Aquilo
que hoje são uns mostrengos abandonados, em Maio
de 1940, as fortificações da Linha Maginot eram a primeira linha de defesa de França contra a
Alemanha. Havia 500 mil soldados franceses nestes
montes artificiais. Eram as fortificações mais dispendiosas
e mais elaboradas até então construídas. “Aqui,
as armas iriam deter os hunos, desde que os hunos
invadissem por aqui”.
Maio-Junho
de 1940
“Bem
podemos dar graças a Deus pelo exército francês”,
disse WinstonChurchill
quando Hitler ascendeu ao poder. Mas, em 1933, o
exército francês já não era a magnífica força de
combate de outrora. Os manuais militares franceses
concentravam-se nas técnicas da Primeira Guerra,
apesar de Hitler ter afirmado: “A próxima guerra
será muito diferente da última”. Os franceses tinham
introduzido o tanque e o avião, mas agora pouco
fazia para alargar a sua aplicação. Tinham sido
pioneiros no transporte motorizado a nível militar,
mas voltaram a recorrer ao comboio (trens) e ao
cavalo, sobretudo ao cavalo.
-
Foi um período de grande declínio, provavelmente
devido aos esforços excessivos durante a Grande
Guerra. Tinham ganhado a guerra e Alto Comando Francês
achava que estava com a razão. Uma vitória é uma
oportunidade muito perigosa. (General André Beaufre
– Alto Comando Francês).
Entre
as guerras, a França estava profundamente dividida.
As facções digladiavam-se, as alianças alteravam-se,
os governos sucediam-se. Alguns duravam umas horas,
outros uns meses, e era raro algum durar um ano.
No próprio dia em que Hitler ascendeu ao poder, a França estava sem
governo. O mesmo aconteceu quando Hitler invadiu
a Áustria, cinco anos depois.Na França,
a esquerda estava mais preocupada
em depurar os seus próprios altos cargos,
do que em travar o fascismo que estava a sua porta.
E a direita odiava a esquerda de tal modo que estava
preparada para sancionar uma ditadura. Ainda em
1934, o vencedor de Verdun,
o Marechal Pétain, foi proposto para salvar França do comunismo, apesar
de já ter quase oitenta anos. Essas divisões profundas
iriam atrasar a França, quando teve de recorrer
novamente ao armamento.
-
As classes abastadas, à direita, digamos assim,
preferia os alemães aos seus próprios comunistas.
(Sir Edward Spears) - Não era preciso andar pela rua e ver "Pourqui, pourquoi?" nas paredes, ou a foice e o martelo, para
perceber que ninguém ia mexer um dedo. (LawrenceDurrel).
Nos
anos trinta, a França tinha construído fortificações
na fronteira com a Alemanha e como o Ministro da
Guerra, nessa altura, era André Maginot,
estas fortificações passaram a ser conhecidas por
Linha Maginot. As fortificações
da Linha Maginot eram
prodígios do século XX. Comboios elétricos transportavam
as tropas da caserna para lá, dos arsenais para
as cantinas. Havia cinemas subterrâneos, salas de
raios ultravioletas, ar condicionado, tudo. Tratava-se
dum gigantesco mundo à imagem do de Júlio Verne,
dezenas de metros abaixo do solo. Apesar de lhe
chamarem “O Escudo de França”, a Linha Maginot
não protegia o flanco oriental francês. Tinha apenas
140 quilômetros
de comprimento e terminava a 400 quilômetros do Canal da Mancha. Se alguma
vez fosse preciso soar o alarme, os estrategistas
franceses alegavam que as suas tropas teriam de
enfrentar os alemães em território
belga ou mesmo alemão.
Além
disso, prolongar a Linha para além da fronteira
belga sairia caro e faria com que os belgas pensassem
que, em caso de guerra, França os abandonaria. A
falácia desta teoria veio a lume em 1936, quando,
sem consultar França, o Rei Leopoldo da Bélgica
optou pela neutralidade e fechou as fronteiras até
mesmo aos observadores militares franceses. Só então
os franceses começaram a prolongar a Linha até ao
mar, mas, em Maio de 1940,
a obra estava longe de ter
terminado.
A
França tinha sofrido terríveis baixas na Primeira
Guerra. Agora, a táctica passou a ser inteiramente
defensiva, ignorando a máxima de Napoleão: “A facção
que fica nas suas fortificações é vencida”.Os franceses se recusavam a passar à ofensiva.
