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Hitler, em Julho de 1940, regressa de França
em triunfo, encontrava-se no auge do seu poder. A
rapidez e convicção das suas vitórias
tinham espantado até os seus generais. As dúvidas
tinham tido resposta, a oposição deles
seria reduzida. Foi então que Hitler lhes revelou
que os russos poderiam ser os seguintes.
O
alemão comum, tal como os russos e a população
em geral, foram apanhados de surpresa pelo pacto de
Hitler com Stalin em Agosto de 1939. A ele e aos outros,
parecia a mudança mais plausível entre
os maiores rivais do mundo. O pacto nazi-soviético
foi útil a Hitler e para Stalin. Hitler não
enfrentou obstáculos, ao invadir a Polônia
e a França. Pelo seu lado, Stalin, ganhou espaço
de manobra, enquanto o seu Exército recupera
das sangrentas purgas dos anos 30. Ele também
tinha apostado numa luta prolongada, entre a Alemanha
e os Aliados. Mas as vitórias alemãs,
no Ocidente, tinham sido mais rápidas do que
ele esperava.
Hitler
queria atacar a Rússia logo no Outono de 1940
e deixou-se convencer, só por essa vez, que
seria impossível partir para a guerra, numa
altura daquelas, devido ao clima na Rússia
e também por ser urgente Alto Comando Alemão
e necessário, refazer o Exército alemão,
assim como, a Força Aérea, antes de
iniciarem esta nova campanha. Em Agosto de 1939, quando
Hitler assinou o pacto com a Rússia, à
tarde havia um filme, que mostrava as tropas russas
em parada em frente ao Kremlin. Ele ficou bastante
impressionado e aliviado, porque com o pacto, aquele
exército estava neutralizado. Mas, mais tarde,
quando as tropas alemãs se juntaram às
russas, na ocupação da Polônia,
os oficiais comunicaram a Hitler que o armamento daquelas
unidades russas era muito precário. Ele, primeiro,
não acreditou muito, mas quando os russos atacaram
os finlandeses e não tiveram êxito ficou
convencido de que era realmente verdade. E já
não considerava o exército russo tão
forte quanto julgava.
As
dúvidas quanto à força do Exército
Vermelho aumentavam dentro da própria Rússia.
As purgas dos anos 30 tinham dizimado o poder de liderança.
90 por cento dos seus generais, 80 por cento dos seus
coronéis e mais de metade dos seus comandantes
tinham sido mortos, pelas idéias impulsivas
de Stalin. Todos os comandantes de cada distrito militar
foram eliminados. Todos os comandantes das divisões
do exército foram eliminados. Os comandantes
de regimento, e aqui houve exceções,
também foram eliminados.
Isto
é mais do que fragilidade política.
O exército estava decapitado, por assim dizer.
Após o fraco desempenho contra os finlandeses,
foram tomadas medidas para a sua reforma. Quando Moscou
sabe da vitória da Wehrmacht sobre os franceses,
essas reformas foram aceleradas. Ainda estavam incompletas
no Verão de 1940. Mesmo assim, Stalin aproveitou
a oportunidade, enquanto Hitler se empenhava na batalha
de Inglaterra, para se apoderar, primeiro, dos Estados
Bálticos da Estónia, Letônia e
Lituânia e de seguida, ainda nesse mês,
das regiões da Romênia, conhecidas como
Bessarabia e Bukovina do Norte, um movimento que aos
olhos de Hitler, deixou as tropas russas demasiado
perto dos poços de petróleo romenos
de Ploesti. O único local de abastecimento
de petróleo aos alemães, vital para
os seus tanques, aviões e navios.
Mas
com a maior parte das suas tropas ainda no Ocidente,
Hitler não interveio. Em vez disso, exerceu
pressão diplomática sobre os Bálcãs
tentando ganhar o seu apoio. Primeiro, o Rei Boris
da Bulgária foi convidado a visitar Hitler,
nesse Outono, no Berchtesgarden, seguindo-se o príncipe
Paulo, da Iugoslávia e o jovem Rei Michael,
da Romênia. Michael estava já sob influência
do seu primeiro-ministro, o pró-alemão,
Antonescu. Quando as notícias revelaram que
a Romênia e a Hungria, se tinham unido ao Eixo,
os russos reagiram bruscamente. Acusaram Berlim de
violar o Pacto de agosto de 1939.
