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Aquilo que hoje são uns mostrengos abandonados, em Maio de 1940, as fortificações da Linha Maginot eram a primeira linha de defesa de França contra a Alemanha. Havia 500 mil soldados franceses nestes montes artificiais. Eram as fortificações mais dispendiosas e mais elaboradas até então construídas. “Aqui, as armas iriam deter os hunos, desde que os hunos invadissem por aqui”.

 Maio-Junho de 1940

Bem podemos dar graças a Deus pelo exército francês”, disse Winston Churchill quando Hitler ascendeu ao poder. Mas, em 1933, o exército francês já não era a magnífica força de combate de outrora. Os manuais militares franceses concentravam-se nas técnicas da Primeira Guerra, apesar de Hitler ter afirmado: “A próxima guerra será muito diferente da última”. Os franceses tinham introduzido o tanque e o avião, mas agora pouco fazia para alargar a sua aplicação. Tinham sido pioneiros no transporte motorizado a nível militar, mas voltaram a recorrer ao comboio (trens) e ao cavalo, sobretudo ao cavalo.

- Foi um período de grande declínio, provavelmente devido aos esforços excessivos durante a Grande Guerra. Tinham ganhado a guerra e Alto Comando Francês achava que estava com a razão. Uma vitória é uma oportunidade muito perigosa. (General André Beaufre – Alto Comando Francês).

Entre as guerras, a França estava profundamente dividida. As facções digladiavam-se, as alianças alteravam-se, os governos sucediam-se. Alguns duravam umas horas, outros uns meses, e era raro algum durar um ano. No próprio dia em que Hitler ascendeu ao poder, a França estava sem governo. O mesmo aconteceu quando Hitler invadiu a Áustria, cinco anos depois. Na França, a esquerda estava mais preocupada em depurar os seus próprios altos cargos, do que em travar o fascismo que estava a sua porta. E a direita odiava a esquerda de tal modo que estava preparada para sancionar uma ditadura. Ainda em 1934, o vencedor de Verdun, o Marechal Pétain, foi proposto para salvar França do comunismo, apesar de já ter quase oitenta anos. Essas divisões profundas iriam atrasar a França, quando teve de recorrer novamente ao armamento.

- As classes abastadas, à direita, digamos assim, preferia os alemães aos seus próprios comunistas. (Sir Edward Spears)
- Não era preciso andar pela rua e ver "Pour qui, pourquoi?" nas paredes, ou a foice e o martelo, para perceber que ninguém ia mexer um dedo. (Lawrence Durrel).

Nos anos trinta, a França tinha construído fortificações na fronteira com a Alemanha e como o Ministro da Guerra, nessa altura, era André Maginot, estas fortificações passaram a ser conhecidas por Linha Maginot. As fortificações da Linha Maginot eram prodígios do século XX. Comboios elétricos transportavam as tropas da caserna para lá, dos arsenais para as cantinas. Havia cinemas subterrâneos, salas de raios ultravioletas, ar condicionado, tudo. Tratava-se dum gigantesco mundo à imagem do de Júlio Verne, dezenas de metros abaixo do solo. Apesar de lhe chamarem “O Escudo de França”, a Linha Maginot não protegia o flanco oriental francês. Tinha apenas 140 quilômetros de comprimento e terminava a 400 quilômetros do Canal da Mancha. Se alguma vez fosse preciso soar o alarme, os estrategistas franceses alegavam que as suas tropas teriam de enfrentar os alemães em território belga ou mesmo alemão.

Além disso, prolongar a Linha para além da fronteira belga sairia caro e faria com que os belgas pensassem que, em caso de guerra, França os abandonaria. A falácia desta teoria veio a lume em 1936, quando, sem consultar França, o Rei Leopoldo da Bélgica optou pela neutralidade e fechou as fronteiras até mesmo aos observadores militares franceses. Só então os franceses começaram a prolongar a Linha até ao mar, mas, em Maio de 1940, a obra estava longe de ter terminado.

A França tinha sofrido terríveis baixas na Primeira Guerra. Agora, a táctica passou a ser inteiramente defensiva, ignorando a máxima de Napoleão: “A facção que fica nas suas fortificações é vencida”. Os franceses se recusavam a passar à ofensiva. 

