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história
recente desconhece qualquer acontecimento catastrófico
comparável ao ocaso da Alemanha em 1945. Jamais,
até então, o declínio de um império
havia custado tantas vidas humanas, arrasado tantas
cidades e destruído regiões inteiras.
Harry L. Hopkins, conselheiro dos dois presidentes americanos
durante a guerra, estava correto ao comparar a cidade
de Berlim em ruínas à Cartago aniquilada,
trazendo à imagem a alvorada da história.
As privações e o sofrimento pelos quais
aquelas pessoas passaram não se resumiam aos
horrores inevitáveis de uma derrota exacerbada
pelo poder de destruição da guerra moderna.
Mais do que isso, parecia que uma força condutora
se manifestava na agonia que pôs fim ao império
de Hitler. Ela impedia que seu domínio simplesmente
terminasse e se empenhava em levar o país como
um todo à ruína, literalmente. Assim que
chegou ao poder e, posteriormente, repetidas vezes,
Hitler deixou claro que jamais capitularia. No início
de 1945, ele assegurou ao seu ajudante-de-ordens da
Força Aérea, coronel Nicolaus von Below,
o seguinte: Pode ser o nosso fim, mas levaremos
junto o mundo.
Hitler sabia, havia muito, que a guerra estava perdida.
Os primeiros comentários nesse sentido já
haviam sido feitas em novembro de 1941. Entretanto,
sua força destruidora ainda teria muito fôlego.
Durante os últimos meses, um tom de júbilo
embasava todos os apelos para perseverar e exortações
para defender o território, evidente na seguinte
exclamação de Robert Ley após a
destruição de Dresden: É
quase um alívio! Passou! Não seremos mais
desviados pelos... monumentos da cultura alemã!
E Goebbels falou dos grilhões destroçados
que haviam sido igualados à terra.
O próprio Hitler já havia ordenado no
outono de 1944 e, mais uma vez, através da chamada
Ordem de Nero, de 19 de março de
1945, a demolição de diversas instalações
vitais para a manutenção da vida - indústrias
e centrais de abastecimento, ruas, pontes e sistemas
de canalização -, de tal forma que apenas
uma civilização extinta caísse
em mãos inimigas.
Hitler passou aqueles meses finais da guerra no bunker
que ele havia mandado construir no início da
década de 1940. Dali, de uma profundidade de
quase dez metros, ele comandava exércitos há
muito abatidos e ordenava batalhas decisivas que jamais
seriam travadas. De Claus Schenk von Stauffenberg, autor
do atentado contra Hitler, em 20 de julho de 1944, veio
a seguinte exclamação após contemplar
o quartel-general betonado do Führer: Hitler
no bunker - esse, sim, é o verdadeiro Hitler!
Com efeito, essa relação entre o frio,
a ânsia aniquiladora e alienada da realidade,
e o páthos operístico que orienta as decisões
de Hitler nos últimos tempos revela muito sobre
suas características mais marcantes. É
nestas semanas, durante as quais ele, mais do que nunca,
se afasta do mundo encarcerando-se no bunker, que seu
comportamento manifesta com maior precisão aquilo
que o compeliu durante toda a vida. Condensado e intensificado,
revive-se tudo mais uma vez - seu ódio pela humanidade,
a solidificação de padrões de pensamento
arraigados desde cedo, uma tendência ao impensável,
que, durante tanto tempo, levaram-no de vitória
em vitória - antes do fim iminente. Um dos grandes
espetáculos que ele havia apreciado durante toda
a vida, no entanto, ainda estava por vir e, provavelmente,
seria ainda mais grandioso do que o imaginado.
Para compreender e imaginar os acontecimentos, deve-se
ter em mente a autoridade indiscutível que Hitler
ainda emanava, apesar do consenso geral sobre sua debilidade.
Por vezes, até parece que sua aparência
senil e o visível esforço que fazia arrastando-se
entre as dependências subterrâneas fortalecessem
o efeito sugestivo que suas aparições
geravam. Era raro alguém que ousasse contradizê-lo.
Generais experientes e oficiais altamente condecorados
emudeciam durante os informes diários, mantendo-se
impassíveis a muito custo. Assim, também,
seguiam as ordens que lhes eram dadas, por mais que
o desvario e a insensatez fossem patentes.
Para todos esses e alguns outros eventos, este relato
fornece incontáveis exemplos, freqüentemente
consternadores. Eles conferiram aos acontecimentos uma
singular dramaticidade. Tanto mais surpreendente é
a luz da dúvida que paira sobre o
que se passava no bunker do Führer. Essa expressão
tem sua origem no historiador britânico Hugh R.
Trevor-Roper, autor da primeira descrição
confiável desse período em Os Últimos
Dias de Hitler, título do levantamento minucioso
de dados que publicou já em 1946. Até
hoje, essa luz continua fraca. Há, por exemplo,
quatro versões contraditórias de testemunhas
próximas do suicídio de Hitler. Situação
semelhante ocorre em relação ao paradeiro
dos corpos do ditador e da mulher com quem contraíra
matrimônio na noite anterior. O mesmo acontece
com a suposta investida soviética sobre a Chancelaria
e com muitos outros fatos.
O ceticismo em relação às descobertas
deve-se, em parte, ao fato de as investigações
críticas, inclusive as realizadas por Trevor-Roper,
somente terem começado meses após os acontecimentos,
quando muitas testemunhas importantes já haviam
desaparecido na confusão da guerra ou em prisões
soviéticas, estando, portanto, inacessíveis.
Não só incontáveis patentes da
SS que faziam parte da guarnição da Chancelaria,
bem como oficiais da Wehrmacht1 da região de
combate de Berlim, funcionários do bunker e,
até mesmo, os dentistas de Hitler retornariam
à Alemanha somente em 1955, após a visita
de Adenauer a Moscou.
Foi assim que, de repente, inúmeros informantes
sobre um dos acontecimentos incontestavelmente mais
importantes e graves da história da Alemanha
ficaram à disposição. A oportunidade
de interrogá-los, entretanto, foi desperdiçada.
Na ocasião, nem o acontecimento em si, nem seus
participantes imediatos deveriam despertar grande interesse.
Havia muitos motivos para tal.
Sem dúvida, um deles era o fato de a queda do
Reich ser encarada como uma catástrofe nacional.
Mas a nação já não existia,
e o conceito de catástrofe acabou, com o passar
do tempo, tornando-se mais uma vítima dos debates
alemães em torno de sutilezas. Para muitos, catástrofe
ecoava por demais destino e renegação
de culpa, como se tivesse sido provocada por uma repentina
nuvem de temporal histórica. Além disso,
o termo não englobava a idéia da libertação,
que, no entanto, está imperiosamente associada
ao ano de 1945.