A
debilitada amizade soviético-alemã começava
a ruir. Nesse mesmo mês, Hitler foi mais longe,
fortalecendo o Eixo. Assinou uma nova aliança
militar com a Itália e o Japão. O Pacto
Tripartido. Visava alegadamente, os Estados Unidos
e a Inglaterra. Os russos não pensavam assim.
Protestaram violentamente. Hitler convidou o conselheiro
mais próximo de Stalin, Molotov, para se deslocar
a Berlim em novembro de 1940, para ajudar, no seu
entender, a clarificar a situação. Foi
uma visita desastrosa para as relações
soviético-alemãs. Quando Molotov visitou
Berlim, é óbvio que estava receoso de
ser envenenado por bactérias e pediu que todos
os seus pratos e copos fossem fervidos, antes de serem
usados. Ele era áspero nos seus comentários
e não poupava Hitler. Bastante intransigente,
de sorriso difícil. Olhando para Hitler de
forma ostil e dizendo: "O nosso acordo do ano
passado continua válido?" E Hitler pensando
que seria uma má tradução respondeu:
"Claro, porque não"? E Molotov disse:
"Sim. Pergunto isto por causa dos finlandeses.
Estás com relações muito amigáveis
com os finlandeses. Convida pessoas da Finlândia
e envia para lá missões e os finlandeses
são gente muito perigosa. Enfraquecem a nossa
segurança e temos de agir quanto a isso. E
vamos agir quanto a isso".
Após
o que Hitler explodiu e declarou: "Eu compreendo-o
muito bem. Quer fazer guerra contra a Finlândia
e isso está fora de questão. Ouviu bem?
Impossível. Porque os meus abastecimentos de
ferro, níquel e outras matérias-primas,
serão cortados". Foi muito violento, um
campeonato de pesos-pesados em discussão política.
Ainda com Molotov em Berlim, Hitler ordenou aos seus
generais que planejassem o ataque à Rússia
para 15 de Maio de 1941. Eles apresentaram um esquema
detalhado que ele designou por: "Operação
Barbarossa", como o Imperador Prussiano de barba
ruiva, que há séculos, tomara parte
numa cruzada. Os generais de Hitler acreditavam que
atacando a Rússia com a Inglaterra ainda a
resistir, seria como que combater em duas frentes,
algo que em "Mein Kampf" seria o maior dos
erros militares. Mas Hitler defendeu, e com alguma
razão, nesse Inverno de 1940, que a Inglaterra,
ainda que não estando derrotada, não
era uma ameaça. Portanto uma campanha para
Leste seria uma única frente, desde que se
desenrolasse rapidamente. Anos antes Hitler tinha
escrito: "Os exércitos não existem
para a paz. Existem somente para o empenho triunfante
em tempo de guerra".
O
moral da Wehrmacht estava no seu auge. Para onde marchar
a seguir? Não podia avançar sobre a
Inglaterra por terra e um combate anfíbio não
era do agrado de Hitler. Parecia que só um
magnetismo poderia impeli-lo, contra o seu último
antagonista na Europa. Impeli-lo da mesma forma que
os Exércitos de Napoleão o foram, ao
serem deixados, impacientes, ao longo do Canal. Leste,
sempre para Leste, para a infindável Rússia.
O Exército Vermelho em 1941 era o maior do
mundo. Em número de tanques excedia, em aviões
igualava o conjunto dos restantes exércitos
do mundo inteiro. Apesar das suas falhas, o Exército
Vermelho estava mais bem equipado, do que adversários
anteriores da Wehrmacht.
E
a sua reorganização desde o fiasco da
Guerra Finlandesa, estava bem encaminhada. Mas e o
seu moral? Hitler estava certo de que sabia a resposta.
"É só um pontapé na porta
e toda aquela estrutura cairá por terra."
Os líderes da Rússia ainda pensavam
que teriam tempo, para o seu exército se preparar
para lutar. Em Março de 1941, as tropas russas
já tinham enfrentado as alemãs, ao longo
das fronteiras com a Hungria, a Romênia e a
Bulgária. Também a Iugoslávia
parecia tornar-se um satélite da Alemanha,
até que, encorajada pelos Serviços Secretos
Britânicos uma ação popular em
Belgrado, conseguiu expulsar os nazis.