A Linha Maginot, ironicamente, protegia a Alemanha melhor do que a própria França. Ao ser concluída, um coronel alemão, Heinz Guderian, publicou um livro com um título profético “Achtung Panzer!”, um livro que nunca foi bem estudado pelo estado-maior francês e inglês. No entanto, estas páginas propõem um novo tipo de guerra: o uso concentrado de tanques em concentração com a infantaria e a força aérea. Blitzkrieg!

- Na Primeira Guerra, tínhamos tido tanques. Sabíamos as dificuldades que lhes eram inerentes, ao passo que os alemães, que não os tinham, se punham na pele daqueles que eram atacados. E enquanto que nós considerávamos os tanques difíceis de manobrar, os alemães acolheram as novas armas com o apetite dos novos-ricos. (General André Beaufre – Alto Comando Francês)

 Paris, 14 de Julho de 1939.

O último desfile do Dia da Bastilha, organizado pela Terceira República. Uns dias antes, em Paris, o Ministro britânico da Guerra dissera: “O exército francês é o melhor do mundo”. Tal como o desfile, essas declarações tinham como único objetivo elevar o moral. Os parisienses mal tinham regressado de férias, quando se viram novamente em guerra. Mas enquanto que, em 1914, a palavra de ordem era “Para Berlim!”, desta vez era “Vamos lá despachar isto”.

Mas ironicamente, a mobilização francesa foi demasiado ineficiente. A falta de técnicos especializados ia paralisando várias indústrias vitais para a guerra. Os homens só foram mobilizados ao fim dumas semanas de muita confusão. E França não estava unida quando entrou na guerra. Os políticos franceses continuavam desavindos. Os ministros defendiam os seus interesses, e não os do país.

E muitas pessoas tomavam isso como exemplo. Paris não mudou muito com a guerra, a não ser na aparência. A canção mais popular no Outono de 1939 era “Paris sera toujours Paris.” Enquanto os seus aliados polacos eram desbaratados no oriente, os franceses e os britânicos pouco faziam no ocidente. Envolveram-se na chamada Ofensiva do “Saar”, aliás, a única ofensiva francesa durante a guerra. Algumas divisões francesas avançaram oito quilômetros, mas nem sequer tentaram penetrar na Linha Siegfried, ainda inacabada.

Enquanto a Polônia lutava, não havia quaisquer tanques alemães na frente ocidental. No entanto, os correspondentes de guerra não duvidavam da determinação dos franceses. “Lemos os comunicados do alto comando francês e esta é a realidade por detrás desses breves relatórios. Os nossos operadores de câmara em território alemão vêem os postos de observação na ponte sobre o Reno, entre Kehl e Estrasburgo. Uma estação de trem alemã está agora nas mãos das tropas francesas. Nos postos fortificados, a vigilância é uma constante. A Linha Maginot, que foi construída para ser a primeira linha de defesa, é agora a segunda linha por detrás do ataque. O avanço gradual, mas progressivo das tropas francesas colocou a artilharia ao alcance da Linha Siegfried. “Não há pressa, apenas uma pressão implacável sobre as posições nazis.”Metro a metro, os “poilus” avançam.

- Se o exército francês tivesse atacado no início de Setembro, com a sua nítida superioridade em termos de divisões e de tanques - nós não tínhamos unidades na frente ocidental de artilharia, panzers e de força aérea ­- as forças alemãs na chamada "frente ocidental" não teriam resistido mais de uma ou duas semanas. (General Siegfried Westphal – Oficial do Staff Ocidental da Wehrmacht)

Mas mesmo antes de a Polônia se render, o comando francês mandou retirar para trás da Linha Maginot, uma retirada que os alemães nada fizeram para impedir. Nessa altura dos acontecimentos, um francês escreveu o seguinte: “Após o prólogo da Ofensiva Fantoche,” “estávamos preparados para a Guerra Fantoche.” Todos os dias, durante uns minutos, os canhões ribombavam, geralmente para impressionar os visitantes, nomeadamente o Duque de Windsor. Raramente havia uma tentativa de importunar o inimigo. Era até proibido bombardear o Ruhr, não fosse a Luftwaffe retaliar contra as fábricas francesas.