A
Linha Maginot, ironicamente,
protegia a Alemanha melhor do que a própria França.
Ao ser concluída, um coronel alemão, HeinzGuderian, publicou um
livro com um título profético “Achtung Panzer!”, um livro que nunca foi bem estudado pelo
estado-maior francês e inglês. No entanto, estas
páginas propõem um novo tipo de guerra: o uso concentrado
de tanques em concentração com a infantaria e a
força aérea. Blitzkrieg!
-
Na Primeira Guerra, tínhamos tido tanques. Sabíamos
as dificuldades que lhes eram inerentes, ao passo
que os alemães, que não os tinham, se punham na
pele daqueles que eram atacados. E enquanto que
nós considerávamos os tanques difíceis de manobrar,
os alemães acolheram as novas armas com o apetite
dos novos-ricos. (General André Beaufre – Alto Comando Francês)
Paris,
14 de Julho de 1939.
O
último desfile do Dia da Bastilha, organizado pela
Terceira República.Uns dias antes, em
Paris, o Ministro britânico da Guerra dissera:“O exército francês é o melhor do mundo”. Tal
como o desfile, essas declarações tinham como único
objetivo elevar o moral. Os parisienses mal tinham
regressado de férias, quando se viram novamente
em guerra. Mas enquanto
que, em 1914,
a palavra de ordem era “Para
Berlim!”, desta vez era “Vamos lá despachar isto”.
Mas
ironicamente, a mobilização francesa foi demasiado
ineficiente. A falta de técnicos especializados
ia paralisando várias indústrias vitais para a guerra.
Os homens só foram mobilizados ao fim dumas semanas
de muita confusão. E França não estava unida quando
entrou na guerra. Os políticos franceses continuavam
desavindos. Os ministros defendiam os seus interesses,
e não os do país.
E
muitas pessoas tomavam isso como exemplo. Paris
não mudou muito com a guerra, a não ser na aparência.
A canção mais popular no Outono de 1939 era “Paris
seratoujours
Paris.” Enquanto os seus aliados polacos eram desbaratados
no oriente, os franceses e os britânicos pouco faziam
no ocidente. Envolveram-se na chamada Ofensiva do
“Saar”, aliás, a única
ofensiva francesa durante a guerra. Algumas divisões
francesas avançaram oito quilômetros, mas nem sequer
tentaram penetrar na Linha Siegfried,
ainda inacabada.
Enquanto
a Polônia lutava, não havia quaisquer tanques alemães
na frente ocidental. No entanto, os correspondentes
de guerra não duvidavam da determinação dos franceses.
“Lemos os comunicados do alto comando francês e
esta é a realidade por detrás desses breves relatórios.
Os nossos operadores de câmara em território alemão
vêem os postos de observação na ponte sobre o Reno,
entre Kehl e Estrasburgo. Uma estação de trem alemã
está agora nas mãos das tropas francesas. Nos postos
fortificados, a vigilância é uma constante. A Linha
Maginot, que foi construída para ser a primeira
linha de defesa, é agora a segunda linha por detrás
do ataque. O avanço gradual, mas progressivo das
tropas francesas colocou a artilharia ao alcance
da Linha Siegfried. “Não há pressa, apenas uma pressão
implacável sobre as posições nazis.”Metro a metro,
os “poilus” avançam.
-
Se o exército francês tivesse atacado no início
de Setembro, com a sua nítida superioridade em termos
de divisões e de tanques - nós não tínhamos unidades
na frente ocidental de artilharia, panzers e de
força aérea - as forças
alemãs na chamada "frente ocidental" não
teriam resistido mais de uma ou duas semanas. (General
SiegfriedWestphal – Oficial do Staff Ocidental da Wehrmacht)
Mas
mesmo antes de a Polônia se render, o comando francês
mandou retirar para trás da Linha Maginot, uma retirada que os alemães nada fizeram para impedir.Nessa
altura dos acontecimentos, um francês escreveu o
seguinte: “Após o prólogo da Ofensiva
Fantoche,” “estávamos preparados para a Guerra
Fantoche.” Todos os dias, durante uns minutos, os
canhões ribombavam, geralmente para impressionar
os visitantes, nomeadamente o Duque de Windsor.
Raramente havia uma tentativa de importunar o inimigo.