Por
incrível que pareça, Moscou firmou um
pacto com os rebeldes. Logo no dia seguinte, Hitler
atacou a Iugoslávia. Irritado com a revolta,
deu à operação o nome "Retaliação".
A Operação Retaliação
obrigava a adiar a Operação Barbarossa,
por cinco semanas cruciais. Mas agora a Rússia
estava alerta enquanto a Wehrmacht invadia a sua nova
aliada. Hitler invadiu a Grécia, sem que Moscou
protestasse de novo. Esta inércia teve efeitos
sobre Hitler. Tornou-o ainda mais obstinado e as suas
tropas facilmente arrebatavam novas vitórias.
Os próprios espiões de Stalin tinham
enviado informações, sobre a concentração
de tropas ao longo das suas fronteiras, informações
essas que Stalin preferiu ignorar.
1
de Maio em Moscou, 1941.
Uma parada militar particularmente impressionante,
como que a reafirmar a confiança do povo russo,
em face de todos os rumores de uma iminente invasão.
A diplomacia russa tentava ainda apaziguar Hitler,
esperando com isso adiar qualquer ataque, até
que as reformas do Exército Vermelho estivessem
completas. E enquanto os generais conferenciavam,
os diplomatas racionavam cereais e outras matérias-primas
imprescindíveis à Alemanha, fechando
os olhos aos aviões de reconhecimento alemães,
sobre o território soviético, até
mesmo abrandando a defesa na fronteira, para não
ofender Berlim. E enquanto o Comissário dos
Negócios Estrangeiros de Stalin aperta a mão
ao adido militar de Hitler em Moscou, três milhões
de tropas alemãs avançavam para a fronteira.
A maior batalha terrestre da história estava
prestes a começar. O choque foi enorme quando
aquilo tudo começou. Disseram que o Exército
Vermelho nunca lutaria no seu território. Que
o primeiro tiro seria dado em território inimigo.
Os
alemães após o êxito das outras
campanhas, estávam confiantes de que a "Barbarossa"
também teria êxito. A primeira fase do
avanço foi muito rápida. Fazíam
mais de 100 km por dia. Ainda não tínham
perdido uma batalha, por isso, estávam habituados
a sairem vitoriosos. O plano de Hitler era, com três
exércitos numerosos, encontrar e destruir as
forças russas, no prazo de 4 meses. Além
do fator surpresa, os alemães tinham a vantagem
de uma superioridade esmagadora, em homens e armamento,
naqueles pontos escolhidos para o ataque dos seus
blindados. Três divisões de infantaria
russas foram dizimadas no primeiro dia e mais cinco
destruídas.
- Durante a travessia do Rio Bug, fomos atacados por
vários aviões russos obsoletos, que
eram abatidos de imediato e ficamos muito impressionados
com a superioridade da nossa Força Aérea,
no início.
Durante
os dois primeiros dias, foram destruídos dois
mil aviões russos, a maioria no chão.
A maior força aérea do mundo tinha sido
praticamente erradicada. Sem proteção
aérea, as tropas russas na fronteira perderam
a força e desapareceram. Numa semana, a Wehrmacht
já ia a meio caminho de Moscou. Num mês,
os alemães já tinham tomado o dobro
da área do seu próprio país.
As cidades russas caíam face ao poder dos carros
blindados. Numa delas os elétricos ainda andavam.
Os cidadãos gritavam com entusiasmo aos tanques
alemães. Na maioria das vezes, eram muito bem
recebidos pela população.
Tal como os franceses, no verão anterior, os
russos operavam com os tanques em pequenos grupos,
em vez das formações maciças
dos panzers alemães. Fáceis de enganar
pelos anti-tanques alemães, as suas carcaças
em chamas espalhavam-se pelo campo de batalha. Perderam-se
6 mil tanques russos, em apenas dois confrontos, em
Minsk e em Smolensk, no mês de Julho. Meio milhão
de russos foram mortos nos primeiros quinze dias e
perto de um milhão, feitos prisioneiros. Com
o passar das semanas, as perdas russas acumulavam-se,
confundindo os alemães, que se recusavam a
acreditar, que pudessem continuar a perderem-se tantas
vidas humanas.
Tal como em França, no ano anterior, Hitler
estava mais preocupado em destruir as forças
inimigas no terreno, do que tomar cidades, ou conquistar
território. Os seus generais nem sempre viam
as coisas desse modo. Tentados, talvez, por galões
dourados, rivalizavam entre si, o serem o conquistador
desta ou daquela cidade, principalmente, Moscou. Capturar
a capital russa sem demora, segundo Guderian, seria
decisivo.