Os jornalistas iam até à frente para observar a inatividade.
- Fiquei num posto de observação no Reno, a observar os alemães, que se lavavam e jogavam futebol. Um correspondente de guerra perguntou para a sentinela:
- Porque não dispara contra eles?
- Não, se não disparam contra nós, porque havíamos nós de fazê-lo?(Gordon Waterfield – correspondente de guerra)

Na frente, a vida era maçadora e desagradável. Mal pagos, os soldados franceses viviam para os dias de licença, em que aproveitavam para ganhar algum dinheiro extra. O Inverno de 1939 foi o mais frio dos cinqüenta anos anteriores. Até o Canal da Mancha congelou em Bolonha. Os franceses interromperam o prolongamento da Linha Maginot, mas os alemães mantiveram os seus planos. À medida que o Inverno avançava, o moral dos franceses diminuía.A disciplina ia-se deteriorando, e grassava a embriaguez. Nas estações, foram preparadas salas especiais onde os homens podiam recuperar antes de regressarem à sua unidade. Poucos generais franceses passavam revista às tropas e muito menos as visitavam, e o Comandante-em-Chefe, Gamelin, raramente saía do seu quartel-general. Já com 68 anos no início de 1940, tinha uma folha de serviços de tal modo exemplar que ninguém sonhava em pedir-lhe para ceder lugar a outro mais novo.

 - Gamelin era muito esperto, mas nada corajoso, e os políticos gostavam dele por ser um Comandante-em-Chefe fácil. (General André Beaufre – Alto Comando Francês)

Gamelin escolheu para quartel-general este château em Vincennes, nos arredores de Paris. Essa escolha revela bem o tipo de pessoa que ele era. O inimigo não eram os alemães, era o governo francês. Foi em Vincennes que morreu Henrique V de Inglaterra e que a espia Mata Hari foi executada. Segundo um visitante, tratava-se de “um submarino sem periscópio”. Por incrível que pareça, não tinha comunicações via rádio nem estava ligado por telégrafo aos outros quartéis-generais. Em vez disso, as mensagens seguiam de moto, todas as horas.Era raro Gamelin dar ordens. Preferia simplesmente sugerir linhas de orientação. A estratégia de longo prazo consistia em esperar até os aliados igualarem os alemães em número e equipamento, antes de lançar uma grande ofensiva, apesar de isso implicar ter de esperar até 1941. Entretanto, tratava de manter a guerra afastada do solo francês, daí o seu interesse em qualquer estratagema que lhe apresentassem.


Château em Vincennes

- Tencionávamos atacar a Rússia através da Noruega, de Narvik, o que levou ao desembarque em Narvik, e tínhamos planos para atacar as refinarias de Baku, a partir da Síria. Tínhamos planos para trazer os Bálcãs para o nosso lado com um desembarque em Salonica, e para nos juntarmos aos iugoslavos, mas nada disso passava de sonhos vãos, completamente desligados da realidade, mas tudo por julgarmos que a guerra nunca se decidiria na frente, devido à inviolabilidade dessa frente. (General André Beaufre – Alto Comando Francês)

Gamelin tinha cem divisões nessa frente, em Maio de 1940, para além de mais dez divisões da Força Expedicionária Britânica. Quarenta divisões defendiam a Linha Maginot e cinco guardavam a fronteira com a Suíça. Outras quarenta - as melhores - iriam para a Bélgica, um país neutro, quando a Alemanha atacasse. Mas quando isso acontecesse, o ponto fulcral da frente de Gamelin seria nas Ardenas. As impenetráveis Ardenas. Mas seriam mesmo impenetráveis... ?

Nos mapas dos quartéis-generais, as matas densas e as estradas estreitas e sinuosas talvez fizessem as Ardenas parecer impenetráveis, e terá sido por isso que Gamelin decidiu guardar esta faixa de 150 quilômetros de frente com dez das divisões mais fracas, mal equipadas e menos treinadas.