Era até proibido bombardear o Ruhr,
não fosse a Luftwaffe retaliar contra as fábricas
francesas.
Os
jornalistas iam até à frente para observar a inatividade.
- Fiquei num posto de observação no Reno, a observar
os alemães, que se lavavam e jogavam futebol. Um
correspondente de guerra perguntou para a sentinela:
- Porque não dispara contra eles? - Não, se não disparam contra nós, porque
havíamos nós de fazê-lo?(GordonWaterfield – correspondente de guerra)
Na
frente, a vida era maçadora e desagradável. Mal
pagos, os soldados franceses viviam para os dias
de licença, em que aproveitavam para ganhar algum
dinheiro extra.O Inverno de 1939 foi
o mais frio dos cinqüenta anos anteriores. Até o
Canal da Mancha congelou em Bolonha. Os franceses
interromperam o prolongamento da Linha Maginot,
mas os alemães mantiveram os seus planos.À
medida que o Inverno avançava, o moral dos franceses
diminuía.A disciplina ia-se deteriorando,
e grassava a embriaguez. Nas estações, foram preparadas
salas especiais onde os homens podiam recuperar
antes de regressarem à sua unidade.Poucos
generais franceses passavam revista às tropas e
muito menos as visitavam, e o Comandante-em-Chefe,
Gamelin, raramente saía do seu quartel-general. Já com 68
anos no início de 1940, tinha uma folha de serviços
de tal modo exemplar que ninguém sonhava em pedir-lhe
para ceder lugar a outro mais novo.
-
Gamelin
era muito esperto, mas nada corajoso, e os políticos
gostavam dele por ser um Comandante-em-Chefe fácil.
(General
André Beaufre – Alto Comando
Francês)
Gamelin
escolheu para quartel-general este château em Vincennes,
nos arredores de Paris. Essa escolha revela bem
o tipo de pessoa que ele era. O inimigo não eram
os alemães, era o governo francês. Foi em Vincennes
que morreu Henrique V de Inglaterra e que a espia
Mata Hari foi executada. Segundo um visitante, tratava-se
de “um submarino sem periscópio”. Por incrível que
pareça, não tinha comunicações via rádio nem estava
ligado por telégrafo aos outros quartéis-generais.
Em vez disso, as mensagens seguiam de moto, todas
as horas.Era raro Gamelin dar ordens. Preferia simplesmente
sugerir linhas de orientação. A estratégia de longo
prazo consistia em esperar até os aliados igualarem
os alemães em número e equipamento, antes de lançar
uma grande ofensiva, apesar de isso implicar ter
de esperar até 1941. Entretanto, tratava de manter
a guerra afastada do solo francês, daí o seu interesse
em qualquer estratagema que lhe apresentassem.
Château
em Vincennes
-
Tencionávamos atacar a Rússia através da Noruega,
de Narvik, o que levou
ao desembarque em Narvik,
e tínhamos planos para atacar as refinarias de Baku,
a partir da Síria. Tínhamos planos para trazer os Bálcãs para o nosso lado com um desembarque em Salonica, e para nos juntarmos aos iugoslavos, mas nada disso
passava de sonhos vãos, completamente desligados
da realidade, mas tudo por julgarmos que a guerra
nunca se decidiria na frente, devido à inviolabilidade
dessa frente. (General André Beaufre
– Alto Comando Francês)
Gamelin tinha cem divisões nessa frente, em Maio de 1940, para
além de mais dez divisões da Força Expedicionária
Britânica. Quarenta divisões defendiam a Linha Maginot
e cinco guardavam a fronteira com a Suíça.Outras quarenta - as melhores - iriam para
a Bélgica, um país neutro, quando a Alemanha atacasse.
Mas quando isso acontecesse, o ponto fulcral
da frente de Gamelin seria
nas Ardenas. As impenetráveis
Ardenas. Mas seriam mesmo
impenetráveis... ?
Nos
mapas dos quartéis-generais, as matas densas e as
estradas estreitas e sinuosas talvez fizessem as
Ardenasparecer
impenetráveis, e terá sido por isso que Gamelin
decidiu guardar esta faixa de 150 quilômetros de frente com dez das divisões
mais fracas, mal equipadas e menos treinadas.
