Dimitri
Fiedorovitch, em quais tanques americanos você
lutou?
-
Em Shermans. Nós os chamávamos de "Emtchas",
que vem de M4 [em russo "em tchietirie"].
Inicialmente eles tinham o canhão principal
curto, mais tarde começaram a vir com a versão
mais longa e com freio de boca. Na inclinação
da blindagem frontal havia uma trava de transporte
usada para prender o tubo durante marchas em estrada.
O canhão principal era bem comprido. No todo,
era um bom veículo, mas como todo tanque, tinha
seus altos e baixos. Quando alguém me diz que
esse foi um tanque ruim eu respondo "Me desculpe,
mas não se pode dizer isso. Ruim comparado
a que?".
Vocês
só possuíam tanques americanos em sua
unidade?
-
Nosso 6º Exército de Tanques da Guarda Blindado
- sim, nós tínhamos seis deles - lutou
na Ucrânia, Romênia, Hungria, Tchecoslováquia
e Áustria. A guerra terminou para nós
na Tchecoslováquia. Então eles nos enviaram
para o extremo leste e nós lutamos contra os
japoneses. Lembrando-lhe que o 6º Exército
era composto por dois corpos: o 5º Corpo de Tanques
da Guarda Blindado "Stalingrado" com nossos
T-34s e o 5º Corpo Mecanizado, no qual eu lutei.
No início nosso corpo tinha Matildas, Valentines
e Churchills.
Sim,
um pouco tarde. Depois de 1943 nós recusamos
vários tanques ingleses porque eles apresentavam
deficiências significantes. Eles tinham 12-14
cavalos por tonelada quando bons tanques deveriam ter
18-20 cavalos por tonelada. Desses três tanques
britânicos o melhor era o Valentine produzido
no Canadá. Sua blindagem era bem inclinada e
o mais importante, ele tinha um canhão principal
de 57mm. Minha unidade os substituiu pelos Shermans
americanos no final de 1943. Depois da Operação
Kishinev nosso Corpo se tornou o 9º Corpo Mecanizado.
Esqueci de mencionar que todo corpo era composto por
quatro brigadas. Nosso corpo tinha três brigadas
mecanizadas e uma brigada de tanques, na qual lutei.
Um Corpo de Tanques tinha três brigadas de tanques
e uma brigada mecanizada. Nós tínhamos
Shermans em nossa brigada ao fim de 1943.
Mas
os tanques britânicos não foram retirados
de serviço, de modo que eles continuaram lutando
até serem destruídos. Houve algum período
em que seu Corpo apresentava uma mistura de tanques
britânicos e americanos? Havia algum problema
ligado à presença de tanques de diferentes
tipos e nacionalidades? Por exemplo, problemas com manutenção
e suprimentos?
Bom,
problemas sempre estiveram presentes. De maneira geral,
o Matilda era imprestável! Eu vou te falar de
uma deficiência do Matilda que nos causou vários
problemas. Algum tolo no Comando Geral planejou uma
operação e nos enviaram para a área
de Yelnia, Smolensk e Roslavl. O terreno de lá
era pantanoso. O Matilda tinha saias laterais. O tanque
foi originalmente criado para operar no deserto. Essas
bordas funcionavam bem no deserto, pois a areia passava
por seus escoadouros retangulares. Mas nos pântanos
da Rússia a lama se amontoava no espaço
entre as esteiras e essas bordas laterais. A transmissão
do Matilda tinha um mecanismo auxiliar para facilitar
a troca de marcha. Esse mecanismo não suportava
as condições impostas pelo terreno russo,
superaquecendo e então falhando. Isso não
era problema para os ingleses. Em 1943 eles desenvolveram
uma peça de reposição que era instalada
facilmente, bastando-se desparafusar quatro parafusos,
tirar a peça velha e inserir a nova.
Conosco, nem sempre funcionava assim. No meu batalhão
havia um Primeiro Sargento (Starshina) chamado Nesterov,
ex-motorista de trator em uma "kolkhoz" [uma
espécie de comunidade agrícola soviética]
que era o mecânico do batalhão. Em geral
cada uma de nossas companhias de tanques tinha um mecânico,
Nesterov era o mecânico do batalhão inteiro.
No nosso Corpo nós tínhamos um representante
(cujo nome me foge à memória) da firma
inglesa que fabricava esses tanques. Eu tinha o seu
nome escrito, mas quando meu tanque foi atingido tudo
que havia dentro foi queimado - fotografias, documentos
e um caderninho. Éramos proibidos de fazer anotações
no front, mas mesmo assim eu o fiz às escondidas.
De qualquer forma, esse representante britânico
constantemente interferia em nossas tentativas de reparar
componentes individuais do tanque. Ele dizia "Isso
vem com um selo de fabricação. Não
mecha", de modo que tínhamos que retirar
toda a peça a fim de instalar uma nova. Nesterov
fez um simples reparo para todas essas transmissões.
Certa vez o representante veio até ele e perguntou
"Em que universidade você estudou?"
ao que Nesterov respondeu "Na kolkhoz!".
Os
Shermans eram muito superiores nesse quesito. Você
sabia que um dos designers do Sherman foi um engenheiro
russo chamado Timoshenko? Ele era parente do Marechal
S.K. Timoshenko.
-
O Sherman tinha suas franquezas, sendo a maior delas
o seu alto centro de gravidade. O tanque freqüentemente
tombava para os lados, como uma boneca Matrioshka (uma
boneca de madeira). Mas eu estou vivo hoje graças
a essa deficiência. Estávamos lutando na
Hungria em Dezembro de 1944. Eu comandava o batalhão
e numa curva meu motorista-mecânico freou. Meu
tanque tombou para o lado. Nós todos tombamos
lá dentro, é claro, mas nós sobrevivemos.
Enquanto isso os outros quatro tanques prosseguiram
e foram pegos em uma emboscada. Foram todos destruídos.
O
Sherman tinha uma esteira de metal coberta por borracha.
Alguns autores contemporâneos apontam essa característica
como uma deficiência, uma vez que em combate a
borracha poderia pegar fogo. Com as esteiras descobertas
de sua proteção, o tanque era inutilizado.
O que você tem a dizer a esse respeito?
-
Por um lado essa esteira coberta de borracha era uma
grande vantagem. Primeiro porque fazia a esteira ter
uma vida útil aproximadamente duas vezes maior
que a de uma esteira de aço. Eu posso estar enganado,
mas eu acredito que a vida útil da esteira de
um T-34 é de 2500 quilômetros. A vida útil
das esteiras do Sherman era de 5000 quilômetros.