Essa foi a primeira motivação para o estranho
descaso não só durante a investigação
dos acontecimentos, mas também ao proteger as
fontes. Apenas alguns repórteres históricos,
em sua maioria de origem anglo-saxônica, interessaram-se
pelo tema a partir da década de 1960 e começaram
a entrevistar aqueles que haviam presenciado os fatos.
Também desempenhou um papel importante o fato
de a história, como ciência, começar
a descobrir, justamente naquela época, a importância
das estruturas no processo histórico e, dito
de forma simplificada, começar a considerar as
relações dentro da sociedade muito mais
importantes do que os acontecimentos em si. A necessidade
elementar da presentificação, base para
toda reflexão histórica, passou a não
ser mais considerada científica, assim como a
técnica narrativa. Ao mesmo tempo, qualquer tema
histórico de caráter dramático
era difamado, como se sua descrição fosse,
necessariamente, sensacionalista. Na verdade, a geração
dominante de historiadores, que se caracteriza pela
atração por detalhes, evita os grandes
acontecimentos, especialmente aqueles com grande carga
de tensão. Às vezes, porém, o cronista
faz bem em deixar a lupa de lado. A relação
que tudo evoca entre si, a qualquer tempo, também
tem seu significado e revela fatos que uma observação
detalhada jamais traria à tona.

O início da batalha
Às três horas, foguetes
de iluminação ascenderam ao céu
noturno e banharam de um vermelho intenso a cabeça-de-ponte
perto de Küstrin. Após um instante de silêncio
angustiante, o céu veio abaixo, fazendo tremer
as margens do Oder muito além de Frankfurt. Como
que acionados por um fantasma, sirenes disparavam em
diversas localidades entre Küstrin e Berlim, telefones
tocavam e livros caíam das prateleiras. Com vinte
exércitos e 2,5 milhões de soldados, mais
de 40 mil lançadores de granadas e artilharia
de longo alcance, bem como centenas de órgãos
de Stalin,1 somando trezentos tubos por quilômetro,
o Exército Vermelho dava início à
batalha, em 16 de abril de 1945. Nas cercanias dos lugarejos
Letschin, Seelow, Friedersdorf e Dolgelin, imensas colunas
de fogo arrojavam-se às alturas e construíam
uma parede formada de relâmpagos, projéteis
de pedaços de solo e destroços voadores.
Florestas inteiras foram consumidas pelo fogo. Posteriormente,
alguns dos sobreviventes descreveriam furacões
em brasa, que assolaram aquela região e transformaram
tudo em fogo, pó e cinzas.
Meia hora depois, o barulho infernal
cessou subitamente, dando lugar a segundos de silêncio
asfixiante, durante os quais só se ouvia o crepitar
do fogo e o uivo dos ventos. Em seguida, o céu
na linha de frente soviética foi iluminado por
um raio de luz perpendicular que partia de um holofote
e dava sinal a outros 143 holofotes, dispostos a uma
distância de 200 metros uns dos outros, para iluminarem
diretamente o campo de batalha. Aqueles feixes luminosos
ofuscantes revelavam uma paisagem lunar e somente interrompiam
seu caminho nas colinas de Seelow, objetivo operativo
do dia do comandante-em-chefe da 1ª Frente Bielo-Russa,
marechal Georgi K. Zhukov. A seguinte ordem de Zhukov
deu início à batalha: O inimigo
deve ser eliminado no caminho mais curto para Berlim.
A capital da Alemanha fascista deve ser ocupada e, sobre
ela, a bandeira da vitória deve ser hasteada!
O dramático espetáculo
luminoso, apelidado pelos estrategistas de a arma
milagrosa de Zhukov, provou ser um fracasso de
alto custo. Apesar da oposição, o marechal
ateve-se ao propósito de ofuscar
o inimigo, já confuso e desalentado após
o fogo contínuo, até tirá-lo de
combate. Dessa forma, as colinas que ficavam por trás
e se elevavam a uma altura de, aproximadamente, 30 metros
intercalando vales e encostas poderiam ser atropeladas
logo no primeiro ataque. Porém, a espessa cortina
de fumaça e a bruma que o fogo cerrado haviam
estendido sobre a planície não só
interceptavam a luz dos holofotes, bem como desorientavam
os soldados soviéticos no alvorecer leitoso.
Além disso, constatou-se que o alto comando havia
calculado mal a dificuldade daquele terreno intransitável,
recortado por canais, pântanos e regos, e que,
como sempre na primavera, encontrava-se inundado. Caminhões
de tropas, tratores e equipamentos pesados de toda sorte
acabaram presos naquele lodaçal, derrapando cada
vez mais fundo e, finalmente, sendo abandonados.
Decisiva, entretanto, foi a ordem do general Gotthard
Heinrici, comandante do Grupo do Exército Weichsel,
já familiarizado com essa tática de guerra
russa. Pouco antes do início da batalha, ele
retirou as posições defensivas dianteiras,
de forma que o fogo inimigo atingiu, predominantemente,
o vazio. Enquanto as unidades de infantaria inimiga
- escoltadas e comandadas por uma maciça força
blindada, com as bandeiras ao vento e ao som de gritos
estridentes - saíam de dentro da cortina de fumaça;
as forças de defesa - consideravelmente mais
fracas, formadas de sobreviventes de diferentes unidades
aniquiladas - aguardavam até que os inimigos
estivessem próximos o bastante e atiravam praticamente
a esmo no conjunto de sombras. Simultaneamente, centenas
de canhões antiaéreos com os canos abaixados
abriam fogo assim que os tanques que se aproximavam
em meio ao tropel ganhavam contornos na luz difusa.
Ao raiar do dia, o ataque havia sido contido, com grandes
perdas do lado dos agressores.
À primeira derrota, Zhukov permitiu que se seguisse
uma segunda. Decepcionado e desesperado com o fracasso,
e pressionado por um visivelmente irritado Stalin, Zhukov
ordenou, mudando a ofensiva previamente planejada, a
mobilização de duas divisões de
blindados que, antes, aguardariam na retaguarda. Originalmente
posicionadas para o momento em que a barreira de defesa
alemã abrisse uma brecha maior, agora se adiantavam
para o campo de batalha, criando uma confusão
ainda maior na retaguarda da tropa combatente. Elas
abriam passagem por entre unidades desorientadas em
ruas obstruídas, impediam a mudança de
posição da artilharia e bloqueavam as
rotas de acesso para material de reabastecimento e reforços.
