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Alemanha se rendeu várias vezes em 1945
Estranhos se abraçaram e se beijaram ao término
da Segunda Guerra Mundial, em 1945. Mas nem sempre no
mesmo dia 60 anos depois, as nações
comemoram a rendição alemã em dias
distintos. A Rússia o faz em 9 de maio.
A primeira grande capitulação de uma
grande formação do exército alemão
aconteceu no dia 4 de maio de 1945. O marechal de campo
britânico Bernard Montgomery recebeu a rendição
parcial do almirante Hans Georg von Friedeburg. A intenção
de Friedeburg era possibilitar ao maior número
de alemães, tanto soldados quanto civis, a fuga
para o Ocidente. Foi assim que surgiu a situação
em que um comandante suplicou ao inimigo que o tornasse
prisioneiro, para assim escapar de outro inimigo.
Montgomery aceitou a rendição, mas descreveu
mais tarde, de maneira descontraída, que deixou
o almirante alemão esperando por um longo tempo.
A primeira capitulação em Lüneburg
se estendeu a todos os soldados que combatiam ao Norte
e ao Oeste do país, mas não para toda
a Wehrmacht. Esta outra rendição foi recebida
pelo general Dwight D. Eisenhower (EUA), em Reims, na
França. Novamente Friedeburg foi o encarregado
das negociações, e fez a seguinte oferta:
os alemães continuariam resistindo no Leste,
se o Ocidente estivesse disposto a uma paz moderada.
Recusa
Mas Eisenhower recusou a proposta. Por um lado, o "gentleman"
não quis violar os acordos com o russos, e por
outro, uma paz separada não seria viável
politicamente. Os norte-americanos ainda tinham grande
simpatia por Stalin. Eles tampouco cederam quando grande
almirante Karl Dönitz enviou, logo após
a morte de Hitler, o general Alfred Jodl com as mesmas
intenções. Com a frase "Isso é
tudo!", Eisenhower rechaçou a oferta de
Jodl. E o general alemão saiu mudo e aceitou
tudo.
Na madrugada do dia 7 de maio de 1945, Jodl assinou
o que talvez seja o documento mais importante da Segunda
Guerra. Depois de cinco anos e nove meses e cinqüenta
milhões de mortos em uma guerra de dimensões
inimagináveis, terminava a grande matança
na Europa.
Stalin fora de si
Mas Stalin se irritou porque o fim oficial da guerra
havia sido decidido sob direção dos norte-americanos.
Entre outras coisas, devido às grandes perdas
que a União Soviética havia tido, ele
insistiu que deveria ser realizada uma nova e definitiva
rendição, mesmo que fosse apenas uma encenação.
E que isso deveria acontecer onde tudo começou:
em Berlim. O comandante de Berlim, Helmuth Weidling,
já havia se rendido no dia 2 de maio. Desde então,
a Escola de Engenharia da Wehrmacht, em Karlshorst,
era o quartel-general russo. A nova rendição
deveria ser assinada na presença dos oficiais,
e foi planejada por Stalin até os seus últimos
detalhes.
Pelo lado dos aliados ocidentais, assinaram o documento
o general norte-americano Carl Spaatz, o marechal britânico
do ar William Tedder e o general francês Jean
de Lattre, que nada mais eram mais do que comparsas.
Os protagonistas
Os verdadeiros protagonistas foram Wilhelm Keitel e
Georgi Shukov. O marechal de campo alemão se
esforçou para demonstrar compostura, mas o marechal
da União Soviética não o permitiu.
Com palavras ásperas, ordenou a Keitel que assinasse
o documento já preparado. Keitel obedeceu
assinou, levantou-se e se retirou. Para as festividades
posteriores, a mesa para os alemães foi posta
num edifício anexo.
Keitel havia entregado aos aliados "todas as forças
armadas sob comando alemão". Mesmo assim,
muitas unidades continuaram combatendo, menos por fanatismo
do que para romper a frente ocidental. Em meados de
maio, todas as armas definitivamente se calaram. A guerra
havia terminado.
A primeira grande rendição de tropas
alemãs aconteceu em 4 de maio, a primeira capitulação
general, no dia 7 em Reims. O cessar-fogo estava previsto
para as 23h01min do dia 8, mas na verdade aconteceu
às 0h16min do dia 9, quando Keitel assinou o
documento. O relógio do Cremlin inclusive já
apontava 2h16min.