Em segundo lugar, o Sherman deslizavam suaves como um
carro em superfícies difíceis ao passo
que os nossos T-34 faziam tanto barulho que só
o diabo sabe há quantos quilômetros podiam
ser ouvidos. Qual era o lado ruim das esteiras do Sherman?
Em meu livro, "Commanding the Red Army's Sherman
Tanks", há um capítulo intitulado
"Descalço" no qual eu escrevi a respeito
de um incidente que ocorreu em agosto de 1944, na Romênia,
durante a Operação Jassy-Kishinev. O calor
era terrível, algo em torno de 30° C. Nós
havíamos andado aproximadamente 100 km pela rodovia
em um único dia. As coberturas de borracha que
cobria nossas rodas auxiliares ficaram tão quentes
que a borracha derreteu e se soltou em longos pedaços.
Nosso corpo parou não muito longe de Bucareste.
A borracha estava se soltando, os cilindros começaram
a derreter, o barulho era terrível, e no final
tivemos que parar. Isso foi imediatamente reportado
a Moscou. Seria isso uma piada? Um Corpo parado? Para
nossa surpresa eles nos trouxeram novos cilindros de
suporte rapidamente e nós passamos três
dias instalando-os. Eu ainda não sei onde é
que eles conseguiram tantos cilindros em tão
pouco tempo.
Havia
ainda um outro contra da esteira emborrachada. Mesmo
em uma superfície ligeiramente congelada o tanque
escorregava como uma vaca gorda. Quando isso acontecia,
nós tínhamos que amarrar arame farpado
em torno das esteiras, ou qualquer coisa que nos desse
um pouco de tração. Mas isso era com os
primeiros tanques que nos foram enviados. Tendo notado
isso, os representantes americanos informaram sua companhia
e as próximas levas de tanques vieram acompanhadas
de esteiras adicionais com pontas de tração.
Se eu me lembro bem havia sete blocos para cada esteira,
num total de quatorze para cada tanque. No geral os
representantes americanos trabalhavam de maneira eficiente.
Qualquer deficiência por ele observada e reportada
era rapidamente corrigida.
Um
outro defeito do Sherman era a escotilha do motorista.
A escotilha nas primeiras leva de Shermans era localizada
no teto da torre e simplesmente abria-se para fora.
Freqüentemente o motorista-mecânico a abria
e espiava para ter um melhor campo de visão.
Não raro durante a rotação da torre
o canhão principal batia na tampa da escotilha
que por sua vez atingia a cabeça do piloto. Eu
vi isso acontecer uma ou duas vezes na minha própria
unidade. Posteriormente os americanos corrigiram esse
defeito de modo que a escotilha se levantasse e depois
deslizasse para o lado, como nos tanques modernos.
Outra
grande vantagem do Sherman era seu sistema de recarga
da bateria. Em nossos T-34 era necessário ligar
o motor, no seu máximo de 500 cavalos, a fim
de recarregar as baterias. No compartimento da tripulação
do Sherman havia um motor auxiliar a gasolina, pequeno
como o de uma motocicleta. Era só liga-lo e recarregar
as baterias. Essa era uma grande vantagem para nós.
Por
muito tempo depois da guerra uma pergunta me perseguiu.
Se um T-34 começasse a pegar fogo, nós
tentávamos correr para o mais longe dele possível,
mesmo que isso fosse proibido, porque a munição
interna explodia. Por um breve período eu combati
em um T-34 nas proximidades de Smolenks. O comandante
de uma de nossas companhias teve seu tanque atingido.
A tripulação conseguiu escapar do tanque,
mas não pode fugir porque os alemães estavam
varrendo o campo com metralhadoras. Então eles
se jogaram sob o campo de trigo e o tanque explodiu.
Ao anoitecer quando a batalha havia se acalmado, nós
fomos até lá. Eu encontrei o comandante
deitado no chão com um enorme pedaço da
blindagem do tanque saindo de sua cabeça. Quando
um Sherman pegava fogo a munição interna
não explodia. Por quê?
Isso
ocorreu uma vez na Ucrânia. Nosso tanque foi atingido.
Nós saímos dele, mas os alemães
estavam atirando morteiros em volta de nós. Nós
nos deitamos debaixo do tanque enquanto ele queimava.
Nós ficamos lá por um longo tempo, sem
lugar pra ir. Os alemães estavam varrendo em
volta do tanque com tiros de metralhadora e morteiros.
Nós ficamos lá. A parte de trás
do meu uniforme começou a esquentar. Nós
pensamos que estávamos acabados. Ouviríamos
um grande estrondo e tudo estaria acabado. Um túmulo
de irmãos. Ouvimos vários barulhos vindos
da torre. Era a munição perfuradora de
blindagem explodindo. Logo o fogo atingiria as cargas
de alto explosivo e tudo viraria um inferno. Mas nada
aconteceu. Por quê? Porque nossas cargas de alta
explosão explodiam e as americanas não?
Depois descobri que era porque a munição
americana tinha explosivos mais refinados. Nossa munição
tinha algum tipo de componente que aumentava o poder
da explosão conseqüentemente aumentando
o risco de detonação da munição.
É
considerado notável o fato de que o Sherman era
muito bem equipado do lado de dentro. Isso é
verdade?
-
É verdade. Não são boatos! Eles
eram lindos! Como eles dizem hoje "Euro-repair"!
Era um tipo de retrato europeu. Em primeiro lugar: ele
era pintado lindamente. Segundo: os assentos eram confortáveis,
cobertos por um tipo de couro artificial. Se o tanque
fosse abatido ou danificado e abandonado literalmente
por apenas alguns minutos, a infantaria iria roubar
todo o seu estofamento. Com ele se fazia excelentes
botas. Simplesmente lindas!
Como
você vê os alemães? Como fascistas
e invasores ou não?
-
Quando alguém está na sua frente com uma
arma nas mãos e é uma questão de
quem vai matar quem, há apenas uma resposta.
Ele era o inimigo. Assim que um alemão jogava
fora sua arma e nós os capturávamos, então
a coisa era outra. Eu não estive na Alemanha.
Eu já te disse onde eu combati. Ai vai um incidente
que ocorreu na Hungria. Nós tínhamos um
"letuchka" (uma espécie de caminhão)
alemão. Nós penetramos na retaguarda alemã
em formação de coluna. Então um
outro caminhão alemão, como o nosso, uniu-se
a nossa coluna. Pouco depois nossa coluna parou. Eu
estava andando pela coluna, checando os veículos.
Tudo estava em ordem. Eu me aproximei do ultimo veículo
e perguntei "Sasha, está tudo ok?".