Além disso, como elas tinham entrado em combate
sem qualquer coordenação, acabaram criando
tal caos que, sem muita demora, chegou a paralisar toda
a operação soviética. Um dos comandantes
de Zhukov, o general Vassili I. Tschuikov, registrou,
na noite de 16 de abril, que as unidades soviéticas
não haviam cumprido suas ordens e, em parte,
não haviam avançado sequer um passo. A
intenção de ocupar Berlim no quinto dia
da ofensiva havia malogrado.
No quartel-general de Hitler, o abrigo subterrâneo
no terreno da Chancelaria, o ataque havia sido aguardado
com um misto de impaciência, ansiedade e resignação
entorpecida. Já as notícias dos primeiros
êxitos fugazes da resistência provocaram
o recrudescimento primeiramente confuso e, em seguida,
quimérico, de esperanças na vitória.
Ainda assim, Hitler ordenou os preparativos para a defesa
do bairro que sediava o governo e, em especial, o terreno
da Chancelaria, posicionando artilharia antiblindados
e lançadores de granadas e providenciando canhoneiras.
À tarde, ele deu uma ordem do dia aos combatentes
da frente oriental que despertou neles a fúria
exterminadora necessária para aniquilar o inimigo
mortal - o judeu-bolchevique - e que expressava a convicção
de que o ataque asiático também desta
feita... sangraria frente à capital do Império
Alemão... Vocês, soldados da frente oriental,
sabem, continuava, que destino ameaça,
principalmente, as mulheres e crianças alemãs.
Enquanto os velhos, homens e crianças são
assassinados, mulheres e moças serão humilhadas
como prostitutas em casernas. O resto marchará
em direção à Sibéria.

No decorrer da ofensiva de janeiro, o Exército
Vermelho não só havia alcançado
o rio Oder, mas também conseguira atravessá-lo
em diversos pontos da região de Küstrin,
aproximadamente 30 quilômetros ao norte de Frankfurt.
Batalha após batalha, o inimigo conseguira construir
uma cabeça-de-ponte de quase 40 quilômetros
de comprimento e, em certos trechos, até 10 quilômetros
de profundidade, que ameaçava toda a posição
de Nibelungen até o rio Neisse. As forças
alemãs somente começaram a cavar trincheiras
em Berlim e ao redor da cidade no início de março,
quando também construíram posições
fortificadas e posicionaram barreiras antitanque. Entretanto,
logo que as tropas soviéticas se detiveram, a
construção do sistema de defesa da cidade,
por mais provisório que fosse, cessou, inexplicavelmente.
A interrupção das obras foi provocada
pelo próprio Hitler, que teimava cada vez mais,
que a defesa da capital já deveria acontecer
às margens do Oder e nenhuma unidade deveria
abandonar a posição à qual havia
sido destinada. Sustentar ou sucumbir! era
o lema repetido nas incontáveis ordens e nos
apelos para perseverar.
As forças armadas soviéticas enfrentavam
o 56º Corpo Blindado do general Helmuth Weidling
e, mais ao sul, principalmente o 9º Exército
sob o comando do general Theodor Busse. O general Heinrici,
sob cujo comando se encontravam as duas unidades, havia
advertido, em vão, para o perigo de serem encurraladas
no caso de Zhukov conseguir romper a barreira alemã;
além de haver alertado repetidas vezes que o
fim estava próximo, devido à carência
de efetivo experiente na infantaria, de munição
e de reabastecimento de toda a sorte, e ao esgotamento
extremo das tropas. No entanto, a convicção
obstinada de Hitler de que o desejo suplanta qualquer
obstáculo material, acrescida de vagas e jamais
cumpridas promessas jactanciosas de Göring, Dönitz
ou Himmler, trazia àquele grupo - pelo menos,
temporariamente - a esperança há muito
enterrada e mantida artificialmente viva apenas por
Hitler. No fim, alguns batalhões de colunas civis
foram transportados, de ônibus, à linha
de frente para deter o exército de Zhukov e seu
Corpo Motorizado. Enquanto o rádio anunciava
que milhares de berlinenses seguiam para o front
com suas unidades, a missão de parte deles
já havia terminado. Aviões de caça
russos, que já controlavam todo o espaço
aéreo ao redor da cidade, haviam interceptado
e destruído algumas colunas de viaturas a meio
caminho com poucos ataques rasantes.
As previsões de Heinrici se concretizavam com
exatidão. Depois de formar novamente suas unidades,
Zhukov ordenou mais ataques ao escurecer. Tanto maior
foi a crueldade imposta quando soube que seu rival ao
sul do front, marechal Ivan S. Konjev, aparentemente
havia tido maior êxito em suas manobras. Konjev
não só havia conseguido atravessar o rio
Neisse, na região da Lusácia, em mais
de 130 lugares e, com isso, garantir o sucesso da ofensiva;
mas também passou a crer que, agora, dispunha
de excelentes motivos para reivindicar novamente sua
participação na conquista de Berlim e
contestar, no último instante, o troféu
de vitória prometido a Zhukov. Tinha início
uma competição silenciosa, incitada por
Stalin com astutas insinuações contra
Zhukov que, entrementes, havia caído em desgraça.
Quando, durante uma conversa com o ditador, Konjev pediu
permissão para marchar com sua ala direita em
direção ao norte, passando por Lübben
e Luckenwalde, de forma a alcançar em poucos
dias Zossen, no limite da cidade de Berlim, Stalin perguntou
se o marechal sabia que o quartel-general do exército
alemão se encontrava em Zossen. Ao Sei
lacônico de Konjev, seguiu-se a resposta de Stalin:
Está bem, estou de acordo. Que os dois
exércitos de blindados avancem sobre Berlim.
Era quase meia-noite quando, mais ao norte, no setor
central do front do Oder, as tropas de Zhukov finalmente
alcançaram as primeiras casas de Seelow. A batalha
travou-se durante algum tempo em torno daquelas colinas
em forma de ferradura. Depois, as unidades da Wehrmacht,
uma verdadeira colcha de retalhos de unidades anteriores,
cá e lá com um décimo do potencial
do inimigo e completamente esgotados, acabaram batendo
em retirada. Além disso, Heinrici estava cada
vez mais preocupado com a possibilidade de as unidades
de Konjev, que avançavam em ritmo acelerado,
de repente surgirem pela retaguarda e cercarem o 9º
Exército. No dia seguinte, assim que chegou a
informação de que uma de suas unidades
de elite, a Divisão de Pára-quedistas
posicionada nos topos das colinas de Seelow, havia debandado
em pânico, Heinrici pediu uma ligação
para o bunker de Hitler.