- As Ardenas foram escolhidas para a ofensiva, pois ofereciam uma oportunidade de circundar a Linha Maginot e, além disso, sabíamos que estavam mal defendidas pelas tropas francesas nesta secção da frente francesa. (General Warlimont - Alto Comando Alemão)

- Sabíamos que o Alto Comando francês tinha dispersado os seus tanques. Os tanques franceses eram em maior número e melhores, mais pesados do que os nossos, mas nós seguimos as instruções de Guderian: “Atacar em massa e com rapidez e não dispersar as forças de ataque". (General von Manteuffel – Comandante Panzer).

A Primavera de 1940 foi muito soalheira e não havia local mais pacífico do que as Ardenas, onde os generais aliados tinham dito que os alemães nunca atacariam apesar de certos relatórios alegarem que quase cinqüenta divisões da Wehrmacht estavam em movimento, relatórios esses que os franceses preferiram ignorar.Até souberam a data do ataque, mas nada fizeram. Tal como afirmava Gamelin, preferiam “aguardar os acontecimentos”. Não teriam de esperar muito mais.   

10 de Maio de 1940. Cinco e meia da manhã, em ponto.

A ofensiva alemã começou de forma espetacular, com a invasão aérea da Holanda, um país neutro. O objetivo eram as pontes sobre o largo estuário do Mosela. Se conseguissem tomá-las antes da chegada dos aliados, a Holanda ficaria dividida ao meio. A ousadia da ofensiva alemã espantou os holandeses. Os soldados renderam-se em massa. Mais a sul, na Bélgica, os alemães tiveram outro êxito espetacular nesse primeiro dia: a tomada de Eben Emael, o forte mais inexpugnável do mundo, o ponto crítico da linha de Gamelin. Essa linha foi transposta antes da chegada de quaisquer forças aliadas.

Gamelin insistia em deslocar os seus exércitos para norte, para a Bélgica e a Holanda. Quarenta das melhores divisões, quase metade das suas forças, incluindo a Força Expedicionária Britânica, foram cair diretamente na armadilha preparada.

Em breve as tropas se cruzaram com as primeiras colunas de refugiados, colunas essas que iriam dificultar os reforços aliados, tal como os alemães tinham planejado. A grande idéia dos alemães foi à rapidez, e enviaram, ainda antes da entrada do exército, polícias com bastões e luvas brancas, motorizados. Todos tinham o Guia Michelin de França, sabiam perfeitamente onde eram as estradas. Os panzers alemães atravessaram a fronteira do Luxemburgo. As colunas estendiam-se ao longo de 150 quilômetros, tornando-se um alvo fácil para qualquer bombardeiro, mas os aviões aliados, nesse primeiro dia, estavam a apoiar o avanço inglês e francês em direção à Bélgica.

A Luftwaffe começou a atacar os aviões aliados no solo. Numa base da R.A.F. perto de Reims, os aviões, todos em fila, foram destruídos logo nos primeiros minutos do ataque. Cinqüenta bases aéreas britânicas e francesas foram atacadas nesse primeiro dia, e as baixas foram pesadas. Mas enquanto os comandantes aliados contavam as baixas, já os panzers tinham penetrado nas impenetráveis Ardenas, preparando-se para atacar as fracas guarnições francesas ao longo do Mosela, em Sedan.

Os panzers chegaram a Sedan ao fim do terceiro dia da ofensiva, apesar de Gamelin ter calculado que nunca conseguiriam chegar antes do nono dia. Todas as pontes sobre o Mosela foram destruídas pelos franceses a 12 de Maio, à exceção duma. Esta antiga represa, uns 60 quilômetros a norte de Sedan, ficara intacta, pois se temia que, se o nível da água baixasse muito, se conseguiria atravessar o rio a vau. No entanto, os franceses tinham-na deixada relativamente mal guardada, tal como um comandante de panzers, Erwin Rommel, depressa verificou. Na manhã seguinte, as forças da Luftwaffe entraram em ação sobre Sedan. Gamelin continuava a não acreditar que os alemães atravessassem o rio senão daí a três ou quatro dias. A Wehrmacht não estava disposta a esperar tanto, reagia ao ritmo de 1940, e não ao de 1914.