-
As Ardenas foram escolhidas
para a ofensiva, pois ofereciam uma oportunidade
de circundar a Linha Maginot
e, além disso, sabíamos que estavam mal defendidas
pelas tropas francesas nesta secção da frente francesa.
(General Warlimont - Alto Comando Alemão)
-
Sabíamos que o Alto Comando francês tinha dispersado
os seus tanques.Os tanques franceses
eram em maior número e melhores, mais pesados do
que os nossos, mas nós seguimos as instruções de
Guderian: “Atacar em massa
e com rapidez e não dispersar as forças de ataque".
(General vonManteuffel – Comandante
Panzer).
A
Primavera de 1940 foi muito soalheira e não havia
local mais pacífico do que as Ardenas,
onde os generais aliados tinham dito que os alemães
nunca atacariam apesar de certos relatórios alegarem
que quase cinqüenta divisões da Wehrmacht estavam
em movimento, relatórios esses que os franceses
preferiram ignorar.Até
souberam a data do ataque, mas nada fizeram. Tal
como afirmava Gamelin, preferiam “aguardar os acontecimentos”. Não teriam
de esperar muito mais.
10
de Maio de 1940.Cinco e meia da manhã,
em ponto.
A
ofensiva alemã começou de forma espetacular, com
a invasão aérea da Holanda, um país neutro. O objetivo
eram as pontes sobre o largo estuário do Mosela.
Se conseguissem tomá-las antes da chegada dos aliados,
a Holanda ficaria dividida ao meio. A ousadia da
ofensiva alemã espantou os holandeses. Os soldados
renderam-se em massa.Mais a sul, na
Bélgica, os alemães tiveram outro êxito espetacular
nesse primeiro dia: a tomada de EbenEmael, o forte mais inexpugnável
do mundo, o ponto crítico da linha de Gamelin.Essa linha foi transposta antes da chegada
de quaisquer forças aliadas.
Gamelin insistia em deslocar os seus exércitos para norte,
para a Bélgica e a Holanda. Quarenta das melhores
divisões, quase metade das suas forças, incluindo
a Força Expedicionária Britânica, foram cair diretamente
na armadilha preparada.
Em breve as tropas se cruzaram com as
primeiras colunas de refugiados, colunas essas que
iriam dificultar os reforços aliados, tal como os
alemães tinham planejado. A grande idéia dos alemães
foi à rapidez, e enviaram, ainda antes da entrada
do exército, polícias com bastões e luvas brancas,
motorizados. Todos tinham o Guia Michelin de França, sabiam perfeitamente onde eram as estradas.
Os panzers alemães atravessaram a fronteira do Luxemburgo.
As colunas estendiam-se ao longo de 150 quilômetros, tornando-se um alvo fácil para
qualquer bombardeiro, mas os aviões aliados, nesse
primeiro dia, estavam a apoiar o avanço inglês e
francês em direção à Bélgica.
A
Luftwaffe começou a atacar os aviões aliados no
solo. Numa base da R.A.F. perto de Reims,
os aviões, todos em fila, foram destruídos logo
nos primeiros minutos do ataque. Cinqüenta bases
aéreas britânicas e francesas foram atacadas nesse
primeiro dia, e as baixas foram pesadas.Mas
enquanto os comandantes aliados contavam as baixas,
já os panzers tinham penetrado nas impenetráveis
Ardenas, preparando-se para atacar as fracas guarnições francesas
ao longo do Mosela, em
Sedan.
Os
panzers chegaram a Sedan ao fim do terceiro dia
da ofensiva, apesar de Gamelin
ter calculado que nunca conseguiriam chegar antes
do nono dia. Todas as pontes sobre o Mosela
foram destruídas pelos franceses a 12 de Maio, à
exceção duma. Esta antiga represa, uns 60 quilômetros
a norte de Sedan, ficara
intacta, pois se temia que, se o nível da água baixasse
muito, se conseguiria atravessar o rio a vau. No
entanto, os franceses tinham-na deixada relativamente
mal guardada, tal como um comandante de panzers,
Erwin Rommel, depressa
verificou.Na manhã seguinte, as forças
da Luftwaffe entraram em ação sobre Sedan.Gamelin continuava a não acreditar que os alemães atravessassem
o rio senão daí a três ou quatro dias. A Wehrmacht
não estava disposta a esperar tanto, reagia ao ritmo
de 1940, e não ao de 1914.
