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Carta de Rommel ao Führer

Comando Supremo do Grupo de Exércitos B -16.03.1944
Ao comandante Chefe

Ao
Führer e Supremo Comandante das Forças Armadas

Quando, na segunda quinzena de dezembro e obedecendo às ordens de V.ªEx.ª, inspecionei as condições de defesa do ocidente, verifiquei que em muitos dos Estados-Maiores e em vários pontos da frente havia a opinião de que a costa se encontrava tão tenuemente ocupada, que não seria possível resistir a um forte ataque do adversário. O inimigo invadirá o continente, especialmente ao lado das posições fortificadas e temos de repeli-Io por um contra-ataque das reservas rapidamente transportadas. Nas unidades motorizadas e blindadas existia a convicção de que será possível derrotar a inimigo desembarcado, por meio de hábeis, operações e, finalmente, lança-lo de novo para o mar. Na verdade, eram estas as tropas com que se podia defender a costa; no entanto, elas encontravam-se, com as reservas de intervenção, em parte, bastante retiradas para a interior, enquanto que a costa propriamente dita só se encontrava ocupada muita tenuemente.

O lançamento de minas na faixa costeira só foi executado numa extensão relativamente pequena; os campos de minas tinham uma largura de 25-50 metros e eram assinaladas por redes de arame. Não faltavam minas, vista que existia cerca de meio milhão delas nos depósitos. Todavia, as restrições sobre lançamento de minas eram tão severas, que os sapadores renunciaram de bom grado a fazê-Io. Fui informado a este respeito.

Diante da costa, não existiam, obstáculos capazes de dificultar o desembarque do inimigo, exceto os de arame farpado, que de tempos a tempos são arrancadas, ou danificadas pela maré alta. Na verdade, encontrei mais tarde na Normandia uma zona de ensaios para obstáculos submersos que ali tinha sido construída em 1941. O obstáculo resistiu bem, mas ninguém tentou esta feliz experiência numa base mais ampla e deixou colocar obstáculos submersos na sua frente.

Mediante a reorganização de numerosas divisões em França, a faixa costeira, sobretudo na área compreendida de Calais até sul da foz do Sama, em janeiro, mais fortalecida. Na própria costa, iniciou-se a formação de uma zona principal de combate, da qual deve ser possível repelir o ataque do inimigo à frente da HKL (praia). Grandes campos de minas surgiram entre as fortificações, e ninhos de resistência isolados junto à costa com uma profundidade de 1 km. Junto das fortificações enterradas das numerosas posições de artilharia, situadas na vanguarda da costa, e par V. a Ex.a, ordenadas, as sapadores e a tropa colocaram obstáculos diversos, que dificultarão imenso o desembarque do inimigo transportado em barcas, em especial quando forem acompanhadas por inúmeras minas. Estes obstáculos aumentam a olhos vistos em toda a costa atlântica e da Mancha.

Com o auxílio da Organização Todt, que construiu várias fábricas de obstáculos submersos, será possível guarnecer até 1 de Maio toda a costa desde os Países Baixos até à Bretanha inclusive, grandes porções da costa da Biscaia e da Mancha com obstáculos avançados de praia, e torná-los tão espessos que não só causarão extraordinárias dificuldades a um desembarque inimigo em grande escala, em qualquer local da costa, como também, através do efeito destruidor das minas colocadas sobre eles, produzirão grandes danos entre as barcaças de desembarque.

