A guerra russo-finlandesa foi breve
mas extremamente sangrenta, e rica de episódios
que escapam à realidade quotidiana, para converter-se
em aparente ficção novelística.
Armadilhas arquitetadas com maquiavélica eficiência,
ardís dignos de guerras já ultrapassadas,
tudo foi utilizado na contenda. O que aqui se narra
mostra até que ponto chegou o desprezo pela
vida humana, no decorrer do conflito.
MORTE BRANCA "Valkoinen Kuolema"
Somo Hayha (*17 de dezembro de 1905
1 de abril de 2002) - era um camponês que aprendeu
a caçar com o rifle aos 17 anos. Convocado
a defender a Finlândia da invasão soviética,
operou na região do rio Kollaa, Lugar onde
estava habituado a atirar Hayha usava um rifle Mosin
Nagant M28 sem miras telescópicas e era capaz
de acertar alvos a mais de 400 metros de distância.
As forças finlandesas na região do
rio kollaa estavam sob o comando do general Uiluo
Tuompo e já enfrentavam as primeiras investidas
do 9º e 1º exércitos, soviéticos,...A
superioridade numérica dos russos era esmagadora,
e como o vale do Kollaa era ponto estratégico
importantíssimo para o avanço russo,
para lá foram enviadas 12 divisões,
com um total de 160.000 homens,...ignorando a superioridade
numérica a resistência finlandesa lutou
ferozmente, e foi durante essa luta desigual que se
destacou Simo Hayha (542 mortes). ... Aqueles eram
os seus campos de caça e conhecia a região
como ninguém, era a sua casa, nenhum inimigo
estaria seguro.
A invasão da Finlândia custou aos russos
1 milhão de homens, contra 25 mil finlandeses.
Simo Hayha, um exímio atirador e perito em
se ocultar na neve, passou para a história
com o apelido de Morte Branca "Valkoinen kuolema".
Em 1940 recebeu do exercito finlandês um rifle
Mauser com lunetas, mas preferiu continuar com o seu
M28, que, segundo ele, permitia lançar fogo
sem que fosse preciso levantar demais a cabeça
- o que no caso de um sniper, pode significar a própria
sobrevivência.
Embora Hayha costumasse atirar sentado, a maioria
dos snipers agia de forma deitada ou ajoelhada. Em
posições estáveis e deixavam
o corpo menos exposta ao ataque inimigo. Entocavam-se
em lugares altos e, regra fundamental para os snipers,
evitavam ao máximo dar mais de um tiro do mesmo
lugar, se a primeira bala pegasse o inimigo de surpresa,
o mesmo não aconteceria na segunda. Bastava
ter seu esconderijo descoberto para que a vantagem
do sniper acabasse de vez. Por isso, também
era comum os atiradores formarem duplas - um se encarregava
da observação, e o outro, dos disparos
propriamente ditos.
Por Maior que fosse o impacto na exército
inimigo, sozinho os snipers pouco podiam fazer para
alterar o rumo da guerra.
ISCAS HUMANAS
Suomusalmi. O avanço
russo é contido por uma unidade finlandesa,
perfeitamente oculta em um terreno coberto de bosques.
Uma segunda tentativa convence os soviéticos
da impossibilidade de continuar o ataque ou, em todo
caso, de realizá-lo sem que o preço
seja um número de baixas demasiado elevado.
Então põem em prática uma técnica
que demonstra o extraordinário espirito de
sacrifício dos soldados soviéticos.
A unidade, em massa, retrocede e se mantém
alerta. Enquanto isso, 10 ou 12 homens a cavalo abandonam
a proteção do bosque ou das rochas e
avançam, oferecendo-se como alvo. Os finlandeses
fazem fogo com as suas armas automáticas, abatendo
os heróis. O comando da unidade soviética,
que ficara à retaguarda, na expectativa, localiza
assim o setor de onde partem os disparos. Segundos
depois, os morteiros russos iniciam um metódico
fogo sobre a zona indicada. Após alguns minutos
suspendem a artilharia e lançam uma carga de
infantaria. Forçam, com isso, os finlandeses
a se defenderem dos infantes e a confirmarem a sua
verdadeira posição no enconderijo do
bosque. A seguir, com toda a massa da infantaria lança-se
ao ataque. Os finlandeses não podem resistir
ao ínimigo, muito superior em número,
desde o instante que se traíram e indicaram
o ponto exato em que se ocultavam
A ARMADILHA DE
GELO
Viborg, a sudoeste da linha defensiva finlandesa.