Além
disso, os generais franceses continuavam virados
para o que se estava a passar na Bélgica e na Holanda.
Apesar de os franceses terem peças de artilharia
pesada, coibiam-se de disparar com medo de ficarem sem munições antes
do começo da batalha propriamente dita, portanto
os panzers tomaram as casamatas francesas uma por
uma. Milhares de artilheiros franceses começaram
logo a bater em retirada. Tão depressa como tinham começado,
os bombardeamentos alemães pararam. Tal como se
ainda estivesse nos jogos de guerra do Inverno,
a infantaria alemã preparou-se para atravessar o
Mosela.
À
meia-noite do dia 13 de Maio, ainda no quarto dia
da ofensiva, além de a infantaria alemã ter atravessado
o Mosela em massa, os
sapadores estavam já a preparar a travessia dos
panzers.Nessa noite de 13 de Maio, a
Força Expedicionária Britânica, na Bélgica, ainda
não tinha entrado em grandes confrontos, mas a batalha
já estava praticamente decidida.
-
O moral do alto comando francês caiu por terra.
Quando soubemos que a frente tinha sido penetrada
em Sedan, achamos que estava tudo perdido.Vi o General Georges, que comandava a frente nordeste, vi-o soluçar e dizer:
“Houve algumas deficiências." Deixou-se cair
numa cadeira e desatou a soluçar
(General André Beaufre
– Alto Comando Frances).
Os
poucos contra-ataques franceses estavam mal organizados
e eram pouco persistentes. Em número, os franceses
tinham tantos tanques como os alemães, mas os alemães
atacavam sempre em massa e os tanques franceses
tinham muitas avarias mecânicas. Era muito freqüente
terem de abandoná-los no campo de batalha. As divisões
de infantaria alemãs já tinham alcançado os panzers
nos locais de travessia do Mosela.Do
lado alemão, pelo menos, tudo corria de acordo com
os planos.
Para
as forças aéreas aliadas, que tinham estado quase
inativas no dia 13 de Maio, o dia 14 de Maio foi
duma atividade frenética. Os bombardeiros britânicos
e franceses atacaram intrepidamente as pontes do
Mosela.Os
generais franceses tinham demorado a reconhecer
a importância vital deste sector. No entanto, apesar
da coragem dos pilotos aliados, o resultado foi
desastroso.Dos aviões aliados,
praticamente metade não regressou. Citando a “História
da R.A.F.”: “Nunca a Real Força Aérea sofreu tamanhas
baixas.”
Após
14 de Maio, o céu pertencia indubitavelmente à Alemanha.Nesse mesmo dia, a Holanda rendeu-se. Agora,
só um milagre poderia salvar França. Com as cabeças
de ponte garantidas, os panzers já podiam avançar.A Batalha de Sedan iria dar lugar à Batalha
de França. A fase crucial dos planos alemães estava
prestes a começar: o avanço para norte, para o litoral,
que encurralaria os exércitos aliados na Bélgica. Em
Paris, mal se soube da derrota de Sedan, instalou-se
o pânico. Aqueles que puderam abandonaram a cidade.
O alto comando francês, que desconhecia os planos
alemães, partiu do princípio que Hitler tentaria
tomar Paris imediatamente. Para proteger a capital,
foram retiradas tropas do Mosela,
o que contribuiu ainda mais para alargar as cabeças
de ponte alemãs. Gamelin recusou-se a acreditar que as suas técnicas tinham
falhado e partiu do princípio que tinha sido traído.
Enquanto os “gendarmes” procuravam elementos duma Quinta Coluna, Gamelin demitiu cerca de vinte comandantes da linha da frente,
praticamente ao acaso.
As
tropas aliadas receberam ordens para abandonar a
Bélgica e, a 17 de Maio, Bruxelas caiu nas mãos
dos alemães. Foi o fim de Gamelin,
que se viu substituído pelo General Weygand,
que já estava praticamente reformado. A França estava
desesperada. Um homem de 73 anos ia substituir um
de 68, e Weygand tinha
passado esse ano na Síria, estava desatualizado.
Nessa mesma altura, o Marechal Pétain,
já com 84 anos, passou a Vice-Primeiro-Ministro.
Antes de sair da Espanha, onde fora o embaixador
francês, Pétain disse
ao General Franco: “O meu país foi vencido. É o
resultado de trinta anos de marxismo.” Ele estava
absolutamente do lado dos derrotistas. Já tinha
uma idade muito avançada, e fora chamado na esperança
de levantar o moral aos franceses.