Segue em anexo um resumo do trabalho realizado desde o dia 1 de Janeiro no que respeita ao lançamento de minas nos sectores defensivos da costa e à construção de obstáculos avançados, de praia, assim como fotografias dos obstáculos. Até 1 de Maio, conseguir-se-á provàvelmente Colocar, ao todo, 2 a 3 milhões de minas na zona principal de combate dos sectores defensivos da costa e na frente terrestre. Os planos para a fortificação (até 1 de Maio) de alguns sectores defensivos costeiros mais importantes encontram-se também em anexo. Após a conclusão destes trabalhos, em minha opinião, o inimigo não terá nestes sectores grandes probabilidades de desembarcar com forças numerosas nem de se fixar por muito tempo. Existem, no entanto, inúmeros sectores que estão ocupados em pequena espessura, como por exemplo, uma grande parte na costa alcantilada entre o Soma e o Sena, o lado ocidental da Normandia na baía de St. Michel e vastas porções da costa da Bretanha, que pouco se prestam a um desembarque. Além disso, temos também a extensa costa da Biscaia e parte da Mancha. Para podermos efetuar uma defesa eficaz nestes pontos fracos que o adversário já conhece bem, é necessário manter preparadas unidades motorizadas e blindadas, à retaguarda, mas tão próximo da primeira linha que possam intervir logo nas primeiras horas, na costa, com grupos de combate contra um desembarque inimigo e, ao mesmo tempo, poderem repelir para a costa fortes contingentes de tropas inimigas aerotransportadas que tenham sido desembarcadas à retaguarda dos sectores defensivos costeiros mais fracos, ataca-Ios e aniquilá-Ios logo a seguir. Esta preparação das unidades blindadas não está ainda conforme a minha proposta. Com poucas exceções, encontram-se ainda longe da frente costeira e não poderão chegar a intervir no primeiro dia de combate. Até agora, estas forças não me foram subordinadas. É possível que o inimigo realize o seu ataque em grande escala em qualquer outro local sem ser na faixa entre os Países Baixos e a Bretanha. Neste caso, as unidades blindadas devem ser transportadas ràpidamente para a frente ameaçada, por via férrea ou pelos seus próprios meios. Todavia, não interessa que estas unidades sejam transportadas ou transferidas de uma zona situada a 50 ou 100 km da costa. O perigo resultante da· aviação inimiga é, em ambos os casos, igualmente grande.

Se o inimigo empregar fortes contingentes de forças aerotransportadas logo no início do seu ataque ao continente ou, mais tarde, no interior da França, eles não constituirão um perigo extraordinário. Rodeados por todos os lados pelas reservas alemãs, irão ao encontro de um rápido aniquilamento e exercerão pouca influência na luta na costa.
Nestes últimos dois meses, trabalhou-se também bastante na frente da Biscaia e da Mancha para levar ao máximo a preparação defensiva. Em muitos locais, construíram-se obstáculos avançados de praia. A zona principal de operações na faixa costeira podia ser ocupada de uma maneira mais densa mediante a introdução de algumas divisões e prestou-se mais, atenção ao lançamento de minas do que se tem prestado até agora. Além disso, unidades rápidas foram transferidas para relativamente perto da costa, de modo a assegurar a sua intervenção perante um desembarque do inimigo logo na primeira hora.
Quando, em Novembro do ano passado, me confiou esta missão no Ocidente, v.aEx. a manifestou-me a sua intenção de me confiar o comando dos locais onde o inimigo efetuaria provàvelmente o ataque decisivo contra .o continente. Com as forças que se encontram nas posições, com as unidades· blindadas estacionadas em França e as reservas provenientes da Alemanha, organizarei a luta defensiva, isto é, procurarei repelir de novo para o mar o inimigo desembarcado. A partir de meados de Janeiro, assumi o comando do 15º e 7º exércitos na costa dos Países Baixos. No entanto, as forças motorizadas não me foram ainda subordinadas, apesar dos, meus veementes pedidos. Sem estas forças, a batalha do Ocidente não pode ser travada com êxito. Peço a v.aEx. a que decida se eu devo comandar ou não a defesa do assalto em grande escala à costa atlântica e, no caso de me incumbir desta missão, subordinar-me também as unidades blindadas suficientes, pois é necessário efetuar a preparação para a defesa contra o assalto a partir de um ponto a que, depois, venha a caber também a responsabilidade.

 
Maio 1944, Rommel com seus membros mais próximos do seu staff, General Hans Speidel, o almirante naval Friedrich Ruge
e capitão Hellmuth Lang.
 
Erwin Rommel (centro) discute a invasão aliada da França com o General-Coronel Johannes Blaskowitz e o Marechal de Campo Gerd von Rundstedt.