Como já havia acontecido várias vezes,
no entanto, os comunicados urgentes deparavam-se com
a mais absoluta incompreensão. A sugestão
de retirar as tropas da fortificação Frankfurt/Oder
e levá-las para cobrir um rombo quilométrico
nas linhas de defesa foi negada friamente. E, também,
mais tarde, quando ele pediu autorização
ao recém-promovido chefe-geral de Estado-Maior,
general Krebs, para recuar suas próprias unidades,
ouviu apenas um suspiro desolado do outro extremo. Krebs
disse, então: Hitler jamais concordará
com isso. Mantenham todas as posições!
Por volta de 19 de abril, as colinas de Seelow até
Wriezen, mais ao norte, estavam em mãos russas;
e o corredor no meio, que um viajante, há menos
de um século, havia descrito como terras
longínquas e maravilhosas - um reino de paz,
cor e aroma, não passava de uma região
desfigurada por crateras. Daí para a frente,
o restante da linha de defesa alemã ia se desfazendo
aos pedaços, em batalhas localizadas. De acordo
com informações soviéticas, a ofensiva
custou ao invasor 30 mil vidas, enquanto cálculos
mais confiáveis chegam a contar 70 mil mortos,
contra as 12 mil perdas do lado alemão. A distância
até Berlim mal chegava a 70 quilômetros,
e não havia nenhuma linha de frente contínua
no caminho, apenas pontos de apoio e alguns vilarejos,
bosques ou elevações protegidas por unidades
isoladas. Dois dias depois, a artilharia soviética
de longo alcance deslocada às pressas em direção
à cidade, já lançava as primeiras
granadas sobre a Hermannplatz em Berlim. Elas provocaram
um banho de sangue entre os passantes inscientes e as
filas de compradores diante da loja de departamentos
Karstadt.
Quase uma semana antes, tropas americanas
haviam alcançado o rio Elba, na altura de Barby,
onde interromperam a marcha. Berlim não
é mais um alvo militar, explicara o comandante-em-chefe
americano, na pessoa do general Dwight D. Eisenhower,
aos perplexos comandantes das tropas. A cidade pertencia
aos russos, assim havia sido acordado; portanto, a guerra
na região norte do império havia chegado
ao fim para os americanos. Enquanto isso, o marechal-de-campo
Walter Model, após haver repetidamente recusado
diversas propostas de rendição, acabou
suspendendo a batalha na bacia do Ruhr e dispensando
seu grupo do exército. Mais de 300 mil soldados
alemães e trinta generais foram presos. Será
que fizemos tudo ao nosso alcance, perguntou Model
ao seu chefe de Estado-Maior, para que nossa atitude
seja justificável perante a história?
Ou resta algo a fazer? Após mirar o vazio
durante um instante, acrescentou: Antes, os generais
vencidos tomavam veneno. Não muito tempo
depois, ele acabou fazendo o mesmo.
Havia semanas que Hitler se sentia perseguido pela desgraça.
Uma linha de defesa após a outra havia sucumbido,
a começar pela grande ofensiva do Exército
Vermelho na Hungria, o levante das guerrilhas sob o
comando de Tito, a queda das fortalezas de Kolberg e
Königsberg. Milhares de notícias alarmantes,
embora menos significantes, que chegavam diariamente.
Além disso, havia as divergências com Guderian,
chefe de Estado-Maior que, nesse ínterim havia
sido substituído, e com o obstinado Speer, que,
em fins de março, chegara a perder a fé
no prosseguimento vitorioso da guerra. No
meio de toda a traição que me circunda,
teria dito Hitler, apenas a infelicidade me permanece
fiel - a infelicidade e minha pastora alemã,
Blondi.
A corrente de notícias ruins só pareceu
romper-se uma vez, quando Goebbels, na noite de 13 de
abril, sem fôlego e com voz esganiçada
gritou ao telefone: Meu Führer, parabéns!
Está escrito nas estrelas que, na segunda metade
de abril, a sorte virará para o nosso lado. Hoje
é sexta-feira, 13 de abril! Ele continuou,
explicando que o presidente Roosevelt falecera e que,
na reunião de generais, ministros e chefes de
partidos convocada imediatamente, esperanças
havia muito desvanecidas reascendiam em função
da conjunção dos planetas, ascendentes
e trânsitos no quadrante. Com um maço de
papéis na mão trêmula, Hitler ia
de um a outro, dando a impressão de estar ligeiramente
ausente, enquanto dizia, com a determinação
de um velho: Aqui está! Vocês nunca
quiseram acreditar! Quem tem razão agora?
Ele indicava o milagre da Casa de Brandemburgo, que
havia salvado o grande Frederico II, em 1762: O
milagre, dizia ele, se repetirá!
A guerra não está perdida! Leiam! Roosevelt
morreu!
Como tantas vezes em sua vida, parecia que, mais uma
vez, a Providência provava ter juízo e,
literalmente, no último momento, colocava-se
a seu lado. Desde sempre, ele havia procurado persuadir
seu entorno de que o concubinato repugnante
das forças inimigas se desfaria em breve e, antes
de ser tarde demais, a Inglaterra, bem como os Estados
Unidos, ainda acabariam reconhecendo-o como defensor
da cultura comum contra os bárbaros do Oriente.
Ele assegurava, agora, que a morte de Roosevelt era
o esperado sinal para uma guinada das alianças
e que o fim da guerra no Ocidente era iminente. Durante
algumas horas, o bunker era uma euforia só, na
qual se combinavam a sensação de alívio
e de confiança, com a expectativa da vitória
em breve. No decorrer da noite, entretanto, à
medida que a farsa do ilusionismo era desmascarada,
a angústia reprimida voltava à tona, sobretudo
quando chegou a notícia de que o Exército
Vermelho havia conquistado Viena. De acordo com as informações
de um dos presentes, a essa altura Hitler se encontrava
esgotado em sua poltrona, um misto de libertado
e atordoado; a impressão que dava era de desesperança.
Na verdade, a morte do presidente não teve nenhuma
influência no desenrolar da guerra.