Em resposta eu recebi um "WAS?". Que diabos?
Eram alemães. Eu imediatamente pulei pro lado
e gritei "Alemães!". Nós os
cercamos, um motorista e dois outros. Nós os
desarmarmos e só então nosso caminhão
que deveria estar por ultimo apareceu na estrada. Eu
disse "Sasha, onde vocês se meteram?".
Ele respondeu "Nós nos perdemos". "Bom"
eu disse "aqui está outro caminhão
para você".
Então
você não os odiava?
-
Não, claro que não. Nós entendíamos
que eles eram seres humanos.
E
como era sua relação com os civis?
-
Quando o 2º Front Ucraniano alcançou a fronteira
romena em Março de 1944 nós paramos, e
ficamos no mesmo local em agosto. De acordo com as leis
de guerra, toda a população civil tinha
que ser removida para no mínimo 100 quilômetros
da linha de frente. Esse povo já havia feito
suas plantações. As autoridades anunciaram
a evacuação da população
e enviou caminhões para pegá-los na manhã
seguinte. Com lágrimas nos olhos os moldávios
se sentiam impotentes. Como poderia? Eles tinham que
abandonar suas plantações! O que restaria
quando retornassem? A evacuação foi feita
como exigido, e não tivemos praticamente nenhum
contato com a população civil. Naquela
época eu era Chefe de Estado-Maior do batalhão,
encarregado do suprimento de munição.
O comandante da brigada me convocou e disse "Loza,
você é descendente de camponeses?",
ao que eu respondi afirmativamente, e ele disse "Foi
o que pensei. Estou nomeando-o chefe de grupo! Você
será responsável por cultivar essas plantações
e se assegurar de que tudo cresça. E Deus impeça
que até mesmo um pepino se perda. Não
toque em nada! Se necessário, plante sua própria
colheita".
Grupos
foram organizados; em minha brigada havia 25 homens.
Por toda a primavera e verão nós trabalhamos
nessas plantações. No outono, quando as
tropas partiram, nos foi ordenado que convidássemos
o presidente de uma kolkhoz ao qual foram designadas
todas as plantações. Quando a dona da
casa onde eu fiquei voltou, ela imediatamente correu
para fora checar seu jardim e o que ela viu a deixou
estupefata. Havia enormes abóboras, tomate e
melões. Ele retornou para dentro da casa, caiu
aos meus pés, e começou a beijar minhas
botas. "Meu filho! Nós pensamos que tudo
teria secado e sido destruído, mas tudo está
em ordem. Tudo que temos que fazer agora é cuidar
das plantações." Este é um
exemplo de como lidávamos com a população.
Na
Guerra a medicina funcionou bem, mas havia certos casos
que tudo que os médicos podiam fazer era sacudir
suas cabeças. Companheiro, naquela época
a Romênia era o poço venéreo de
toda a Europa! Nós tínhamos um ditado
"Se você tem 100 Lei (moeda romena) você
pode dormir com uma rainha". Certa vez um grupo
de prisioneiros de guerra alemão caiu em nossas
mãos. Seus bolsos estavam cheios de preservativos.
Uns cinco ou 10. Nosso oficial político criou
um grande caso "Vejam! Eles têm isso para
poder estuprar nossas mulheres!". Mas na verdade
esses alemães eram mais espertos que nós,
pois compreendiam o que doenças venéreas
podiam fazer com um exército. Eu queria que nossos
médicos tivessem nos avisado dessas doenças.
Mesmo tendo ficado pouco tempo na Romênia, nós
tivemos um terrível surto de doenças venéreas
em nossa unidade. Nosso Exército tinha dois hospitais:
um para casos cirúrgicos e o outro para ferimentos
leves. Eles foram obrigados a abrir uma seção
para cuidar de doenças sexualmente transmissíveis
mesmo estando sem equipamentos necessários.
Nós
interagíamos com a população húngara
da seguinte maneira. Quando entramos na Hungria em outubro
de 44, vimos praticamente apenas vilarejos desertos.
Quando entravamos nas casas encontrávamos fogões,
com comida quente dentro, mas nenhuma pessoa na casa.
Lembro-me que em uma cidade havia uma faixa enorme pendurada
na parede de uma casa. Ela retratava um soldado soviético
comendo um bebê. Esse povo estava tão aterrorizado
que quando podiam, fugiam. Abandonaram todas as suas
posses. Depois, com o passar do tempo, quando começaram
a entender que tudo isso era propaganda sem sentido,
começaram a voltar.
Lembro-me
de uma ocasião em que paramos no norte da Hungria,
na fronteira com a Tchecoslováquia. Àquela
altura eu já era Chefe do Estado-Maior do batalhão.
Um dia fui informado que uma velha senhora húngara
havia entrando em um celeiro na noite passada. Nós
tínhamos pessoal da contra-inteligência
em nosso Exército que trabalhava para o SMERSH
(Smert Shpionam, ou "morte aos espiões").
Havia um oficial da SMERSH em cada batalhão,
e nas unidades de infantaria um para cada regimento
e acima. Eu disse ao meu oficial da SMERSH para ir checar.
Eles procuraram e encontraram uma garota de 18 ou 19
anos. Quando eles a trouxeram para fora ela estava toda
coberta de arranhões e tossia. A velha senhora
estava em lagrimas pensando que iríamos estuprar
sua filha. Besteira! Ninguém encostou um dedo
nela! Pelo contrário, nós a demos tratamento
médico. Ela passou a nos visitar muito, passando
mais tempo conosco do que em casa. Quando estive na
Hungria 20 anos depois, eu a encontrei. Que mulher bonita!
Ela havia se casado e tinha filhos.
Então
vocês não cometeram nenhum excesso com
a população civil?
-
Não. Uma vez eu tinha que ir a algum lugar na
Hungria. Tomamos um húngaro como guia para que
não nos perdêssemos, afinal era um país
estrangeiro. Ele fez seu trabalho pelo qual pagamos
com dinheiro e comida enlatada.
Em
seu livro "Commanding the Red Army's Sherman Tanks"
você escreveu que os tanques M4A2 Sherman da 233ª
Brigada eram armados não só com 75 mm
de cano curto, mas também com 76 mm de cano longo
em janeiro de 1944. Não era um pouco cedo? Esses
tanques não apareceram mais tarde? Explique mais
uma vez que canhões eram montados sobre os Shermans
da 233ª Brigada.
-
Hmm, eu não me lembro. Nós tínhamos
bem poucos Shermans com o canhão de cano curto.
No geral nossos canhões eram longos. Não
foi só a nossa brigada que lutou com Shermans.
