liderança dos grupos de combate recaiu sobre sargentos, cabos e oficiais inferiores, que exerceram importante papel na manutenção do obstinado fanatismo dos jovens soldados. Um exemplo foi o SS Unterscharführer (cabo) Emil Durr, do 26.0 Regimento de Granadeiros Panzer, que recebeu a Cruz de Cavaleiro a título póstumo, por sua liderança e bravura. Em 27 de junho de 1944, embora seriamente ferido, Durr atacou um tanque lança-chamas que abatera alguns de seus homens. Conseguiu destruí-lo depois de três tentativas, mas foi morto na ação. Esses rasgos de heroísmo caracterizaram toda a divisão.


No entanto, há um lado sombrio no fanatismo e no desejo de auto-sacrifício: a atitude brutal para com prisioneiros e civis. Por toda a campanha da Normandia muitos prisioneiros foram mortos por ambos os lados, mas a Hitlerjugend ganhou a temível reputação, particularmente entre os canadenses, de executá-los em massa. De fato, entre 7 e 16 de junho, os jovens soldados da divisão fuzilaram 64 prisioneiros britânicos e canadenses.

Depois da rendição alemã, tribunais aliados acusaram Kurt Meyer e outros oficiais da Hitlerjugend por crimes de guerra. Meyer foi sentenciado à morte, mas teve a pena comutada para prisão perpétua. Saiu da prisão em 1954.

Dois fatos se destacam em qualquer análise do desempenho da Divisão Hitlerjugend na Normandia. O primeiro é o alto grau de fanatismo dos rapazes da juventude hitlerista, a disposição em sacrificar suas vidas. O segundo é a agressiva liderança dos oficiais, especialmente Kurt Meyer. Por vezes, o fanatismo, espírito de auto-sacrifício e liderança agressiva constituem precários substitutos a boas táticas e adequado poder de fogo: muitas baixas geralmente não significam bons soldados. Um comandante britânico lembra-se de como a Hitlerjugend saltou sobre os tanques aliados, "como jovens lobos, até que, a contragosto, fomos obrigados a matá-los". Mas essa disposição de sacrifício e a capacidade de resistir a desgastantes batalhas elevaram a Hitlerjugend ao nível de força de elite. Nas palavras de Max Hastings, em seu livro Overlord: "Nenhuma formação causou problemas tão graves aos aliados na Normandia, até o fim, como a 12.ª Divisão Panzer da SS".

o AUTOR Professor de Estudos de Guerra e Relações Internacionais na Academia Militar de Sandhurst, Keith Simpson é membro do Royal United Services Institute e do International Institute for Strategic Studies. Dedica interesse especial à guerra moderna.

12.ª DIVISÃO PANZER DA SS HITLERJUGEND
A Waffen SS nasceu no início da Segunda Guerra Mundial, com base nas SS paramilitares (Schutzstaffel, ou Esquadrões de Proteção) já existentes. No dia 20 de junho de 1943, em Antuérpia, os quadros da 1.ª Divisão Panzer da SS Leibstandarte Adolf Hitler, reunidos a integrantes das escolas de liderança da Hitlerjugend (Juventude Hitlerista), formaram uma nova divisão de granadeiros panzer. Com as forças adicionais da Leibstandarte, constituiriam o 1.º Corpo Panzer da SS. Em 21 de outubro, Hitler ordenou que o corpo fosse formado de duas divisões panzer, e não de uma. No dia seguinte, a nova divisão recebeu o nome de 12.ª SS Panzer Division Hitlerjugend. Essa unidade não tinha precedentes no Exército alemão. A maioria dos oficiais e comandantes foi selecionada dentre os veteranos da Leibstandarte, na frente oriental, encarregados de treinar os jovens recrutas. Seus métodos não eram nada ortodoxos. A preparação para combate incluía submeter os rapazes à fome e aos ataques com munição real. Apesar das baixas inevitáveis, a divisão chegou à Normandia ansiosa para entrar em combate.
Os rapazes da Juventude Hitlerista eram nazistas fanáticos entregues de corpo e alma ao projeto da construção do "Reich dos Mil Anos". Imbuídos do romantismo do guerreiro germânico, receberam a oportunidade da "glória máxima " - a .morte em defesa da terra natal.
   
Devido à falta de uniformes na Alemanha nazista, grande número de soldados da Divisão Hitlerjugend foi equipado com uniformes feitos com material de camuflagem italiano, requisitado após a rendição da Itália, em 1943. Além do uniforme "italiano", este granadeiro tem o capacete coberto com o mesmo material de camuflagem. Os coturnos são os utilizados em ampla escala, por volta de 1944.
O armamento consiste numa metralhadora MG42, de 7,92 mm; por esse motivo, ele leva uma caixa de couro com peças de reposição e material de limpeza. Apesar de muito respeitada pelos aliados, a MG42 era urna arma difícil de usar, que exigia arti lheiros de ótima qualificação, devido a sua alta cadência de tiro (até 1.200 balas por minuto). Foi a primeira metralhadora moderna de aplicação geral, pois podia ser usada como me tralhadora leve, montada numsuporte de dois pés ou para fogo contínuo de longo alcance, sobre um tripé.
   
O SS Untersturmführer (segundo-tenente) Herbert Walther, membro da Juventude Hitlerisla aos onze anos e voluntário da Waffen SS aos dezoito. Estava com Kurt "Panzermeyer" em Caen, onde ganhou a Cruz de Ferro de primeira classe. Ele mesmo relata sua tentativa de escapar do bolsão de Falaise: "Meu motorista estava em chamas e eu tinha uma bala no braço. Saí correndo por uma ferrovia. Estavam disparando, de longe, e fui ferido na perna. Corri 100 m e então senti como se tivesse sido atingido na nuca por um martelo. Uma bala entrara sob a orelha e"·saíra pelo rosto. Eu estava sufocando com o sangue. Havia dois americanos olhando para mim, caído, e dois franceses que queriam acabar comigo". Mas um americano aplicou uma bandagem a sua perna e ele foi levado para um hospital, onde removeram treze balas de seu corpo.
 
 
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