Não
aconteceu nada disso. Tentando conter a ofensiva
alemã, os generais franceses desenhavam barreiras
nos mapas, mas os panzers transpunham-nas ainda
antes de as ordens serem emitidas. Na corrida para
o litoral, os comandantes alemães estavam sempre
um passo à frente dos franceses.Hordas
de prisioneiros caíram nas mãos dos alemães. Diversas
colunas, algumas delas com dez ou vinte mil homens,
depunham as armas e marchavam, sem terem recebido
ordens, encabeçadas pelos oficiais, na direção das
linhas alemãs.
As
tropas francesas não demonstraram a mesma disciplina
que tinham demonstrado na Primeira Guerra. Isso
se deveu ao “espírito Maginot”
e à arrastada Guerra Fantoche, pois os soldados
franceses julgavam que nunca mais teriam de combater.
E não eram apenas os soldados que caíam nas mãos
dos alemães, mas também os generais. A 19 de Maio,
o General Giraud, que
acabara de ser nomeado Comandante do 9º Exército
francês, foi capturado. Segundo os franceses, por
tanques. Segundo os alemães, por uma unidade móvel
de cozinha.
Mas
a grande tragédia era a dos refugiados. Havia doze
milhões de pessoas nas estradas do norte de França,
dirigindo-se sabe Deus para onde.
-
Os civis perguntavam-nos o que haviam de fazer,
porque o governo não lhes tinha dado indicações.
“Por amor de Deus, deixem-se estar, não se façam
à estrada.” Mas todos entraram em pânico e fugiram.
- Uma senhora de idade deu-nos uma chave,
mas nós não aceitamos. "Na última guerra levei
a chave, mas, quando voltei, não tinha casa."
A minha pior recordação foi ver dois aviões alemães
a sobrevoar os telhados e a disparar metralhadoras,
e aí é que nos apercebíamos da situação aflitiva
dos refugiados. (GordonWaterfield – correspondente
de guerra)
Os
alemães tinham avançado trezentos quilômetros em
sete dias, e a 20 de Maio chegaram ao Canal da Mancha.
Segundo o DailyTelegraph,as linhas telefônicas entre Londres e Paris tinham sido cortadas.
Segundo um porta-voz dos correios, não havia nenhuma
previsão do restabelecimento dos serviços. Com os
panzers no litoral, os melhores exércitos aliados
em manobras na Bélgica não tinham acesso ao sul.
Tardiamente, os franceses tentaram abrir caminho
até esses exércitos.O ataque foi insignificante,
mas, segundo argumentavam os franceses, os ingleses
tinham-lhes abandonado. -
As recriminações começaram com a retirada unilateral
do exército britânico. Havia ordens para atacar
ao sul, perto de Arras, e, sem aviso, soubemos que
os ingleses estavam a retirar para Dunquerque.
Não temos o direito de fazer grandes críticas, pois
quem mandava éramos nós, e perdemos a batalha, o
que dá uma boa desculpa aos ingleses para serem
egoístas, mas foram mesmo, muito egoístas.(General André Beaufre –
Alto Comando Francês).
A
25 de Maio, Bolonha foi tomada. A 26 de Maio, Calais.
A
nomeação de Weygand tinha suscitado certo otimismo nos franceses, mas
depressa esmoreceu, quando o contra-ataque falhou
e se soube em Paris, a 28 de Maio, que a Bélgica
tinha capitulado. A partir daí, o ambiente tornou-se
cada vez mais derrotista.Notava-se uma
prevalência do derrotismo. Havia um forte movimento
pela paz entre certos políticos. Alguns eram até
germanófilos e queriam
trabalhar para os alemães. Quando as coisas começaram
a correr mal, este grupo aumentou e tornou-se mais
dominante. O Primeiro-Ministro Reynaud reputou,
demitindo do seu governo alguns dos espíritos mais
fracos e convocando pessoas combativas, nomeadamente
DeGaulle,
que agora se estreava na arena política, mas a guerra
já não estava na mão deles. Talvez tenha sido isso
que levou à celebração duma missa especial em NotreDame, no domingo anterior a Dunquerque. Os franceses depressa se resignaram à idéia de
derrota e rendição. Para eles, era como se ainda
estivessem nos tempos da monarquia, em que havia
a troca dumas províncias, se pagava uns milhões
e ficava o assunto arrumado, na esperança de terem
mais sorte na vez seguinte.