Talvez estes de cano curto estivessem em outras. Em
algum lugar no nosso Corpo eu vi tais tanques, mas em
nossa Brigada a grande maioria era de cano longo.
Havia
submetralhadoras Thompson (Tommy gun) em cada Sherman
que chegava na URSS. Eu li que essas armas eram roubadas
e que poucos tanques chegavam a vocês com as armas.
Que tipo de armamento pessoal vocês tinha? Americano
ou soviético?
-
Cada Sherman vinha com duas submetralhadoras Thompson,
calibre 11.43mm (.45), uma munição boa.
Mas a submetralhadora era inútil. Nós
tivemos vários problemas com ela. Alguns de nossos
homens se envolveram em uma discussão. Eles acabaram
atirando uns nos outros. Como ambos estavam usando jaquetas
acolchoadas, a munição acabou ficando
alojada nas jaquetas. Uma metralhadora inútil.
Pegue uma submetralhadora alemã de coronha dobrável
[submetralhadora MP-40]. Nós a amávamos,
uma arma compacta. A Thompson era grande. Não
podia se mover dentro de um tanque com ela.
O
Sherman tinha uma metralhadora antiaérea Browning
M2 calibre.50 . Vocês a usavam com freqüência?
-
Eu não sei o porquê, mas alguns tanques
chegaram até nós com essas metralhadoras,
outros não. Nós as usamos contra alvos
terrestres e aéreos. Nós a usávamos
menos contra alvos aéreos porque os alemães
não eram tolos. Eles nos bombardeavam ou de grande
atitude ou executando mergulhos. A metralhadora era
boa até uns 400 ou 600 metros na vertical. Os
alemães lançavam suas bombas de uns 800
metros ou mais alto. Tente abater o safado! Sim, nós
a usávamos, mas não era muito efetiva.
Nós usávamos até nosso canhão
contra aviões. Colocávamos o tanque na
elevação de uma colina e atirávamos.
Mas nossa impressão geral da metralhadora era
boa. Elas foram de grande utilidade na guerra contra
o Japão, contra os kamikazes. Nós atirávamos
tanto neles que eles pegavam fogo e cozinhavam. Até
hoje eu tenho um fragmento de um projétil de
uma metralhadora antiaérea na minha cabeça.
Em
seu livro você fala de uma batalha em Tinovka
que envolveu unidades do 5º Corpo Mecanizado. Você
escreveu que a batalha foi em 26 de janeiro de 1944.
Alguém foi até lá e escavou alguns
mapas alemães, que indicavam que em 26 de janeiro
de 1944 Tinovka já estava em mãos soviéticas.
Além disso, esse homem também encontrou
um relatório da inteligência alemã,
baseado no interrogatório de um tenente soviético
de um batalhão antitanque da 359ª Divisão
de Infantaria. Esse relatório indicava que havia
T-34s e tanques médios americanos, assim como
alguns KVs camuflados com palha em Tinovka. Esse homem
gostaria de saber se você poderia estar enganado
a respeito da data. Ele indica que uma semana mais cedo
Tinovka estava, de fato, sob domínio alemão.
-
É bem possível. Pense na quão confusa
era a situação por lá! Rapaz, foi
uma bagunça e tanto! A situação
não mudava diariamente, mas de hora em hora.
Nós cercamos o grupamento alemão Korsun-Shevchenkovskiy.
Eles começaram a nos atacar para escapar do cerco
ao mesmo tempo em que alemães fora do cerco nos
atacavam para ajudar os camaradas. Essas batalhas foram
tão pesadas que Tinovka mudou de mãos
várias vezes por dia.
Você
escreveu que em 29 de janeiro o 5º Corpo Mecanizado
avançou para o oeste para apoiar unidades do
1º Front Ucraniano, que estavam segurando o contra
ataque alemão. Alguns dias depois, o Corpo Mecanizado
estava na área de Vinograd. Logo em seguida,
em 1 de fevereiro, estava no caminho do principal ataque
das 16ª e 17ª Divisões Panzer, 3º
Corpo Blindado. Esse ataque foi lançado da área
de Rusakoika e Noiai Greblia ao norte e nordeste. Após
alguns dias, os alemães capturaram Vinograd e
Tinovka, forçaram passagem sobre o rio Gniloi
Tikich e alcançaram Antonoika. Você poderia
descrever o papel do seu Corpo na batalha?
-
Nós cercamos os alemães e fechamos o bolsão.
Eles imediatamente nos empurraram para a borda exterior
do círculo. O clima era terrível; a lama
degelava durante o dia. Eu pulei fora do meu tanque
e caí direto na lama. Era mais fácil tirar
meus pés das minhas botas que minhas botas da
lama. À noite, a temperatura caiu e o barro congelou.
Nós lutamos contra esse barro no anel exterior.
Tínhamos poucos tanques restantes. A fim de criar
a impressão de que ainda estávamos fortes,
à noite ligamos os faróis de todos os
caminhões e tanques e seguimos em frente. Todo
o nosso Corpo estava na defesa. Os alemães achavam
que nossas defesas estavam entrincheiradas. Na verdade,
quase 30% do nosso Corpo éramos formados por
tanques. Os combates haviam sido tão intensos
que nossas armas ferviam. Algumas vezes a munição
fundia. Você disparava e ela simplesmente caía
no meio do barro a alguns metros do tanque. Os alemães
lutavam por suas vidas e não tinham nada a perder.
Alguns pequenos grupos conseguiram romper nossas linhas.
Aviões
alemães chegaram a infligir danos significativos
ao seu equipamento? Em particular, o que você
poderia me dizer do Henschel Hs-129?
-
Nem sempre, mas acontecia. Eu não me lembro do
Henschel; talvez houvesse esse avião. Algumas
vezes nós conseguíamos desviar das bombas.
Você podia vê-las caindo em sua direção,
sabe? Nós abríamos as escotilhas, espiávamos
e instruíamos o motorista pelo interfone: "A
bomba vai cair na nossa frente". Mas, em geral,
havia casos de tanques sendo atingidos e explodindo.
Perdas dessa natureza não ultrapassaram 3 ou
5 tanques no batalhão. Era mais fácil
um único tanque ser destruído. O maior
perigo eram os atiradores armados com panzerfausts escondidos
em construções. Na Hungria eu me lembro
de estar tão cansado que pedi ao meu subordinado
que comandasse o batalhão enquanto eu dormia.
Eu dormi bem lá no compartimento de combate do
meu Sherman. Nas proximidades de Beltsy eles lançaram
munição para de pára-quedas. Pegamos
um pára-quedas para nós e eu o usava como
travesseiro. O pára-quedas era de seda de modo
que piolhos não conseguiam entrar no tecido.