Hitler preferia destruir primeiro às forças
russas no sul, esperando que a batalha fosse decisiva.
Moscou não era a sua primeira prioridade.
Em
Agosto, ordenou que os seus panzers virassem para
sul. Kiev, capital da Ucrânia, foi tomada em
meados de Setembro. Num dos mais espetaculares movimentos
circundantes, da história militar, os panzers
alemães prenderam em Kiev cerca de 750 mil
russos. O operador de câmara alemão fez
uma excelente filmagem, destas longas colunas de infelizes
russos, para os quais a linha da frente de combate,
tinha agora terminado.
Em
finais de Setembro de 1941, apenas três meses
depois da guerra, os russos tinham perdido cerca de
três milhões de homens. Mas a resistência
russa perante a aparente fatalidade, iria deixar o
mundo atônito. Os alemães foram instruídos
para olharem o inimigo russo, como um subumano, mas
não tardou muito, para que os soldados alemães
da linha da frente, o vissem mais como supra-humano
do que subumano. Os russos raramente gritam, quando
feridos, e parece sempre que há muitos deles
no horizonte.
Um
coronel da Wehrmacht escreveu: "Ao atacar a Rússia,
o exército alemão, é como um
elefante a atacar uma invasão de formigas.
O elefante irá matar milhares, talvez milhões,
mas por fim, elas são tantas, que irão
vencê-lo e ele será comido até
ao osso".
-
A orientação na Rússia é
tão difícil, como é no deserto,
só que não vemos o horizonte. Sentimo-nos
perdidos. A imensidão do espaço é
tal, que alguns soldados ficavam melancólicos.
Os vales, vales planos, encostas planas, e vales e
encostas planas intermináveis. Não havia
limite. Não víamos um fim e isso era
tão desolador. Víamos os campos enormes,
campos de milho, de horizonte a horizonte. Nunca tínhamos
visto uma coisa daquelas. Era muito grande. Não
se consegue imaginar a vastidão daquele país
e avançávamos de um rio ao outro, de
uma posição para outra e não
havia um fim para aquilo.
"Trocar
o espaço por tempo", era a tradicional
estratégia russa. O tempo não estava
do lado de Hitler, se ele queria alcançar a
sua vitória decisiva antes do Inverno. Com
a Ucrânia subjugada e Leningrado cercada, Hitler
virou a sua atenção para o alvo mais
valioso, Moscou. Coisa que os seus generais imploravam,
desde o início da campanha.
Moscou,
em Outubro de 1941, já era uma cidade da linha
da frente. Os alemães estavam apenas a cerca
de 300 km, em Agosto, quando Hitler desviou os seus
panzers para sul. Havia rumores freqüentes de
uma rendição antecipada. A cidade estava
há muito sob a disciplina militar. Era raro
o dia sem uma visita da Luftwaffe.
A
batalha por Moscou começou a sério,
no princípio de Outubro. De imediato, as coisas
correram mal para os seus defensores. Em dois enormes
movimentos em "tenaz", os alemães
capturaram mais 700 mil tropas russas. Goebbels chamou
correspondentes de guerra a Berlim para anunciar,
a queda iminente de Moscou.
-
Tínhamos tido um Verão lindo, sem problemas
climáticos, ou de qualquer outro tipo. Tanto
quanto me lembro, começou a nevar e começou
o frio, por volta de 10 de Outubro e soubemos de imediato
que não estávamos preparados ou equipados,
para o que nos esperava. Quando um comandante perguntou
ao seu quartel-general, quando podia esperar roupas
de Inverno, disseram-lhe para não fazer mais
pedidos desnecessários.
No
dia em que caíram as primeiras neves em Moscou,
os seus defensores receberam o novo comandante: Zhukov.
As informações secretas alemãs
não informaram Hitler, apesar de Zhukov ter
chefiado a defesa de Leningrado com enorme eficiência,
desde meados de setembro. Mas a defesa de Moscou seria
um teste maior ao comando de Zhukov. As primeiras
neves em breve derreteram, transformando as estradas
em autênticos pântanos. Apenas algumas
estradas na Rússia eram pavimentadas. Por conseguinte,
em outubro, começava a fase terrível
da lama, as estradas ficavam completamente empapadas,
tornando-se impróprias para qualquer veículo,
exceto tanques. Enquanto infantaria tinha de marchar
ao longo da beira das estradas, para deixar passar
carros e tanques.