Ponto vital, por onde cruza a estrada que liga Leningrado
a Helsinki. A baía de Viborg é um mar
de gêlo. Os russos, aproveitando a grande espessura
da camada sólida que cobre as águas,
utilizam-na para deslocar unidadas pesadas. inclusive
tanques.
Ao longe, aparecem algumas ilhas. Sobre uma delas
apontando para a baía, poderosos canhões
costeiros dominam toda a zona gelada. Tais os elementos
que configuraram uma estranha guerra. Aos tiros da
artilharia finlandesa, que se repetirão muitas
vêzes, batalhões inteiros sovéticos
são sepultados nas águas.
A primeira ação se realiza quando um
batalhão soviético, apoiado por numerosos
tanques, cruza a superfície gelada. Os grandes
canhões. após a correção
de tiros, começam a acertar exatamente na periferia
da compacta unidade russa. Aquilo parece não
ter sentido. As possantes granadas, disparadas diretamente
sobre a formação, causariam baixas consideráveis.
Mas, os finlandeses não disparam sobre os homens
nem sobre os tanques. Disparam ao redor.
Poucos minutos bastam para os russos compreenderem
a extensão da tragédia. Mas já
é tarde, impossível salvar os seus homens.
O gêlo, quebrado em enormes extensões,
cede sob o pêso formidável dos tanques
e estala com estrondo ensurdecedor. Um alarido de
terror eleva-se das unidades russas e logo depois
se faz o silêncio. Sôbre a superficie
gelada da baía, agora quebrada em mil pedaços,
restam homens dispersos, aqui e ali, aferrando-se
penosamente ao que flutua ao seu alcance. Tudo o mais,
tanques, canhões, artilharia, cavalos e homens,
jaz no fundo das águas geladas.
A BRAVURA FRENTE
AO AÇO
12 de dezembro de 1939 8:30h. Uma
pequena colina coberta de neve encontra-se em poder
da infantaria russa. O ponto, vital para a defesa
da zona, deve ser tomado pelos finlandeses. Ainda
está escuro. As primeras explosões mostram
que começou o fogo de morteiros.
As tropas finlandesas iniciam o ataque. O bombardeio
das posições inimigas prolonga-se por
alguns minutos. Nada mais que minutos. Os poucos projéteis
são preciosos. E também o tempo. Os
finlandeses devem tomar a colina antes da chegada
de reforços do inimigo. Também os homens
escasseiam.
Dois batalhões finlandeses batem-se energicamente.
Os russos, sitiados no cume da colina, defendem-se
desesperadamente. Por fim, premido pelo tempo e a
necessidade de economizar munições,
os finlandeses lançam-se ao assalto direto.
Na luta que se segue, corpo a corpo, as baionetas
e as armas curtas cumprem a sua missão. Homem
por homem, os soviéticos, apesar da sua encarniçada
defesa, são aniquilados. Restam apenas alguns,
feitos prisioneiros, na maioria feridos. Grande número
de metralhadoras e fuzis automáticos caem nas
mãos dos finlandeses. Substituirão os
seus fuzis, modelo 1871, veneráveis armas com
quase 70 anos de uso.
A conquista da colina, porém, não significa
o fim da ação. Inesperadamente, dois
tanques soviéticos aparecem a toda velocidade,
levantando verdadeiras ondas de neve. Os finlandeses,
sem armas antitanques, buscam desesperadamente um
refúgio. Tudo inútil. Troncos de árvores,
montículos de neve, fossos, trincheiras, tudo
é procurado pelos soldados que não têm,
para se defender mais do que as suas pequenas armas
portáteis. Os projéteis das metralhadoras
dos tanques varrem o terreno. Os fuzís respondem
ao fogo, a mira em direção das vigias
dos veículos. Afinal, num gesto de bravura
extrema, o subtenente da reserva Huevinen, ajudante
da capital Shvonen, chefe de um dos dois batalhões
finlandeses retira do seu cinturão cinco grandas
de mão, amarra-as formando um feixe e começa
a arrastar-se penosamente entre a neve na direção
dos tanques. Mas, não vai só. Alguém
o segue. É o subtenente da reserva Virkki,
que leva por única arma uma pistola Mauser.
Instantes depois, já se encontra a 30 metros
do monstro de aço. Levantando-se de um salto,
Virkki aponta e descarrega a sua pistola contra a
vigia de observação do primeiro tanque.