Eu estava dormindo profundamente! De repente, eu acordei.
Por quê? Por causa do silêncio. Acontece
que aviões haviam destruído dois tanques.
O batalhão havia parado, desligado os motores
e tudo ficou silencioso. Então eu acordei.
Vocês
trancavam suas escotilhas durante combates em cidades
e áreas construídas?
-
Definitivamente. Quando invadimos Viena, eles estavam
arremessando granadas contra nós do andar superior
dos edifícios. Eu ordenei que todos os tanques
parassem sob passagens de edifícios e pontes.
Vez ou outra, eu tinha que ir com meu tanque até
terreno aberto, a fim de estender a antena de comunicação
para enviar e receber comunicados do alto comando. Em
certa ocasião, um operador de rádio e
um motorista-mecânico estavam fazendo algo dentro
do tanque e esqueceram a escotilha aberta. Alguém
abriu e jogou uma granada lá dentro. Ela bateu
nas costas do operador de rádio e explodiu. Ambos
morreram. De modo que nós sempre trancávamos
as escotilhas quando estávamos em cidades ou
áreas construídas.
O
principal efeito destrutivo da munição
HEAT (carga oca), categoria à qual o panzerfaust
pertencia, é a alta pressão no tanque,
que incapacita a tripulação. Se as escotilhas
fossem mantidas semi-abertas, isso não daria
um certo grau de proteção?
-
Sim, mas, mesmo assim, nós as mantínhamos
trancadas. Talvez tenha sido diferente em outras unidades.
Os atiradores de panzerfaust geralmente atiravam contra
o compartimento do motor, de forma a incendiar o tanque,
forçando a tripulação a sair e
ficando exposta ao tiro das metralhadoras alemãs.
Qual
era a chance de sobreviver se o seu tanque fosse atingido?
-
Meu tanque foi atingido no dia 19 de abril de 1945.
Um Tiger meteu um buraco em nós. O projétil
passou pelo compartimento de combate e então
atingiu o compartimento do motor. Havia três oficiais
no tanque: eu como comandante do batalhão, o
comandante da companhia Sasha Ionov (cujo tanque havia
sido atingido) e o comandante do tanque. Três
oficiais, um motorista-mecânico e um operador
de rádio. Quando fomos atingidos o piloto morreu
na hora. Minha perna direita foi ferida, à minha
direita Sasha Ionov teve sua perna amputada. O comandante
do tanque se feriu e, abaixo de mim, estava o canhoneiro,
Lesha Romanshkin. Suas duas pernas foram destruídas.
Pouco tempo antes desse ataque nós estávamos
sentados e Lesha me dise "Se eu perder minhas pernas
eu vou me matar. Quem precisaria de mim?". Ele
era órfão e não tinha parente.
Numa ironia do destino foi exatamente o que acabou acontecendo
a ele. Nós tiramos Sasha do tanque e, em seguida,
Lesha e começamos a ajudar na evacuação
dos outros feridos quando Lesha se matou. Em geral um
ou dois homens eram sempre feridos ou mortos. Dependia
do local onde o tiro o atingia.
Os
soldados ou suboficiais recebiam algum dinheiro para
gastos na frente?
-
Em comparação com as unidades regulares
não de Guardas, os soldados e sargentos, até
sargento sênior, recebiam pagamento dobrado, e
os oficiais recebiam 1,5 vezes a mais em unidades da
guarda. Por exemplo, meu comandante de companhia recebia
800 rublos. Quando me tornei comandante do batalhão
passei a receber 1200 ou 1500 rublos, não me
lembro da quantia exata. Em todo caso nós não
recebíamos todo o pagamento. A maior parte era
mantida em poupanças em uma conta pessoal. Nós
podíamos guardar o dinheiro ou enviar para nossa
família. Não carregávamos dinheiro
no bolso. Nisso o governo era esperto. O que faríamos
com dinheiro no meio de uma batalha, afinal?
O
que vocês podiam comprar com o dinheiro que tinham?
-
Certa vez, estávamos nos reunindo em Gorkiy.
Eu fui a um mercado com o meu amigo Kolya Averkiev.
Ele era um bom sujeito, mas morreu em seus primeiros
combates! Nós estávamos dando algumas
voltas por lá e encontramos um sujeito vendendo
pão de centeio. Ele segurava um em uma mão
e os outros dois em outra. Kolya perguntou "Quanto
você quer pelo pão?" ao que o sujeito
respondeu: "Três kosykh" (Kosaya é
uma gíria russa, que significa 100 rublos, de
forma que o sujeito estava pedindo 300 rublos por um
pão). Kolya não sabia o que era "kosaya",
então, tirou três rublos e entregou ao
homem. Ele disse "Você está louco?",
Kolya respondeu "Qual o problema? Você pediu
três kosykh e eu te dei três rublos!",
o homem disse "Três kosykh são trezentos
rublos!" e Kolya respondeu "Você é
uma pestilência! Você está aqui explorando
as pessoas enquanto nós estamos derramando sangue
por você!". Como oficiais, nós sempre
portávamos nossas armas pessoais. Kolya puxou
sua pistola. O homem agarrou os três rublos e
bateu em retirada.
Além
do dinheiro, uma vez ao mês os oficiais recebiam
um pacote suplementar. Ele continha 200 gramas de manteiga,
uma caixa de bolachas, um pacote de biscoitos e, creio
eu, um pouco de queijo. Alguns dias depois do incidente
no mercado nós recebemos nosso pacote. Nós
cortamos o pão, passamos manteiga e cobrimos
com queijo. Foi uma festa!
Que
tipo de comida vocês recebiam em seus pacotes
suplementares? Soviética ou americana?
-
Ambas. Uma vez uma, outra vez a outra.
Soldados
ou suboficiais recebiam alguma coisa por serem feridos?
Dinheiro, comida, dispensa ou qualquer outra forma de
compensação?
-
Não.
Que
tipo de recompensa era dada pela destruição
de tanques, canhões, etc.? Alguém determinava
essa recompensa ou haviam regras específicas?
Toda a tripulação era premiada ou somente
um indivíduo em especial?
-
O dinheiro era dado à tripulação
e dividido igualmente entre os membros.
Na
Hungria, em 1944, em um de nossos encontros, nós
decidimos que pegaríamos todo o dinheiro que
recebêssemos como recompensa por abate de equipamento
inimigo e faríamos uma "vaquinha" para,
mais tarde, enviar às famílias dos nossos
camaradas mortos. Depois da guerra, quando eu trabalhava
nos arquivos, eu encontrei listas endossadas por mim
com os dados da transferência do dinheiro para
as famílias: três mil rublos, cinco mil
rublos e assim por diante.