NOTAS SOBRE A CONFERENCIA DE SITUAÇÃO DE HITLER (20 de Março de 1944)

O Führer reuniu numa conferência de uma hora os Comandantes Supremos das três Forças Armadas assim como os Comandantes-chefes dos Exércitos e os Comandantes de Fortaleza e expôs, com maravilhosa clareza e superior calma, os seus pontos de vista sobre a situação na frente ocidental.
O Führer declara, assim, que: "É evidente que os Anglo-Americanos efetuarão um desembarque no Ocidente. Como e onde será ele feito, ninguém sabe. Do mesmo modo, não podemos especular sobre a questão. Sejam quais forem às concentrações de barcos existentes, elas não podem e não devem ser tomadas como prova ou como indicação de que a escolha recaiu em determinado sector da longa frente ocidental, desde a Noruega até ao Golfo da Biscaia, ou no Mediterrâneo - quer na costa- sul da França, na costa italiana ou nos Balcãs. Tais concentrações podem ser deslocadas ou transferidas em qualquer altura, a coberto de uma má visibilidade, e servirão obviamente como simulação. O desembarque não é impossível em nenhum local da nossa longa frente, exceto, talvez, onde a costa é constituída por rochedos. As melhores zonas para um desembarque e, portanto, as mais ameaçadas são as duas penínsulas da costa ocidental, Cherburgo. e Brest, que são realmente tentadoras e oferecem as melhores possibilidades para a formação de uma testa de ponte que seria depois alargada sistemàticamente pelo emprego em massa das forças aéreas e das armas pesadas de todos os tipos.

O mais importante para o adversário é a conquista de um porto que possibilite o desembarque de grandes contingentes. Precisamente por isso, os portos da costa ocidental revestem-se de uma importância muito especial e devem ser considerados, por ordem do Führer, como fortalezas, nas quais o comandante é totalmente responsável pela formação e combate de todas as forças armadas da fortaleza. A sua missão é fazer todos os esforços para preparar convenientemente a defesa da fortaleza. É pessoalmente responsável por que a fortaleza resista até ao último cartucho, até à última arma e até esgotar-se a última possibilidade de defesa.

[...] Qualquer operação de desembarque não deverá, sob quaisquer circunstâncias, poder durar mais do que algumas horas ou, quando muito, dias, tomando por modelo a tentativa de Dieppe. Desde que o desembarque fracasse, ele· não será repetido pelo inimigo. Além das pesadas baixas que sofreria, seriam precisos muitos meses para renovar uma nova tentativa. Nem seria este o único fato a deter as novas tentativas dos Anglo-Americanos. Haveria também o grande desferido no seu moral se a invasão não tivesse êxito. Por outro lado, evitaria a reeleição de Roosevelt nos Estados Unidos e, com um pouco de sorte, ele acabaria por ir para a cadeia. Em Inglaterra, a fadiga da guerra far-se-ia sentir, mais fortemente do que até aqui, sobre Churchill, devido à idade e à doença dele, e, com a sua influência a desaparecer, já os Ingleses não ficariam em posição de lançar uma nova operação de desembarque. Dentro de pouco tempo, poderíamos enfrentar as forças do inimigo - cerca de 50 a 60 divisões - com outras equivalentes. A destruição da tentativa de desembarque inimiga significa mais do que uma decisão simplesmente local na frente do Ocidente. É o único fator decisivo em toda a guerra e, portanto, no seu resultado final.

As 45 divisões que possuímos atualmente na Europa, excluindo a frente leste, são necessárias a leste e serão transferidas para lá a· fim de provocarem uma mudança radical na situação logo que se der uma decisão a Ocidente. O resultado da guerra e o destino do Reich dependem de todos os soldados que combatem na frente ocidental, a frente decisiva da guerra. A importância do esforço individual deve permanecer no espírito de todos os oficiais e soldados...

Em resumo, peço-vos mais uma vez que cuideis de que cada oficial e soldado saibam que a decisão na frente ocidental depende de cada um. Todos devem saber do que se trata.

Fonte:
Rommel no Dia D - Friedrich Ruge
Título original: Rommel und die Invasion
Tradução: Ricardo Tavares
Editora Aster - Lisboa

 

leia também: O Führer tinha que decidir

 

 
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