Por isso, muitos norte-americanos recordam o fim da
guerra no dia 7, os alemães no dia 8, e os russos,
no dia 9. Nenhuma das datas, no entanto, está
correta: o conflito continuou ainda por quatro meses
e custou a vida de outras dezenas de milhares de pessoas
até a rendição do Japão,
no dia 2 de setembro de 1945.
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Prédio
da assinatura da capitulação, na
base aérea de Karlshorst, em Berlim
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- X -
8 de maio: derrota ou libertação da
Alemanha?
Por muito tempo, a importância da capitulação
alemã foi um tema controverso no país
(Alemanha). Hoje, predomina a comercialização
da memória da guerra e do Holocausto.
"Agora tremulam as bandeiras da liberdade sobre
toda a Europa", anunciou o então presidente
norte-americano Harry Truman, num pronunciamento transmitido
pelo rádio no dia 8 de maio de 1945, após
a capitulação incondicional dos alemães.
A data marcou o fim da Segunda Guerra Mundial na Europa.
"O mundo agora está livre do ditador Adolf
Hitler", acrescentou Truman. Embora as bandeiras
da liberdade tremulassem também na Alemanha,
ainda durante várias décadas se discutiu
se de fato o país havia sido libertado. Ou teria
sido uma derrota, com o declínio total das idéias
e objetivos alemães?
Discurso de Weizsäcker
A polêmica sobre derrota ou libertação
foi amenizada com um memorável pronunciamento
do então presidente alemão Richard von
Weizsäcker diante do Parlamento em Bonn. Por ocasião
dos 40 anos do final da Segunda Guerra Mundial, ele
salientou que "o 8 de maio foi um dia de libertação.
Ele libertou todos nós das crueldades do déspota
sistema nacional-socialista". Segundo o historiador
berlinense Wolfgang Wippermann, esta forma de interpretação
do passado é amplamente difundida hoje, 60 anos
após o final do conflito: "Este foi um processo
muito longo e penoso, mas finalmente bem-sucedido".
Apesar de o 8 de maio de 1945 ser lembrado como o dia
da libertação, ele não é
uma data para festas, observou Weizsäcker.
Este mesmo aspecto voltou a ser lembrado dez anos mais
tarde pelo filósofo Hermann Lübbe. Neste
dia significativo, os alemães fazem bem em se
conter, escreveu Lübbe num artigo para a revista
Focus. Hoje, alguns dos vencedores da guerra são
seus aliados ou parceiros na União Européia.
Isto desperta a vontade de participar dos festejos.
No entanto, a vitória comemorada na Grã-Bretanha
é a vitória sobre a Alemanha. E a libertação
lembrada pelos holandeses é sua libertação
do domínio alemão.
Marco histórico
Em todos os países a data tem uma enorme importância,
salienta Wippermann, professor de História da
Universidade Livre de Berlim. Ela representa um marco
na história mundial. Este dia assinala o começo
de uma nova história contemporânea e pode
ser comparado à Reforma Protestante, à
Revolução Francesa e à Revolução
Russa. "A 8 de maio de 1945 foi iniciado um novo
tempo, encerrando uma era terrível: a do fascismo",
ressaltou Wippermann. Embora a data seja vista como
uma referência histórica, não se
tratou de uma "hora zero" para os alemães,
salienta. Muitos dos que faziam parte da elite do Terceiro
Reich prosseguiram sua carreira, sem interrupções.
O historiador exemplifica: após 1945, trabalharam
no Ministério das Relações Exteriores
mais ex-filiados ao partido nazista do que nos anos
anteriores. "Foi ingênuo desejar que no 8
de maio a História de certa forma tivesse um
fim e nós, por assim dizer, nascêssemos
de novo. Com o passar do tempo, deixamos de ver a Segunda
Guerra Mundial e seu término, em primeira linha,
como uma catástrofe para o próprio país",
destacou Wippermann.
Catástrofe
Apesar das enormes perdas que os alemães sofreram,
da penúria, dos banimentos e do descrédito
moral, a verdadeira catástrofe foi o Holocausto,
o crime cometido contra o povo judeu. "O genocídio
contra os judeus", ressaltou Weizsäcker em
seu pronunciamento no Bundestag, "não tem
precedentes na História". Seis milhões
de judeus foram vitimados pela guerra de extermínio
praticada pelo regime nazista. Sessenta anos após
o final do conflito, finalmente também são
corrigidos aqueles que durante muito tempo temeram um
fim furtivo da memória dos horrores da guerra,
por causa do número cada vez menor de testemunhas
da época. "Nunca se falou tanto de Hitler",
constatou o semanário Die Zeit em setembro de
2004. A forte presença do Führer na mídia,
sentida em todo o país, é a maior em 60
anos, observou o jornal.