Na
região do lago Balaton nós rompemos a
retaguarda alemã e atacamos uma coluna de tanques,
destruindo 19 deles, 11 dos quais eram tanques pesados.
Muitos outros veículos também foram destruídos.
Ao todo nós contamos 29 veículos de combate
destruídos. Nós recebemos 1000 rublos
por cada veículo.
Nossa
brigada foi formada em Naro-Fominks [uma pequena cidade
nas proximidades de Moscou, Valera], de modo que nela
havia um grande número de homens de Moscou. Dessa
forma, quando, após a guerra, fui estudar na
Academia Militar Frunze, eu tentei encontrar as famílias
dos soldados mortos. A conversa era triste, claro, mas
era necessária, pois eu sabia como seu filho,
pai ou irmão havia morrido. Muitas vezes eu sabia
os detalhes, até a data. Eles se lembravam do
dia em que foram notificados e de como isso mudou suas
vidas. Lembrava-se de quando receberam o dinheiro. Algumas
vezes conseguíamos mandar além do dinheiro,
embrulhos contendo troféus (itens capturados).
Então
quando um tanque era destruído ele era creditado
individualmente para cada membro da tripulação?
-
Sim.
Quem
registrava as baixas inimigas?
-
O Estado Maior e os comandantes de batalhão e
companhia. O vice-comandante de manutenção
também fazia registros. Nós criamos um
grupo para fazer a evacuação dos tanques
destruídos. Não confundir com grupos de
retaguarda. Esse grupo normalmente consistia de 3 a
5 homens com um veículo de resgate [tanque sem
torre, Valera] comandado pelo vice-comandante de manutenção.
Eles se moviam por trás das formações
de combate, registrando e anotando nossas baixas e as
dos alemães.
Como
se determinava quem destruiu um tanque ou canhão?
O que acontecia se mais de uma tripulação
afirmava ter destruído o mesmo tanque?
-
Isso acontecia ocasionalmente, mas não com muita
freqüência. Normalmente o tanque era creditado
a ambas as tripulações e notificado como
"em conjunto" de forma que no relatório
contava como um só tanque abatido. O dinheiro
era dividido. 500 rublos para cada tripulação.
Como
a tripulação deveria agir se seu tanque
fosse danificado em combate?
-
Deveria tentar salvá-lo, tentar concertá-lo.
Se faltassem recursos para concertá-lo, deveria
ser armada uma defesa em torno dele. Era categoricamente
proibido abandonar o tanque. Eu já mencionei
que havia um oficial da SMERSH em cada batalhão.
Deus te proteja se você abandonar um tanque! Nós
tivemos um caso em que, antes de um ataque, um membro
da tripulação afrouxou a esteira do tanque.
Não foi difícil para o motorista-mecânico
tirá-la dos roletes. Mas nosso oficial da SMERSH
tomou nota do ocorrido e prendeu os culpados. Foi um
caso de covardia descarada!
Não
poderia acontecer que a tripulação deixasse
a esteira frouxa por descuido e ser acusada de covardia
mesmo assim?
-
Sim. A tripulação tinha que cuidar de
seu tanque ou eles poderiam simplesmente acordar em
um batalhão penal. Era obrigação
de cada comandante de tanque e do comandante da companhia
checar a tensão nas esteiras antes do combate.
Você
já disparou contra seus próprios soldados
ou tanques?
-
Companheiro, tudo pode acontecer na Guerra. Tal fato
ocorreu a oeste de Yuknov. Nossa brigada chegou ao local
e parou em uma floresta. Uma batalha estava sendo travada
três quilômetros à frente. Os alemães
haviam capturado uma cabeça de ponte em algum
rio e estavam começando a expandi-la. O comandante
do nosso Corpo enviou a companhia de Matildas da nossa
Brigada vizinha para contra atacar. Os alemães
não tinham tanques de forma que foi fácil
para os matildas eliminar a cabeça de ponte e
forçar os alemães através do rio.
Agora os nossos Matildas retornavam do combate. Um pouco
antes, temendo um avanço alemão, nosso
comandante destacou um batalhão de artilharia
antitanque. Eles foram colocados 300 metros a nossa
frente e estavam se entrincheirando. Os artilheiros
não sabiam que nós estávamos lá
e nem que estávamos usando veículos estrangeiros.
Quando viram os Matildas retornando, eles abriram fogo
destruindo três ou quatro deles. Os tanques restantes
recuaram rapidamente em busca de abrigo. O comandante
do batalhão, um artilheiro, correu até
os tanques destruídos, olhou lá dentro
e viu nossos homens. Um deles tinha o peito coberto
de medalhas.
Em
outra ocasião, quando o 1º e o 2º Fronts
Ucranianos se uniram em Zvenigorodka e fecharam o cerco
em torno do bolsão de Korsun-Shevchenkovskiy,
o 5º Exército equipado com T-34s aproximou-se
pelo sul enquanto nossos Shermans vinham do norte. Nossas
tropas nos T-34s não haviam sido avisadas que
haviam Shermans na área e atiraram no tanque
do comandante do meu batalhão, Nikolay Nikolaevich
Malyukov. Ele morreu dentro do tanque.
Alguém
era punido por isso?
-
Eu não sei, talvez eles punissem alguém.
Cada caso era investigado.
Como
vocês cooperavam com a infantaria durante o combate?
-
A Brigada de Tanques tinha três Batalhões
de Tanques, cada um com 21 tanques, e um Batalhão
de Sub-Metralhadoras. Um Batalhão de Sub-Metralhadoras
tinha três Companhias uma para cada Batalhão
de Tanques. Nós tínhamos essa estrutura
de três batalhões apenas no final de 1943
e inicio de 1944. O resto do tempo nós tínhamos
apenas dois batalhões de tanques para cada brigada.
Os homens das companhias de submetralhadoras eram como
irmãos para nós. Durante as marchas eles
pegavam caronas em nossos tanques. Eles ficavam aquecidos,
secavam suas coisas e dormiam um pouco. Nós dirigíamos
e então parávamos em algum lugar. Os tanquistas
podiam dormir e os homens das companhias de submetralhadoras
tomariam conta. Com o decorrer do tempo muitos deles
se tornavam membros da tripulação de algum
tanque, começando geralmente como carregador
ou operador de rádio. Nós dividíamos
os espólios igualmente. De formar que as coisas
eram um pouco mais fáceis para eles que para
homens de uma companhia de infantaria regular.