Além disso, os generais franceses continuavam virados para o que se estava a passar na Bélgica e na Holanda. Apesar de os franceses terem peças de artilharia pesada, coibiam-se de disparar com medo de ficarem sem munições antes do começo da batalha propriamente dita, portanto os panzers tomaram as casamatas francesas uma por uma. Milhares de artilheiros franceses começaram logo a bater em retirada. Tão depressa como tinham começado, os bombardeamentos alemães pararam. Tal como se ainda estivesse nos jogos de guerra do Inverno, a infantaria alemã preparou-se para atravessar o Mosela. 

À meia-noite do dia 13 de Maio, ainda no quarto dia da ofensiva, além de a infantaria alemã ter atravessado o Mosela em massa, os sapadores estavam já a preparar a travessia dos panzers.Nessa noite de 13 de Maio, a Força Expedicionária Britânica, na Bélgica, ainda não tinha entrado em grandes confrontos, mas a batalha já estava praticamente decidida. 

- O moral do alto comando francês caiu por terra. Quando soubemos que a frente tinha sido penetrada em Sedan, achamos que estava tudo perdido. Vi o General Georges, que comandava a frente nordeste, vi-o soluçar e dizer: “Houve algumas deficiências." Deixou-se cair numa cadeira e desatou a soluçar (General André Beaufre – Alto Comando Frances).

Os poucos contra-ataques franceses estavam mal organizados e eram pouco persistentes. Em número, os franceses tinham tantos tanques como os alemães, mas os alemães atacavam sempre em massa e os tanques franceses tinham muitas avarias mecânicas. Era muito freqüente terem de abandoná-los no campo de batalha. As divisões de infantaria alemãs já tinham alcançado os panzers nos locais de travessia do Mosela.Do lado alemão, pelo menos, tudo corria de acordo com os planos.

Para as forças aéreas aliadas, que tinham estado quase inativas no dia 13 de Maio, o dia 14 de Maio foi duma atividade frenética. Os bombardeiros britânicos e franceses atacaram intrepidamente as pontes do Mosela. Os generais franceses tinham demorado a reconhecer a importância vital deste sector. No entanto, apesar da coragem dos pilotos aliados, o resultado foi desastroso.Dos aviões aliados, praticamente metade não regressou. Citando a “História da R.A.F.”: “Nunca a Real Força Aérea sofreu tamanhas baixas.

Após 14 de Maio, o céu pertencia indubitavelmente à Alemanha. Nesse mesmo dia, a Holanda rendeu-se. Agora, só um milagre poderia salvar França. Com as cabeças de ponte garantidas, os panzers já podiam avançar. A Batalha de Sedan iria dar lugar à Batalha de França. A fase crucial dos planos alemães estava prestes a começar: o avanço para norte, para o litoral, que encurralaria os exércitos aliados na Bélgica.

Em Paris, mal se soube da derrota de Sedan, instalou-se o pânico. Aqueles que puderam abandonaram a cidade. O alto comando francês, que desconhecia os planos alemães, partiu do princípio que Hitler tentaria tomar Paris imediatamente. Para proteger a capital, foram retiradas tropas do Mosela, o que contribuiu ainda mais para alargar as cabeças de ponte alemãs. Gamelin recusou-se a acreditar que as suas técnicas tinham falhado e partiu do princípio que tinha sido traído. Enquanto os “gendarmes” procuravam elementos duma Quinta Coluna, Gamelin demitiu cerca de vinte comandantes da linha da frente, praticamente ao acaso.

As tropas aliadas receberam ordens para abandonar a Bélgica e, a 17 de Maio, Bruxelas caiu nas mãos dos alemães. Foi o fim de Gamelin, que se viu substituído pelo General Weygand, que já estava praticamente reformado. A França estava desesperada. Um homem de 73 anos ia substituir um de 68, e Weygand tinha passado esse ano na Síria, estava desatualizado. Nessa mesma altura, o Marechal Pétain, já com 84 anos, passou a Vice-Primeiro-Ministro. Antes de sair da Espanha, onde fora o embaixador francês, Pétain disse ao General Franco: “O meu país foi vencido. É o resultado de trinta anos de marxismo.” Ele estava absolutamente do lado dos derrotistas. Já tinha uma idade muito avançada, e fora chamado na esperança de levantar o moral aos franceses. 