Popularização da guerra
Também Wippermann tem esta impressão.
Para ele, o debate político sobre este capítulo
histórico está praticamente encerrado.
Seu lugar foi assumido pela comercialização
do Holocausto e da guerra. Segundo Wippermann, uma prova
disso é o grande êxito dos documentários
sobre o conflito divulgados pela rede de televisão
alemã ZDF. Nos documentários, o historiador
Guido Knopp conseguiu levar este capítulo da
História a grande parte da população
alemã. Mesmo assim, os filmes foram terrivelmente
comercializados. O que se vê hoje é uma
banalização da História.
Redator:Martin Schrader /rw
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Meu avô, o nazista
Cineasta alemão pesquisou o passado nazista de
seu avô e agora o apresenta num documentário,
em cartaz nos cinemas alemães. "Nunca diga
'nazista', diga 'nacional-socialista'", costumava
pedir Antonie Schütze a seu filho, Jens Schanze.
"Como se fizesse alguma diferença",
pensava ele. Mas a mãe insistia no termo "nacional-socialista"
ao referir-se a seu pai, a quem sempre se referia como
"nosso bom pai".
"Bom pai?". Schanze nunca entendeu direito
por que sua mãe falava assim de um homem que,
apesar de seu pai, também tinha sido bem mais
do que um simples funcionário do partido nazista.
Muito pelo contrário. Na realidade, o pai de
Antonie ocupava um dos mais altos cargos no comando
nazista na Baixa Silésia, que atualmente forma
parte do território polonês. Ele integrava
a SA (tropa de assalto) e era um anti-semita fervoroso.
Depois que o avô de Jens morreu, em 1954, a filha
manteve viva uma imagem idealizada de seu pai.
Aproximando-se da verdade
Foi com muito cuidado que Schanze, cineasta nascido
em 1971, conseguiu que sua mãe falasse mais sobre
essa admiração pelo pai. Sem censurá-la
em nenhum momento, ele tentou fazer somente perguntas
neutras e de uma maneira sensível. O resultado
foi o documentário Winterkinder Die schweigende
Generation (Crianças de inverno A geração
silenciosa, 2005). Aquilo que sua mãe parecia
não lembrar com precisão, Jens Schanze
foi buscar nas cartas do avô, das quais ele próprio
lê alguns trechos no filme, em off.
Nessas cartas, o diretor encontrou discursos anti-semitas
bastante inflamados e algumas canções
glorificando Hitler. Com a ajuda das cartas, fotos de
família e outros documentos ele formou uma nova
imagem de seu avô. Até suas irmãs
mais velhas se uniram ao trabalho. Suas infâncias
foram marcadas por frieza e silêncio. A guerra
era sem a necessidade da ordem explícita
tópico proibido em casa.
O envolvimento de seu avô com o nazismo foi mantido
em silêncio durante muito tempo pela família.
A decisão de Antonie, dando ao filho a permissão
de produzir uma análise crítica do pai,
causou uma grande confusão entre os familiares.
Suas relações mudaram significativamente.
Mensagem do diretor
Numa das cenas mais fortes do filme, a filha do comandante
nazista está em frente a um forno crematório
num campo de concentração da Baixa Silésia.
É neste momento que ela não contém
suas lágrimas. Winterkinder narra um pouco da
história contemporânea da Alemanha, ao
acompanhar a busca do diretor, seus pais e irmãos
pelo passado do avô, paralelamente documentando
o início de uma confrontação entre
as gerações dos netos e dos filhos. Com
grande intensidade, o filme se dedica a analisar como
a vivência da época nazista e o silêncio
a respeito afetaram as gerações posteriores
Memória privada x memória pública
Em geral, reconhece-se, mesmo fora da Alemanha, que
o país se ocupou de forma apropriada com seu
passado recente. Entretanto, uma pesquisa realizada
há três anos entre os alemães trouxe
um resultado bastante surpreendente: quase metade da
população acredita que seus parentes tenham
se posicionado criticamente contra o regime nazista.
O filme de Jens Schanze mostra de forma exemplar as
origens dessa discrepância entre a memória
privada e a pública. E talvez Winterkinder encoraje
uma ou outra família alemã a finalmente
conversar sobre esse passado (ainda) obscuro.
Fonte:
Redator(a):(tj)
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Deutsche Welle
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