Em janeiro, após a derrota da ofensiva nas Ardenas,
Hitler retornara a Berlim e alojara-se, a princípio,
na Nova Chancelaria. Não demorou muito e os constantes
ataques aéreos expulsaram-no de lá e levaram-no
a acomodar-se no abrigo antiaéreo, onde ele,
finalmente, se sentia à vontade, segundo alguns
observadores. A onipresente fobia, que sempre havia
exercido total domínio sobre sua pessoa, já
se manifestara em 1933, alguns meses após haver
sido proclamado chanceler, quando ordenou uma série
de reformas no prédio da Chancelaria do Império
e, como uma das medidas imprescindíveis, determinou
a construção de um subsolo reforçado
tipo bunker. Pode-se deduzir o quão obsessivo
era esse desejo pela insistência com que repetia:
Bunker, e mais uma vez bunker, em conversas
com o arquiteto Albert Speer. Até mesmo o salão
de festas no jardim atrás da Chancelaria, que
havia sido projetado pelo arquiteto Leonhard Gall em
1935, foi construído com um abrigo antiaéreo,
cujo teto tinha uma espessura de quase 2,5 metros, posteriormente
reforçado com mais um metro. Três anos
depois, com a construção do novo prédio
da Chancelaria do Império, projetado por Albert
Speer, mais ambientes protegidos foram acrescentados.
No andar térreo, havia mais de noventa células
de concreto que acompanhavam a extensão da Vosstrasse.
Elas estavam conectadas ao bunker sob o salão
de festas por um corredor subterrâneo de, aproximadamente,
80 metros.
Após a derrota catastrófica às
portas de Moscou, no inverno de 1941, os temores de
Hitler se reacenderam fazendo-o crer que nem esse extenso
sistema de bunker seria suficiente. Apesar de seus exércitos
ocuparem, na época, a imensa região entre
Stalingrado e Hammerfest, estendendo-se até Trípoli,
ele ainda incumbiu o escritório de Speer com
um projeto para a construção de mais uma
catacumba, alguns metros mais profunda. Ela estaria
conectada ao abrigo sob o salão de festas que,
desde então, passou a se chamar de pré-bunker
e contava com uma cantina para os funcionários
mais próximos a Hitler, alguns salões
de entretenimento e dormitórios. Somando-se,
ainda, a cozinha e os quartos dos empregados, o subterrâneo
contava 16 ambientes. Atrás da Chancelaria, no
jardim de árvores altas e caminhos silenciosos,
onde, algumas gerações antes, Bettina
von Arnim havia escrito para Goethe que morava aqui,
num paraíso, os trabalhadores tomaram conta
novamente, derrubando árvores, trazendo material
e equipamentos - betoneiras, armações
para concretagem, além de pilhas de tábuas
- para, então, começarem as obras. No
início de 1945, o bloco de concreto do bunker
do Führer estava quase pronto, mas a construção
de guaritas e torres de vigia ainda levara algum tempo,
de forma que, em abril desse ano, o trabalho ainda não
havia chegado a termo.
Nas instalações do porão sob a
Nova Chancelaria do Império, encontravam-se as
dependências do entourage de Hitler, como de seu
poderoso secretário, Martin Bormann; e de seu
último chefe do Estado-Maior, Hans Krebs, junto
com seus assistentes; do general Burgdorf; e do piloto-chefe
de Hitler, general Hans Baur; do líder de grupo
da SS, Hermann Fegelein, que substituía Himmler
no QG do Führer; e mais incontáveis oficiais,
além das secretárias de Hitler, dos vigias,
ordenanças, radiotelegrafistas, cartógrafos;
e de outros funcionários. Uma parte dos ambientes
estava equipada para servir como hospital militar de
emergência; outra, como refúgio para desabrigados
em conseqüência de bombardeios, grávidas
e, aproximadamente, duzentas crianças, cujo número
crescia a cada dia provocando uma superpopulação
insuportável.
Descendo uma escada em espiral, chegava-se do assim
chamado pré-bunker ao bunker do Führer.
As medidas, principalmente, do teto de concreto, são
desconhecidas. Entretanto, já que a base com
suas placas de fundamento de 2 metros de espessura encontrava-se
a, aproximadamente, 12 metros do nível do jardim,
e levando-se em conta o mezanino de quase 3 metros com
as instalações de abastecimento, parece
que os 4 metros freqüentemente mencionados, quando
se tratava da espessura do teto, conferem. Já
no início da década de 1930, Konrad Heiden,
primeiro biógrafo de Hitler, soube sintetizar
numa expressão inesquecível a essência
do Führer e de seu movimento, uma combinação
de páthos, arrogância e agressividade,
descrevendo-os como jactância em fuga.
Agora, com o recolhimento de Hitler na profundeza do
bunker, de onde transmitia brados de vitória,
parecia que aquela observação, freqüentemente
tida como absurda, não era mais que a verdade.
O bunker do Führer abrangia quase vinte recintos
pequenos, sobriamente mobiliados, com exceção
da parte do corredor que ficava em frente aos aposentos
particulares de Hitler, onde havia alguns quadros, um
banco estofado e algumas poltronas velhas. Ao lado,
encontrava-se a sala de conferências, na qual
eram feitos os informes, e que dá uma idéia
do aperto generalizado, pois levava até vinte
pessoas a comprimir-se em volta da mesa de cartas, em
uma sala de 14 metros quadrados, durante muitas horas,
várias vezes por dia.
Os dois ambientes que compunham os aposentos de Hitler
também eram decorados com parcimônia. Sobre
o sofá, havia uma natureza-morta de origem holandesa
e, sobre a escrivaninha, numa moldura oval, um retrato
de Frederico, o Grande, pintado por Anton Graff, diante
do qual o Führer freqüentemente se sentava
em meditativa ausência, como se dialogasse com
o rei. Ao pé da cama, havia um cofre, no qual
Hitler guardava seus papéis pessoais; e, num
canto, como já tinha por hábito no quartel-general
de Rastenburg, ele mantinha uma garrafa de oxigênio
para serenar a aflição permanente de poder
vir a sofrer de falta de ar, principalmente no caso
de defeito nos motores diesel, que forneciam luz, calefação
e ar fresco ao bunker.
A iluminação era fornecida por bulbos
de lâmpadas instalados diretamente no teto de
cada recinto, que lançavam uma luz fria nos rostos
e tornavam ainda mais perceptível o mundo fantasmagórico
no qual todos se movimentavam. Quando, ocasionalmente,
havia falta de água nos dias que antecederam
o fim, principalmente o pré-bunker exalava um
fedor insuportável, que misturava os vapores
dos motores diesel - que trabalhavam num zumbido contínuo
- com o cheiro penetrante de urina e de transpiração.