Não aconteceu nada disso. Tentando conter a ofensiva alemã, os generais franceses desenhavam barreiras nos mapas, mas os panzers transpunham-nas ainda antes de as ordens serem emitidas. Na corrida para o litoral, os comandantes alemães estavam sempre um passo à frente dos franceses. Hordas de prisioneiros caíram nas mãos dos alemães. Diversas colunas, algumas delas com dez ou vinte mil homens, depunham as armas e marchavam, sem terem recebido ordens, encabeçadas pelos oficiais, na direção das linhas alemãs. 

As tropas francesas não demonstraram a mesma disciplina que tinham demonstrado na Primeira Guerra. Isso se deveu ao “espírito Maginot” e à arrastada Guerra Fantoche, pois os soldados franceses julgavam que nunca mais teriam de combater. E não eram apenas os soldados que caíam nas mãos dos alemães, mas também os generais. A 19 de Maio, o General Giraud, que acabara de ser nomeado Comandante do 9º Exército francês, foi capturado. Segundo os franceses, por tanques. Segundo os alemães, por uma unidade móvel de cozinha.

Mas a grande tragédia era a dos refugiados. Havia doze milhões de pessoas nas estradas do norte de França, dirigindo-se sabe Deus para onde.

- Os civis perguntavam-nos o que haviam de fazer, porque o governo não lhes tinha dado indicações. “Por amor de Deus, deixem-se estar, não se façam à estrada.” Mas todos entraram em pânico e fugiram.
- Uma senhora de idade deu-nos uma chave, mas nós não aceitamos. "Na última guerra levei a chave, mas, quando voltei, não tinha casa." A minha pior recordação foi ver dois aviões alemães a sobrevoar os telhados e a disparar metralhadoras, e aí é que nos apercebíamos da situação aflitiva dos refugiados. (Gordon Waterfield – correspondente de guerra)

Os alemães tinham avançado trezentos quilômetros em sete dias, e a 20 de Maio chegaram ao Canal da Mancha. Segundo o Daily Telegraph,as linhas telefônicas entre Londres e Paris tinham sido cortadas. Segundo um porta-voz dos correios, não havia nenhuma previsão do restabelecimento dos serviços. Com os panzers no litoral, os melhores exércitos aliados em manobras na Bélgica não tinham acesso ao sul. Tardiamente, os franceses tentaram abrir caminho até esses exércitos. O ataque foi insignificante, mas, segundo argumentavam os franceses, os ingleses tinham-lhes abandonado.
- As recriminações começaram com a retirada unilateral do exército britânico. Havia ordens para atacar ao sul, perto de Arras, e, sem aviso, soubemos que os ingleses estavam a retirar para Dunquerque. Não temos o direito de fazer grandes críticas, pois quem mandava éramos nós, e perdemos a batalha, o que dá uma boa desculpa aos ingleses para serem egoístas, mas foram mesmo, muito egoístas.(General André Beaufre – Alto Comando Francês).

 A 25 de Maio, Bolonha foi tomada. A 26 de Maio, Calais.

A nomeação de Weygand tinha suscitado certo otimismo nos franceses, mas depressa esmoreceu, quando o contra-ataque falhou e se soube em Paris, a 28 de Maio, que a Bélgica tinha capitulado. A partir daí, o ambiente tornou-se cada vez mais derrotista. Notava-se uma prevalência do derrotismo. Havia um forte movimento pela paz entre certos políticos. Alguns eram até germanófilos e queriam trabalhar para os alemães. Quando as coisas começaram a correr mal, este grupo aumentou e tornou-se mais dominante. O Primeiro-Ministro Reynaud reputou, demitindo do seu governo alguns dos espíritos mais fracos e convocando pessoas combativas, nomeadamente De Gaulle, que agora se estreava na arena política, mas a guerra já não estava na mão deles. Talvez tenha sido isso que levou à celebração duma missa especial em Notre Dame, no domingo anterior a Dunquerque. Os franceses depressa se resignaram à idéia de derrota e rendição. Para eles, era como se ainda estivessem nos tempos da monarquia, em que havia a troca dumas províncias, se pagava uns milhões e ficava o assunto arrumado, na esperança de terem mais sorte na vez seguinte.