Dunquerque
foi tomada a 4 de Junho.Hitler mandou repicar os sinos durante três
dias na Alemanha, para assinalar “a maior vitória
alemã de sempre”.
Com
os panzers reorganizados e equipados de novo, no
dia após a queda de Dunquerque
começou a segunda grande ofensiva alemã a ocidente.
Apesar de as forças inimigas serem mais de duas
vezes superiores, os franceses lutaram
obstinadamente e de forma muito mais agressiva do
que durante a batalha do Mosela.
No entanto, após três dias de luta sangrenta, a
tragédia voltou a abater-se sobre os franceses.
Rommel tinha obtido uma nova vitória.Em
poucas horas, tinha chegado ao
Sena, a Rouen.
Os panzers já passavam quase livremente pelo interior
de França. Todas as estradas apontavam para Paris.
A
10 de Junho, o governo francês abandonou a capital.
Nesse mesmo dia, Mussolini declarou que a Itália
entraria em guerra. -
Quando abandonamos Paris, fomos ao quartel-general
de Gamelin, em Vincennes,
e ouvimos pela rádio todas as cantigas e músicas
da guerra italiana, a Giovenezza e isso, e foi então que ouvi alguém dizer pela
primeira vez: “Isto não pode continuar.
Tem de haver um armistício"
(General André Beaufre
– Alto Comando Francês).
-
Tivemos imensa dificuldade em sair de Paris, porque
apesar de Paris estar deserta, as estradas estavam
repletas de automóveis. Até havia pessoas a ziguezaguear
pelas árvores, para irem mais depressa. Mas conseguimos
sair das estradas principais e ir pela província
e foi extraordinário, porque estava
um tempo maravilhoso, nas aldeias as pessoas
acolhiam-nos e ofereciam-nos o melhor conhaque,
o melhor vinho, pois diziam "para quê deixar
tudo para os alemães?" (GordonWaterfield – correspondente
de guerra).
-
Ao sobrevoar Paris, vi as grandes colunas da infantaria
alemã que já tinham entrado na cidade. Ao lembrar-me
de que nunca tínhamos conseguido alcançar este objetivo
na Primeira Guerra, senti uma alegria e uma euforia
tal, que perguntei ao piloto do meu avião, um Storch,
se seria possível aterrisar na Praça da Concórdia. Sobrevoá-la algumas vezes
e pousamos na Praça da Concórdia, que não tinha
trânsito, absolutamente nenhum, e pousamos no início
da ChampElíse
(General Warlimont - Alto
Comando Alemão).
Dois
dias após a queda de Paris, o novo primeiro-ministro,
o Marechal Pétain, pediu
o armistício aos alemães. Reynaud, que era contra
a paz em separado, demitiu-se. Quase toda a França
recebeu o armistício com alívio.Hitler
insistiu em usar a carruagem do Marechal Foch,
em Compiégne, onde fora
assinado o armistício de 1918. Para França, era
a humilhação suprema.
Só
quem assistiu à retirada, na França, àquela movimentação
gigantesca... Quem não passou por aquilo
não consegue compreender. Achamos que era imperioso
acabar com aquilo. (General
André Beaufre – Alto Comando
Francês)
Mal
os franceses assinaram, Hitler mandou destruir o
local. A Alemanha já se tinha vingado.A
rádio parisiense, agora sob controle alemão, divulgou
os termos do armistício. Agora, Paris tinha de se
adaptar a uma nova vaga de turistas.Entre
os primeiros contava-se Hitler, que fez a sua única
visita à cidade, e uma visita breve.
Durante
quatro anos, a França iria deixar de ter protagonismo
na guerra. Certos franceses optaram por resistir,
tanto no seu próprio país como no estrangeiro, outros
caíram na apatia e colaboraram. Muitos foram coniventes
com a Nova Ordem de Hitler para a Europa, na versão
de Vichy. A Paris, restava
uma última humilhação. O desfile triunfal dos alemães
seguiu precisamente o percurso da parada da vitória
francesa após a Primeira Guerra.A Wehrmacht
tinha demorado apenas cinco semanas a derrotar o
seu inimigo histórico.