Em muitos corredores de ligação para o
bunker inferior, havia poças oleosas, e a água
potável tinha que ser racionada. Muitas testemunhas
relataram como aquele ambiente apertado, de concreto
e artificialmente iluminado pesava sobre os ânimos;
e Goebbels confidenciou ao seu diário que procurava
evitar aqueles recintos o máximo possível,
para não se tornar vítima da desolação
reinante. Não foi, portanto, sem motivo,
que se chegou à conclusão de que o cenário
subterrâneo contribuiu para as decisões
irreais que foram tomadas, nas quais exércitos
de fantasmas eram convocados para operações
de ataque que jamais aconteceram, e batalhas para fechar
o cerco eram deflagradas apenas na imaginação.
Parecia que o próprio Hitler era o mais afetado
pelo cotidiano numa caverna a 10 metros de profundidade.
Tudo, nele, tornara-se ainda mais patente: sua pele,
que já era viscosa havia anos, as feições
ultimamente intumescidas, e as bolsas escuras e inchadas
sob os olhos. Bastante curvado e com movimentos estranhamente
oscilantes, ele andava muito próximo às
paredes do bunker, como se procurasse apoio. Em função
dos efeitos, muitos observadores mais perspicazes tinham
a impressão de uma caducidade dramaticamente
simulada. Pela primeira vez, ele dava sinais de negligência.
Seu uniforme, até então impecável,
apresentava manchas de restos de comida; nos cantos
dos lábios, havia migalhas de bolo; e sempre
que segurava os óculos com a mão esquerda,
ao fazer um relato da situação, eles batiam
de leve no tampo da mesa. Às vezes, ele os colocava
de lado, como se tivesse sido pego em flagrante, já
que o tremor dos membros contradizia seu lema, que uma
vontade resoluta pode tudo. Mesmo que minha mão
trema, ele haveria garantido a uma delegação
de antigos combatentes, e mesmo se minha cabeça
começar a tremer, meu coração jamais
tremerá. Um oficial do Estado-Maior descreveu
da seguinte forma o aspecto de Hitler durante aquelas
semanas:
Ele sabia que tinha perdido a oportunidade e que
não tinha mais como ocultar o fato. Fisicamente,
seu aspecto era horrível. Cansada e pesadamente,
jogando a parte superior do corpo para a frente e arrastando
as pernas atrás de si, ele se movimentava dos
seus aposentos para a sala de conferência no bunker.
Faltava-lhe a sensação de equilíbrio;
quando era parado no curto percurso (20 a 30 metros),
tinha de se sentar em um dos bancos dispostos nas paredes
do corredor com esse propósito, ou se segurar
no interlocutor... Os olhos estavam injetados; embora
todos os documentos destinados a ele fossem escritos
em 'máquinas de escrever do Führer', cujas
letras tinham três vezes o tamanho das normais,
ele precisava de lentes grossas para lê-los. No
canto dos lábios, via-se com freqüência
saliva...
Algumas pessoas também tinham a impressão
de que Hitler decaía mentalmente a cada dia.
Quando costumava voltar às seis da manhã
dos informes noturnos, jogava-se no sofá para
ditar as instruções do dia seguinte para
uma de suas secretárias. Assim que ela entrava
na sala, ele se levantava com dificuldade, segundo uma
delas, para, novamente, deixar-se cair exausto
no sofá; quando, então, o criado suspendia
seus pés num descanso. Ele permanecia estendido
em completa apatia, com um único pensamento:
chocolate e bolo. Seu desejo insaciável por bolo
tornou-se absolutamente obsessivo. Se antes comia, no
máximo, três pedaços, agora pedia
que enchessem o prato até três vezes.
Outra secretária reclamou da perceptível
monotonia com que, freqüentemente, falava: Ele,
que antes conversava apaixonadamente sobre todos os
temas, agora só sabia falar sobre cães
e adestramento, nutrição, e a ignorância
e maldade do mundo.
Apenas diante de visitas ele era capaz de se libertar
da soturnidade de seus sentimentos e conseguia recuperar
seu poder sugestivo e domínio sobre a persuasão.
Costumava fazer uso de uma lembrança, do nome
de um experiente comandante ou de uma insignificância
grandiloqüente para encorajar a si próprio
e à visita; e construía, em sua fantasia,
a partir de palavras-chave fortuitas, forças
combatentes imensas que já estavam a caminho
dos portões da cidade para dar início
à batalha decisiva.
Afinal, os russos lutavam com mercenários,
asseverava, e a supremacia de que se vangloriavam não
passava do maior blefe desde Gêngis Khan.
Ele sempre retomava a arma milagrosa, que
provocaria a guinada definitiva e envergonharia todos
os pusilânimes.
Embora estivesse enfraquecendo a olhos vistos, Hitler
não abria mão do comando das operações.
Um misto de perseverança e de consciência
da missão que tinha sempre o reanimavam; acrescente-se,
ainda, uma desconfiança dilacerante que o levava
a crer que seus generais pretendiam expô-lo ou,
até, entorpecê-lo com a ajuda de seu médico,
Dr. Morell, e, assim, tirá-lo de Berlim. Apesar
de conseguir controlar-se de um modo geral, às
vezes, era tomado de cólera e, uma vez, esbravejara,
com os punhos em riste e tremendo por todo o corpo,
contra seu chefe do Estado-Maior, Guderian, que chegou
a dispensar nos últimos dias de março.
A sua solidão era patente agora. De quando em
quando, um morador do bunker ficava observando como
Hitler se esforçava para subir a estreita escada
que levava à saída para o jardim, mas
desistia no meio do caminho, extenuado, e dava meia-volta;
e como, freqüentemente, ia para o lavatório
ao lado do corredor central, onde se encontrava o canil.
Demoradamente e com uma expressão estranhamente
vazia, ele brincava com sua pastora e os cinco filhotes
os quais ela dera à luz no início de abril.
Do lado de fora, além dos muros de concreto de
vários metros de espessura, grassavam os caprichos
de uma guerra terminal por seu esgotamento e miséria,
uma guerra que já temia uma desforra. Nenhuma
das frases doutrinadas sem cessar pelo aparato propagandístico
justificava essa realidade e o contínuo medo
da morte que a acompanhava. É bem verdade que
os adereços no cenário montado de crença,
honra e fidelidade ainda surtiam efeito sobre uma minoria.
A grande massa, no entanto, há tempos já
suspeitava do páthos daquelas fórmulas.
Todo aquele que havia conseguido manter o juízo
ou que o havia recuperado com o fim iminente não
queria saber mais nada de palavras de perseverança
ou citações acerca de bastiões,
sobre as quais o império se ergueu, como herói
solitário, contra a nova cavalaria apocalíptica
formada pelo judaísmo mundial, o bolchevismo
e a plutocracia; palavras e citações que
relembravam a sorte ou a honra do prestígio perdido
e, mais uma vez, comemoravam aquela idealização
do desprezo pela vida, que, no passado, exercera tamanha
atração sobre a alma alemã.