Dunquerque foi tomada a 4 de Junho. Hitler mandou repicar os sinos durante três dias na Alemanha, para assinalar “a maior vitória alemã de sempre”.

Com os panzers reorganizados e equipados de novo, no dia após a queda de Dunquerque começou a segunda grande ofensiva alemã a ocidente. Apesar de as forças inimigas serem mais de duas vezes superiores, os franceses lutaram obstinadamente e de forma muito mais agressiva do que durante a batalha do Mosela. No entanto, após três dias de luta sangrenta, a tragédia voltou a abater-se sobre os franceses. Rommel tinha obtido uma nova vitória. Em poucas horas, tinha chegado ao Sena, a Rouen. Os panzers já passavam quase livremente pelo interior de França. Todas as estradas apontavam para Paris. 

A 10 de Junho, o governo francês abandonou a capital. Nesse mesmo dia, Mussolini declarou que a Itália entraria em guerra.
- Quando abandonamos Paris, fomos ao quartel-general de Gamelin, em Vincennes, e ouvimos pela rádio todas as cantigas e músicas da guerra italiana, a Giovenezza e isso, e foi então que ouvi alguém dizer pela primeira vez: “Isto não pode continuar. Tem de haver um armistício
" (General André Beaufre – Alto Comando Francês).

- Tivemos imensa dificuldade em sair de Paris, porque apesar de Paris estar deserta, as estradas estavam repletas de automóveis. Até havia pessoas a ziguezaguear pelas árvores, para irem mais depressa. Mas conseguimos sair das estradas principais e ir pela província e foi extraordinário, porque estava um tempo maravilhoso, nas aldeias as pessoas acolhiam-nos e ofereciam-nos o melhor conhaque, o melhor vinho, pois diziam "para quê deixar tudo para os alemães?" (Gordon Waterfield – correspondente de guerra). 

- Ao sobrevoar Paris, vi as grandes colunas da infantaria alemã que já tinham entrado na cidade. Ao lembrar-me de que nunca tínhamos conseguido alcançar este objetivo na Primeira Guerra, senti uma alegria e uma euforia tal, que perguntei ao piloto do meu avião, um Storch, se seria possível aterrisar na Praça da Concórdia. Sobrevoá-la algumas vezes e pousamos na Praça da Concórdia, que não tinha trânsito, absolutamente nenhum, e pousamos no início da Champ Elíse (General Warlimont - Alto Comando Alemão).

Dois dias após a queda de Paris, o novo primeiro-ministro, o Marechal Pétain, pediu o armistício aos alemães. Reynaud, que era contra a paz em separado, demitiu-se. Quase toda a França recebeu o armistício com alívio. Hitler insistiu em usar a carruagem do Marechal Foch, em Compiégne, onde fora assinado o armistício de 1918. Para França, era a humilhação suprema.

Só quem assistiu à retirada, na França, àquela movimentação gigantesca... Quem não passou por aquilo não consegue compreender. Achamos que era imperioso acabar com aquilo. (General André Beaufre – Alto Comando Francês)

Mal os franceses assinaram, Hitler mandou destruir o local. A Alemanha já se tinha vingado. A rádio parisiense, agora sob controle alemão, divulgou os termos do armistício. Agora, Paris tinha de se adaptar a uma nova vaga de turistas. Entre os primeiros contava-se Hitler, que fez a sua única visita à cidade, e uma visita breve.

Durante quatro anos, a França iria deixar de ter protagonismo na guerra. Certos franceses optaram por resistir, tanto no seu próprio país como no estrangeiro, outros caíram na apatia e colaboraram. Muitos foram coniventes com a Nova Ordem de Hitler para a Europa, na versão de Vichy. A Paris, restava uma última humilhação. O desfile triunfal dos alemães seguiu precisamente o percurso da parada da vitória francesa após a Primeira Guerra. A Wehrmacht tinha demorado apenas cinco semanas a derrotar o seu inimigo histórico.

 
 
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