Durante
os combates eles se sentavam sobre os tanques até
o fogo começar. Quando os alemães começavam
a atirar sobre os tanques, eles pulavam fora e corriam
para se proteger atrás deles.
Se
em alguma situação os tanques estivessem
limitados em suas manobras e velocidade, você
manobrava a infantaria ou os faziam parar?
-
Nenhum dos dois. Nós não prestávamos
atenção a eles. Nós manobrávamos
e eles vinham atrás. Não havia problemas.
A
velocidade do tanque era limitada durante o ataque?
Pelo que?
-
Claro! Nós precisávamos atirar!
Como
vocês atiravam? Fazendo pequenas paradas ou em
movimento?
-
De ambas as maneiras. Se atirássemos em velocidade
a velocidade do tanque nunca excedia 12km/h. Mas nós
raramente o fazíamos, só quando queríamos
criar pânico entre as tropas inimigas. Basicamente
nós atirávamos parados. Corríamos
até uma posição, parávamos,
atirávamos e então seguíamos.
O
que você pode dizer sobre o Tiger alemão?
-
Era um veículo extremamente pesado. O Sherman
nunca poderia derrotá-lo em um ataque frontal.
Nós tínhamos que força-lo a expor
seu flanco. Se estivéssemos defendendo, tínhamos
uma tática especial. Dois Shermans eram designados
para cada Tiger. O primeiro Sherman atirava em sua esteira,
quebrando-a. Por um curto espaço de tempo o Tiger
continuava a se mover com a outra esteira, o que o fazia
se virar de lado. Nesse momento o segundo Sherman acertava-o
de lado, tentando atingir tanque de combustível.
É assim que fazíamos. Um tanque alemão
era derrotado por dois dos nossos e creditado à
tripulação dos dois. Há uma história
a esse respeito intitulada "Hunting With Borzois"
em meu livro.
O
freio de boca tem uma desvantagem significante: uma
nuvem de poeira é levantada durante o disparo,
revelando a posição. Alguns artilheiros
tentam contornar isso, por exemplo, molhando o solo
em frente dos seus canhões. Que tipo de medida
vocês empregavam para atenuar esse efeito?
-
Você está certo! Nós amassávamos
o chão, de forma a ficar duro, e cobríamos
com nossos casacos.
A
vista do tanque era dificultada pela poeira, sujeira
ou neve?
-
Não havia nenhuma dificuldade em especial. A
neve, é claro, podia nos cegar. Mas não
a poeira. A viseira do Sherman não era pra fora,
ficava na torre. Dessa forma ficava bem protegida conta
esses elementos.
Tanquistas
que lutaram nos Churchills ingleses apontaram o fraco
aquecimento interno como uma deficiência. O sistema
padrão de aquecimento era inadequado para o inverno
russo. Como o Sherman era equipado nesse sentido?
-
O Sherman tinha dois motores conectados por duas juntas
de união paralelas. Isso era bom e ruim. Havia
ocasiões em que um desses motores parava durante
a batalha. A junta podia ser solta e o tanque podia
se arrastar para longe em apenas um motor. Por outro
lado havia grandes ventiladores encima dos motores.
Nós costumávamos dizer "Abra sua
boca e o ar vai sair pelo seu rabo!". Como diabos
podiam ficar aquecidos? Havia correntes de ar muito
fortes. Talvez viesse algum calor dos motores, mas não
foi lhe dizer que aquilo era o suficiente. Quando parávamos,
nós imediatamente cobríamos o compartimento
do motor com nossos casacos. Então o tanque se
aquecia por várias horas; nós dormíamos
nele. Nada no mundo fez com que os americanos nos dessem
macacões forrados de lã.
Havia
alguma norma para o consumo de munição?
-
Sim, havia. Em primeiro lugar, nós levávamos
um carregamento básico [BK - boekomplekt - um
carregamento completo de munição, um BK
do Josef Stalin II era igual a 28 cápsulas -
Valera] conosco para batalha. Nós levávamos
um BK adicional do lado de fora dos tanques durante
grandes jornadas. Quando fomos para Viena, por exemplo,
meu comandante nos ordenou pessoalmente que levássemos
dois BK: um dentro e o segundo fora sobre a blindagem.
Em adicional nós levamos duas caixas de chocolate
e provisão adicional em cada tanque. Nós
estávamos sós, por assim dizer. Isso significava
que se tivesse que conduzir um ataque em algum lugar
nós teríamos que nos livrar das rações
e colocar a munição em seu lugar. Todos
os nossos veículos de suprimentos eram Studebakers
americanos de duas toneladas. Eles sempre traziam munição
para o batalhão.
Há
uma coisa que eu gostaria de dizer. Como nós
preservávamos nossa munição soviética?
Vários cartuchos cobertos de graxa, em caixas
de madeira. Alguém tinha que ficar limpando a
graxa dos cartuchos por horas. A munição
americana era empacotada em tubos de papelão,
três cartuchos pra cada. Os cartuchos ficavam
limpos e brilhantes dentro dos tubos. Nós os
tirávamos e imediatamente guardávamos
dentro do tanque.
Que
tipo de munição você levava em seu
tanque?
-
Perfurante de blindagem e munição de alto-explosivo.
Mais nada. A proporção era de um terço
de Alta Explosão para dois terços de perfuradora
de blindagem.
Talvez
a proporção varie com o tanque. Nos JS
era o contrário!
-
Sim, você está certo. Mas o poder de fogo
do JS era tamanho que um tiro era suficiente. Quando
fomos para Viena, eles nos deram uma bateria de JSU-152s,
três deles (em seu livro Loza os chamada de SAU-152,
eu o perguntei sobre esses veículos e ele disse
que eram baseados no chassi do JS, então só
poderiam ser JSU-152). Eles nos atrasaram muito. Na
auto-estrada nós podíamos fazer 70km/h
com os Shermans enquanto os JSUs mal se moviam. Quando
entramos em Viena sucedeu-se um incidente que eu descrevo
em meu livro. Os alemães nos contra-atacaram
com vários Panthers. O Panther era um tanque
pesado. Eu ordenei que um JSU avançasse para
combater os Panthers. "Bem, dê um tiro",
e oh, eles atiraram! Devo dizer que as ruas de Viena
eram estreitas, as construções altas e
muitos queriam assistir esse combate entre o JSU e o
Panther. As pessoas ficaram nas ruas. O JSU disparou
e atingiu o Panther atrás (de uma distancia de
400 ou 500 metros). Sua torre foi arrancada e voou alguns
metros. Com a força do tiro todos os vidros das
casas em volta quebraram e caíram em nossas cabeças.