Com as frentes de batalha fragmentadas, o material de
defesa insuficiente e o horror diário e sem fim,
era impossível não ouvir aquele som surdo,
característico de tais chamamentos. Vingança,
nossa virtude! Ódio, nosso dever! era o
clamor para sustentar a defesa. Corajosos e fiéis,
orgulhosos e altivos, transformaremos nossos fortes
em valas comuns das hordas soviéticas... Sabemos,
como todos, que a hora que antecede a aurora é
a mais escura. Pensem nisso, quando o sangue escorrer
pelos olhos durante a batalha e a escuridão envolvê-los.
O que quer que aconteça, a vitória é
nossa. Morte aos bolchevistas! Viva o Führer!
Visto Hitler haver ordenado, logo no início da
grande ofensiva russa, que todas as forças disponíveis
fossem para a frente oriental e defendessem Berlim já
às margens do Oder, a cidade e seu entorno ficaram
desprovidos de tropas experientes e suficientemente
armadas. O tenente-general Hellmuth Reymann, comandante
de batalha dessa cidade, que já adquirira status
de fortaleza em 1º de fevereiro, repetia, com freqüência,
que precisava de, pelo menos, 200 mil soldados experientes.
Em vez disso, ele não dispunha nem da metade
desse número, arrebanhado de sobras de um Corpo
de Blindados, do Regimento da Guarda, de algumas unidades
casuais oriundas das diversas armas, bem como, aproximadamente,
quarenta batalhões de colunas civis, formados,
em sua maioria, de aposentados e uns 4 mil adolescentes
da Juventude Hitlerista. Acrescente-se a eles algumas
unidades de pioneiros, bem como as tropas destacadas
para fazer a defesa antiaérea da cidade. As unidades
da SS e da polícia que se encontravam em Berlim,
no entanto, não respondiam ao seu comando. Todos
os pedidos de reforço de Reymann eram negados
por Hitler com a alegação de que havia
tropas, tanques e munição suficientes
no caso de haver uma batalha por Berlim.
O pior era que, em nenhum momento, existiu um plano
de defesa concreto. Algo que teria demandado um trabalho
em equipe e investimento em tempo e treinamento, agora,
tinha de ser improvisado às pressas, de acordo
com a ocasião. Além disso, Reymann via-se,
continuamente, enredado em disputas sobre quem tinha
a autorização de comando. Às vezes,
as ordens chegavam do Alto Comando do Exército,
sob o marechal-de-campo Wilhelm Keitel; outras, do chefe
de Estado-Maior, general Hans Krebs; e ainda outras,
de Heinrici. Além do mais, Hitler interrompia
freqüentemente a cadeia de comando com sugestões,
cuja inconstância acompanhava a volubilidade de
seu humor, de forma que o comandante das Forças
de Defesa de Berlim nunca conseguia ter clareza sobre
a situação.
O caos na organização ainda era reforçado
por Goebbels, que, como chefe do distrito de Berlim,
acumulava a função de comissário
de defesa do Reich. Desde que a guerra total
por ele advogada fracassara devido à oposição
generalizada, ele via, agora, a oportunidade de impor
seu intento, tendo recebido, inclusive, a autorização
de Hitler para formar batalhões femininos. Em
todas as discussões referentes ao posicionamento
e emprego das tropas, Goebbels, acossado pela inveja,
insistia em afirmar que era o único responsável
pela defesa da cidade. Por conseguinte, ele via Reymann
como seu subalterno e exigia sua presença, em
seu gabinete, durante as reuniões. Nesse galimatias
de atribuições contraditórias,
de constante troca de pessoal, de conversas cruzadas
no âmbito do comando, bem como de falta de clareza
sobre as forças e recursos disponíveis,
produzia-se uma confusão que tolhia mais do que
beneficiava a defesa da cidade.
Além disso, Goebbels, sem levar em conta as determinações
dos militares, criava suas próprias disposições
de defesa e, por exemplo, convocava um Grande
Conselho de Guerra às segundas-feiras,
no qual reunia vários comandantes, altos líderes
da SS e da SA,2 além do presidente da Câmara
Municipal, do presidente da corporação
policial da capital do Reich, até influentes
representantes da indústria. Dia após
dia, sua Tropa de Recrutamento saía
com a missão de esquadrinhar firmas privadas
e serviços públicos atrás de civis
aptos para o front. Os números que ele apresentava,
no entanto, não surpreendiam mais, mesmo depois
de ter transformado aquele grupinho aflito de civis
num regimento impaciente por entrar em ação
na luta pelo Führer e pela pátria.
Ao mesmo tempo, por outro lado, havia uma falta crônica
de tudo o mais: tanques, artilharia e armas individuais,
combustíveis e equipamento militares de todo
o tipo. No zoológico, unidades de colunas civis
treinavam o ataque inimigo, arrastando-se sobre o solo
enquanto, ao lado, escondidos no mato, seus companheiros
batiam com pedaços de pau em latas vazias para
imitar tiros de metralhadoras. Em outro lugar, rolos
de papelão eram moldados para o treinamento com
bazucas ou barreiras de rua eram construídas
com paralelepípedos, veículos destruídos
durante ataques aéreos, estrados de camas e toda
sorte de tralha. Cada civil que fazia parte da tropa
de combate dispunha, e somente no caso de ter um fuzil,
de munição para cinco tiros. Mas isso
nem sempre era uma vantagem. Enquanto as armas, geralmente,
eram de produção alemã ou tcheca,
os cartuchos vinham da Itália, França
ou outros países que já haviam sido aliados
ou inimigos da Alemanha em outras guerras. Somados havia,
além de espingardas de caça e demais fins
esportivos que a população havia sido
obrigada a entregar, mais de 15 tipos de fuzis, bem
como incontáveis tipos de munições.
Nada combinava com nada. Era a imagem da desorganização
que se estampava do lado alemão.
E, de fato, unidades de colunas civis e do exército
marchavam por várias das largas ruas de acesso
aos subúrbios para defendê-los e encontravam-se
com outras unidades do outro lado da rua que tinham
a missão de defender o aeroporto de Tempelhof
ou o porto Westhafen, próximo ao Centro. O general
Reymann havia afirmado que todos que não fossem
aptos para o serviço militar podiam abandonar
a cidade. Ao mesmo tempo, contudo, Goebbels havia ordenado
que um edital fosse afixado à porta de cada casa,
segundo o qual, por ordem do Führer [...]
todos os homens de 15 a 70 anos deveriam cumprir
o chamamento às fileiras, sem exceção.