- As rodas da minha artilharia partiram-se. E durante
dois ou três dias, tivemos de improvisar uma
forma de avançarmos, requisitando alguns cavalos
e carroças. Estávamos todos satisfeitos,
com o êxito das tropas alemãs na Rússia.
Goebbels fez uma grande campanha por toda a Alemanha,
para recolher peles e roupas de Inverno para as tropas
alemãs.
-
Apercebemo-nos de que algo imprevisto se passava.
Não tínhamos agasalhos, nem nada...
Apenas as coisas que tínhamos no Verão.
E estávamos muito zangados por não termos
equipamento melhor. O tempo piorou.
Muitos comandantes alemães hesitaram perante
o Inverno. Hitler não pensava assim. Convencido
de que a vitória seria sua antes de o Inverno
começar, ordenou aos generais que prosseguissem.
Em breve, o terreno estava gelado demais para suportar
os panzers. O atraso foi bem-vindo, permitindo a Zhukov
organizar a defesa de Moscou. Os russos tinham menos
de 400 tanques para defender Moscou. O "espaço"
esgotava-se para Zhukov, mas o "tempo" continuava
do seu lado, com os ventos frios do Inverno a soprarem
de Norte. Mas, a 14 de Outubro, uma formação
de panzers consegue avançar e toma Kalinin,
situada a menos de 160 km a norte. Uns dias mais tarde,
uma outra formação toma Mozhaysk, 90
km a ocidente, enquanto uma divisão de infantaria
alcançava Gorki, apenas a 60 km. O pânico
invadiu os cidadãos de Moscou.
Aqueles
que conseguiram, fugiram, cerca de dois milhões,
incluindo departamentos do Governo. O féretro
de Lenine foi evacuado, com outros tesouros do Kremlin.
Foi um grande choque, quando naqueles dois ou três
dias, provavelmente alguns mais adiantados, chegaram
algumas tropas motorizadas, a cerca de 40 ou 50 km
de Moscou.
- Devo dizer que havia um sobressalto grande em Moscou.
Havia pessoas a tentar sair.
Julgavam que os alemães estavam a chegar. É
fácil imaginar, que entre os dias 16 de Outubro
e 20 de Outubro, a população pensasse
que Moscou cairia nos dias seguintes e era a isso
que se devia o pânico. As pessoas faziam parar
os oficiais dos serviços secretos e insultavam-nos
sem medo algum. Numa situação normal,
não fariam uma coisa dessas. Esta foi a única
ocasião, em que, se provavelmente uma pequena
força alemã conseguisse ser largada
de pára-quedas sobre a cidade, nós ficaríamos
em apuros.
Mas
enquanto Hitler traçava o seu ataque final
a Moscou, Zhukov também planejava um ataque.
Mas com quê? Ele já tinha retirado tantas
tropas quantas se atreveu, de outros setores, para
defender Moscou. Mas havia uma reserva em que os russos
ainda não tinham tocado. Nem nunca pensaram
fazê-lo. As 40 divisões da Frente Siberiana,
das melhores tropas da Rússia, treinadas para
combater em condições de Inverno. Desde
junho que eles esperavam um ataque japonês.
Em meados de outubro, o espião de Stalin em
Tóquio, informa que o objetivo do Japão
estava noutro lugar qualquer. Desta vez, Stalin acreditou
nos seus espiões. Deslocou as divisões
siberianas para Moscou.
Mesmo
neste momento de crise, Moscou arranjou tempo para
celebrar o aniversário da Revolução
e Stalin apareceu ao seu povo.
- Eu diria que, apesar de todas as suas falhas, Stalin
prestou um grande serviço à URSS com
essa presença, porque mostrou duas coisas:
primeira, o comandante supremo não fugiu; segunda,
Stalin manteve a coragem. Esse sentimento de coragem
que, de imediato, se espalhou pelas forças
armadas em geral. Todos os comandantes diziam: "O
próprio Stalin está presente."
O
terreno secou. Os panzers já conseguiam rolar
de novo. A 26 de Novembro entraram em Istra, situada
apenas 50 km a oeste de Moscou. Quatro dias mais tarde
tinham tomado Krasnaya Polyana, apenas a 30 km a norte.