O seu objetivo é eliminar o tanquista e deixar
o veículo sem controle. Virkki aperta o gatilho
da arma durante dois segundos e se joga sobre a neve.
Sobre a sua cabeça, instantaneamente, silvam
as balas da metralhadora do tanque. A resposta foi
imediata. De repente, a rajada disparada do tanque
cessa. É apenas um segundo de trégua.
Mas Virkki não o desperdiça. Salta novamente
e, de pé frente ao blindado, esvazia novo pente.
Rápida, a metralhadora do tanque gira para
ele e responde ao fogo. Mas já Virkki está
afundado na neve, apertando o seu rosto contra o solo,
e mudando o pente da arma. Três vezes consecutivas
repete-se o episódio. É um homem contra
um tanque. Uma pistola contra uma metralhadora pesada
calibre 50. Um uniforme branco, de pano, contra uma
chapa blindada. Há algo mais: é a bravura
do homem que defende a sua terra, os seus filhos o
seu direito à liberdade. E isso é o
mais importante.
Os tanques, entretanto, giram sôbre as esteiras
e começan a se afastar. O subtenente Houvinen
levanta-se e corre atrás do segundo, esgrimindo
o seu feixe de granadas. É um espetáculo
estranho. Dois gigantes de aço aumentando paulatinamente
a velocidade e um homem, um só, correndo penosamente
sobre a neve, atrás deles, com cinco granadas
na mão direita. Finalmente os tanques se perdem
na brancura das planícies, deixando para trás
a bravura de um punhado de homens.
BATALHA SEM TIRO
Tolvajardi. Dois batalhões
finlandeses cobrem a fronteira , defendedo-se desesperadamente
do ataque da Divisão de Infantaria Russa 139.
A noite, amparado pela escuridão, os grupos
de vangurada russo caem sobre os finlandeses pela
retaguarda. Os defensores, surpreendidos pelo inesperado
ataque sofrem uma momentânea desorganização,
mas refazem as suas fileiras. Enquanto os combates
mantem-se firmes na frente, os cozinheiros, motoristas,
assistentes radiotelegrafistas, armeiros e etc. sem
disparar um só tiro, utilizando baionetas e
facas, atacam os russos em sangrento corpo a corpo.
Os atacantes são obrigados a renunciar as armas
de fogo porque a escuridão é impenetravél
e o terreno lhes é desconhecido. O combate
é travado com armas brancas. Silenciosamente,
várias centenas de homens lutam durante uma
hora. Só gemidos isolados assinalam as baixas
de um ou outro lado. Por fim, caçadores de
nascença, os finlandeses impõem sua
habilidade no manejo da faca e no aproveitamento do
terreno.
O batalhão soviético, na singular batalha
em que não foi disparado um único tiro,
é aniquilado.
FINLÂNDIA
E RÚSSIA FRENTE A FRENTE
o combate armado entre o pequeno país do Báltico
e seu poderoso vizinho materializou um episódio
épico. Com efeito, a falta total de recursos
da Finlândia opôs-se à reserva
inesgotável da Rússia. Aos milhões
de combatentes que em potência tinha a União
Soviética, a Finlândia opôs um
reduzido exército e um armamento mais reduzido
ainda. Centenas de tanques russos não encontraram
oposição similar. Centenas de aviões
soviéticos cruzaram os céus da Finlândia
sem encontrar caças que os enfrentassem. Foi
a luta de um gigante e um pigmeu.
RECURSOS MILITARES
UTILIZADOS NA LUTA FINLANDIA
| Exército
FINLANDES |
Exército
SOVIÉTICO |
|
12
- 13 divisões
10 batalhões guarda-fronteira
- soldados com idades variando de 15 a 65 anos.
Marinha
2 guarda-costas de 3.900 toneladas
5 submarinos
25 navios varredores
7 lanchas torpedeiras
10 quebra-gelos
Aviação
170 aviões
- 40 de exploração.
- 60 de caças
- 70 bombardeios leves
Obs:
A terça parte dos aviões eram
modelos muito antigo.
|
28
- 30 divisões
6 brigadas de tanques
2 a 3 divisões mecanizadas
- idade dos soldados: 20 a 23 anos
Marinha (no mar Báltico)
2 encouraçados de 23.000 tonels.
1 cruzador de 5.600 tonels.
35 destróieres
70 submarinos
Aviação
600 - 800 aviões
|
| Até
o final da contenda, as forças finlandesas
totalizavam cêrca de 16 a 17 divisões,
contra 50 divisões russas. |

mapa da invasão russa