Quem se esconde covardemente nos abrigos antiaéreos,
finalizava, acabará numa corte marcial
e será punido com a morte.

Apenas os propagandistas continuavam infatigáveis.
Goebbels afirmava, com frio cinismo, que, dia após
dia, eles davam o melhor de si para motivar os medrosos:
uma descrição detalhada do horror que
seria uma Europa Bolchevista, com as pilhas
de mortos, mulheres violadas e crianças massacradas.
E Bormann completava dizendo que a mesma história
podia ser recontada sempre de outra forma, impregnando
essas imagens cruéis que despertariam a determinação
para a guerra e acabariam, até mesmo, dissolvendo
a coalizão inimiga.
Desde o início da segunda quinzena de abril,
quando os jornais berlinenses haviam suspendido suas
publicações, a tática usada para
levantar o moral era, convenientemente, espalhar rumores.
As vitórias dos aliados, segundo supostas fontes
fidedignas, não passariam de uma estratégia
de guerra do Führer, que haveria atraído
o inimigo, propositadamente, o máximo possível
para o interior do país, de forma a poder eliminá-lo
de vez, no último momento, quando não
sobraria homem, cavalo ou carroça.
Ou disseminavam-se boatos, segundo os quais, o general
Krebs haveria entrado em contato com os russos e lembrado
ao ditador soviético o período em que
havia sido adido militar em Moscou, quando fora publicamente
abraçado e beijado por ele, assim comovendo Stalin,
que teria evocado a Irmandade de Armas de
outrora. Ou ainda, cursava a opinião de um suposto
perito militar, cuja conclusão era
que, nesta hora decisiva, todos aqueles anos de resistência
aos bombardeios, em impotente desespero, tornavam-se
agora favoráveis e afortunados, por haverem preparado
Berlim justamente para o seu papel na luta corpo-a-corpo.
Como repetidamente comprovado pela história militar
de todos os tempos, nas lutas homem a homem nas ruas
e construções, o defensor tem, notoriamente,
vantagem sobre o agressor.
Também se falava de submarinos
com projéteis estratosféricos
que reduziriam Nova York a pó, bem como de granadas
de gelo, com sua névoa ácida. A população
ouvia o discurso bizarro com um ceticismo crescente
e, freqüentemente, mordaz. A propaganda, segundo
um ditado popular, seria como a banda do navio que vai
a pique: enquanto é puxada para o fundo, ela
repete sempre as mesmas melodias animadas já
que as demais partituras se encontram na administração.
Os Tribunais de Campo motorizados descreviam de forma
mais exata a situação real e o estado
de espírito reinante. Nessa época, eles
caçavam, ininterruptamente, desertores pelas
ruas, em casas, empresas e ruínas. Caso surgisse
a mais insignificante suspeita, eles atiravam nos traidores
ou enforcavam-nos incontinenti. Em 15 de fevereiro de
1945, Hitler determinou a criação de tribunais
especiais, com autonomia sobre todos os tipos de delito
que ameaçassem tanto a força de
combate quanto a determinação para o combate.
Esses tribunais eram formados por um juiz, um representante
do partido e um oficial do exército ou da SS
armadas. Dez dias depois, Himmler criou um corpo adicional
de conselhos de guerra especiais; e, logo depois, em
9 de março, foi criado um conselho de guerra
ambulante, sob o general-tenente Rudolf Hübner,
que recebia ordens diretamente de Hitler. Parecia que
a esperança que restava era obtida, apenas, mediante
ameaças de punição.
Com isso, os informantes dos serviços secretos
relataram, em meados de abril, que a confiança
da maioria da população em seus líderes
se esvaía de forma vertiginosa. Cada vez mais
funcionários públicos, constatou Goebbels
irritado, desapareciam como por encanto; o partido havia
perdido sua importância. Tanto mais indignados
ficavam os que descobriam que, desde meados de março,
em muitas áreas da cidade, dezenas de pessoas
executadas pendiam de árvores e postes, e, como
que para potencializar a intimidação,
havia barricadas e barreiras de tanques. Por motivos
óbvios, não há dados sobre o número
exato. Estimativas cuidadosas arriscam perto de mil
vítimas executadas nos três últimos
meses da guerra. Alguns comandantes estavam tão
indignados com a selvageria que ordenaram suas tropas
- a exemplo do general-major Hans Mummert, comandante
da Divisão Blindada Müncheberg
- a enfrentar os juizados especiais, se necessário
fosse, de arma em punho.
A derrota era fato consumado e a continuação
era uma guerra que transcendia seu fim. Lá longe,
brilhava o fogo-fátuo de esperanças despropositadas.
Gerda Bormann, esposa de Martin Bormann, escreveu ao
seu marido que a situação a lembrava do
Crepúsculo dos Deuses, na Eda:3 Os gigantes
e os anões, o lobo, Fenris, e a cobra, Mitgard,
todas as forças do mal [...] atiravam-se sobre
as pontes dos deuses [...]. O castelo dos deuses balança
e tudo parece perdido. Mas eis que se eleva novo castelo,
mais bonito que jamais dantes, e Baldur vive, novamente.
Ela enveredava por uma das rotas de fuga mais familiares,
a fuga da realidade para o lugar-comum mítico.
Mas essa fuga terminava repentinamente porque não
acompanhava os bastidores em ruínas das cidades
incendiadas, nem a trajetória dos refugiados
pelas ruas, nem o caos crescente por todo lado. Também
não passava pela urgência pertinaz e irresistível
com a qual os aliados, tanto ocidentais quanto orientais,
conquistavam um território cada vez maior do
país. A resistência sucumbia visivelmente.
Em qualquer lugar algum, aonde ordens não
chegavam, encontravam-se unidades em processo de desmembramento.
Entrementes, Hitler comandava apenas alguns postos afastados
que, aparentemente, estavam nas mãos de fanáticos,
além de uma área em torno da cidade que
se reduzia paulatinamente.
Não obstante tudo isso, o que se passava durante
aqueles últimos dias da guerra parecia conter
uma energia desesperada, que tinha como objetivo patente
transformar a derrota em uma catástrofe. Caso
não vençamos, havia dito Hitler já
no início dos anos 1930, quando fantasiava sobre
a guerra por vir, então, durante o nosso
colapso, arrastaremos meio mundo junto no ocaso.
Agora, era hora de concretizar sua previsão.

Fonte:
No Bunker de Hitler - Os Últimos Dias do III
Reich/2002- ©
Joachim Fest
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