Zhukov ainda não tinha utilizado os siberianos
e os alemães não tinham dado pela presença,
perto de Moscou, dessas tropas tão recentes.
Os alemães também tinham os seus problemas.
-
Uma manhã acabou assim. Estava tudo gelado
e os carros estavam presos na lama, congelada. Os
tanques não conseguiam rolar e, nesse momento,
o meu coração parou. Havia ao longe
aquela grande cidade e acho que foi a primeira vez
e a última, que vi Moscou. As temperaturas
estavam abaixo dos 40º negativos. O óleo
solidificava no cárter dos caminhões
e tanques.
- O frio intenso afetava também os soldados.
Houve mais vítimas devido ao frio e a problemas
estomacais, do que propriamente aos combates. Não
tínhamos calçado de Inverno, nem qualquer
equipamento, para combater ou agüentar o frio
e penso que esse foi o grande problema do momento.
Perdemos uma parte considerável do nosso material,
armas, equipamento pesado e ligeiro, em geral. Nós,
claro, perdemos muita gente, devido a ulcerações
provocadas pelo frio e não tínhamos
pomadas ou outros meios, por mais simples e primitivos
que fossem para combatê-las. Dos 900 homens
do meu batalhão, 200 morreram, devido ao frio,
nos primeiros 14 dias. À medida que ia ficando
mais frio, em finais de novembro, princípios
de Dezembro, a maior parte da nossa artilharia ia
ficando totalmente inutilizada. Não tínhamos
o óleo lubrificante adequado, para esta guerra
de Inverno. Todavia, os russos tinham-no e de repente,
os nossos soldados aperceberam-se de que de um momento
para o outro, a arma deixava de disparar. A pior recordação
foram as viaturas gelarem no terreno e o óleo
do motor solidificar. Não conseguíamos
sair dali. Precisávamos e queríamos
sair dali. Acho que isso foi o pior.
- Na Rússia, não havia tabuletas de
sinalização e para encontrarmos o nosso
caminho, tínhamos disposto os corpos gelados
dos cavalos, ao longo das paredes de neve, para não
nos perdermos, durante as nevascas. E a paisagem era
tão desoladora. Neve, sempre neve. Estávamos
sempre solitários, a sonhar com a altura em
que regressaríamos a Berlim. Mas os maiorais
de Berlim negavam-se a acreditar no pior. As notícias
das atualidades faziam crer que era tudo uma diversão.
A realidade era bem diferente.
Nessa altura, tínhamos avançado quase
2000 km.
De
início, Hitler, não queria conceber
que esta crise fosse o fim de todo o seu plano estratégico,
mas o exército estava mais ciente da situação
e os russos fizeram à parte mais importante,
também a convencer Hitler de que a Campanha
Russa desse primeiro ano tinha falhado e tinha chegado
ao fim.
6
de Dezembro.
Com o moral da Wehrmacht completamente em baixo, apesar
de algumas tropas alemãs estarem só
a 25 km do Kremlin, Zhukov soltou os seus siberianos.
- Foi surpreendente, aquele momento. O primeiro momento
em que vi os tanques russos, trinta e quatro, a espalharem-se
rapidamente pelos campos e pela neve. Os nossos próprios
tanques não conseguiam mover-se, não
conseguiam disparar, porque estava demasiado frio.
Quando quis voltar, encontrei russos por todo o lado
e foi a minha primeira sensação de que
já não ia haver vitória.
À medida que recuperavam o seu território,
os russos descobriam os horrores da guerra. "Camarada,
mata um alemão", foi uma expressão
muito utilizada. No primeiro mês, após
a ofensiva russa, mais de 300 mil alemães foram
mortos ou capturados.
-
A pior recordação dessa retirada foi
o medo que sentimos, noite e dia, de cairmos em cativeiro.
E já conhecíamos o inimigo a ponto de
sabermos, que naqueles casos, tratavam severamente
os prisioneiros. Foi a primeira vez que os nossos
soldados se aperceberam que tempos negros se aproximavam.
Quando tivemos de bater em retirada de Moscou, a população
russa e os soldados russos devem ter pensado: "É
possível derrotar o Exército Alemão."
Dois
dias após o início da ofensiva russa,
os japoneses atacaram Pearl Harbour. A guerra estava
a tomar um rumo muito diferente.
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