Esse dia eu me culpei por não ter previsto isso.
Muitos foram feridos. Foi bom que estivéssemos
usando capacetes, mas nossos braços ficaram todos
cortados. Essa foi minha primeira experiência
em combate urbano, e foi triste. Nós ainda dizemos
"Um homem inteligente não entra numa cidade,
ele a contorna". Mas nesse caso eu tinha ordens
específicas para entrar na cidade.
Em
geral, Viena foi muito destruída?
-
Não, não muito. Não em comparação
com Varsóvia, por exemplo. Minha missão
era capturar o centro da cidade e o banco. Foram capturadas
18 toneladas de ouro, o que não era mixaria.
Os homens brincavam comigo "Se ao menos você
pudesse pegar só uma bolsa" e eu respondia
"Homens, por quantos anos eu quebraria pedras por
esse roubo?".
Como
vocês reabasteciam?
-
Cada batalhão tinha vários caminhões
tanque. Antes de qualquer batalha os caminhões
tinham que ser esvaziados. Se estivéssemos em
marcha, então levávamos tanques extras
sobre os tanques, e antes do combate nós os largávamos.
Os caminhões vinham pela retaguarda e traziam
combustível pra gente. Nunca eram trazidos todos
os caminhões de combustível de uma só
vez. Assim que um caminhão era esvaziado ele
voltava para a brigada e recarregava e o próximo
vinha, e assim por diante. Na Ucrânia tínhamos
que rebocar esses caminhões com nossos tanques
por causa da lama. A lama lá era terrível.
Na Romênia os alemães cortaram nossos suprimentos.
Fizemos um coquetel, uma mistura de gasolina com querosene
(os M4A2 Shermans era a diesel). Os tanques conseguiam
andar com esse coquetel, mas os motores superaqueciam-se.
Vocês
tinham tanquistas sem tanques em sua unidade? O que
era feito deles?
-
Certamente nós tínhamos. Normalmente um
terço do total de homens não tinham tanques.
Eles faziam de tudo. Ajudavam na manutenção,
suprimento de munição, reabastecimento
e qualquer coisa que fosse preciso. Eles o faziam.
Vocês
tinham veículos camuflados em sua unidade?
-
Alguns, mas eu não me lembro deles. Tínhamos
de tudo. No inverno nós pintávamos nossos
tanques de branco em um sistema obrigatório com
tinta ou com cal.
Era
preciso permissão para instalar camuflagem? Vocês
precisavam de autorização para pintar
qualquer tipo de slogan no tanque, por exemplo, "Za
rodinu" - Pela Pátria?
-
Não, nenhum tipo de permissão era necessário.
A escolha era sua - se você quisesse pintar, você
pintava. Se não queria camuflar seu tanque, você
não camuflava. Quanto aos escritos eu acredito
que eles tinham que ser aprovados pelos representantes
políticos. Afinal era algum tipo de propaganda.
Os
alemães fizeram um amplo uso de camuflagem. Isso
ajudava?
-
Sim, ajudava muito. Em algumas ocasiões isso
foi crucial para eles.
Então
porque vocês também não usavam camuflagem
tanto quanto eles?
-
Faltava-nos material. Nós não tínhamos
uma ampla opção de cores. Havia uma cor
de proteção e nós a pintávamos.
Precisa-se muita tinta para se pintar todo um tanque.
Talvez se tivéssemos tido acesso a outros cores
de tinta, nós tivéssemos feito maior uso
de camuflagem. Em geral havia várias coisas a
se fazer: concertos, reabastecimento e assim por diante.
Os
alemães eram mais ricos. Eles não tinham
apenas camuflagem, mas também usavam zimmerit
em seus tanques pesados.
A
tripulação recebia contussões quando
o tanque era atingido, mesmo se o projétil não
penetrasse a blindagem?
-
Geralmente, não. Depende de onde o projétil
atingia. Digamos que eu estivesse sentando no lado esquerdo
da torre e um projétil atingisse o tanque perto
de mim. Eu ouvia o impacto, mas não me machucava.
Se ele atingisse em algum lugar do corpo do tanque,
talvez eu nem mesmo o ouvisse. Isso acontecia com freqüência.
Nós saíamos depois de um combate para
inspecionar o tanque e encontrávamos marcas de
impactos na blindagem, como manteiga cortada por uma
faca quente. Algumas vezes o motorista gritava "Eles
estão atirando da esquerda", mas não
havia nenhum som que sobressaísse. É claro
que se uma arma poderosa como um JSU-152 nos atingisse,
nós ouviríamos, e em seguida perderíamos
a cabeça junto com a torre.
Eu
gostaria de acrescentar que a blindagem do Sherman era
forte. Havia casos de T-34s serem atingidos, mas a bala
não penetrar, mas mesmo assim a tripulação
era ferida por estilhaços da blindagem que voam
da parte interna do tanque. Isso nunca aconteceu em
um Sherman.
Qual
o oponente mais perigoso? Um canhão, tanque ou
avião?
-
Todos eram perigosos até que o primeiro tiro
fosse disparado. Mas em geral os mais perigosos são
os canhões antitanque. Eles eram muito difíceis
de distinguir e de derrotar. Os artilheiros os enterravam
no chão até que seus canos ficassem literalmente
deitados sobre o solo. Você podia ver apenas alguns
centímetros do escudo. O canhão atirava.
Era bom quando tinha freio de boca e o tiro fazia a
poeira subir. Mas se fosse inverno ou se tivesse chovendo!
Havia
casos em que você não podia ver de onde
o fogo vinha, mas a infantaria sim? Se sim, como eles
lhes guiavam?
-
Algumas vezes eles batiam na torre e gritavam. Às
vezes eles atiravam na direção do inimigo
com balas traçantes ou atiravam um foguete sinalizador
em sua direção. E geralmente o comandante
olhava pela torre. Nenhum dos periscópios, mesmo
os da torre de comando, nos dava boa visibilidade.
Como
você mantinha contato com seu comandante e os
outros tanques?
-
Por radio. Os Shermans tinha dois rádios, HF
e UHF, de excelente qualidade. Usávamos o HF
para comunicação com nossos superiores
e o UHF para comunicação dentro do batalhão
ou da companhia. Para comunicação dentro
do tanque nós usávamos o sistema de interfone.
Funcionava muito bem.
Entrevista
feita por Valera Potapov e Artem Drabkin
Tradução para o português de Gustavo
Caetano (www.totalkrieg.com.br)
Fonte deste artigo: www.iremember.ru
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